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Crônica

      

        Depois da chuvarada

                                                             Flávio Luis Ferrarini

 

Chove e venta. Além de chover bicas e ventar, troveja. Os trovões fazem tremer os prédios. E vou dizendo assim logo de cara: gosto disso. Gosto da chuva-pugilista que castiga a cabeça dos imprudentes. Gosto da chuva-polícia que prende criança dentro de casa. Gosto da chuva-máscula que engravida córregos, arroios e rios. Gosto de chuva-dentista que arranca troncos de árvores cariados pelos cupins e os carrega correnteza abaixo. Gosto até mesmo de chuva miúda, contra a qual podemos nos defender com esses guarda-chuvas automáticos de bolso.

Digo gostar de chuva, apesar de ter passado por maus bocados debaixo de temporais. O primeiro sufoco aconteceu-me na idade dos dez. O tempo estava calmo, mas de um minuto para outro, as nuvens untaram-se à óleo diesel queimado. Apesar da ameaça, subi num pé de pêra. Galguei os galhos mais altos no encalço das frutas mais maduras. 

De repente, começou a ventar forte. As rajadas de vento levavam os bem-te-vis de um lado a outro, como se fossem pedaços de pano. E eu lá no alto, me lambujando. A ventania aumentou e, quando dei por mim, soprou uma rajada de vento tão brusca que arrancou o pé de pêra e o atirou violentamente ao chão. Na verdade, fomos atirados os dois: eu e o pé de pêra. Não demorou um segundo para cair chuva de pedra. Todavia, nada disso deixou em mim qualquer trauma.

Houve também um sábado que guardo bem memória. Tinha uma festa lá no Paredes. Uma festa de comes e bebes. Vinha eu sozinho pela estrada que descia do sul em direção a minha casa, a fim de embonecar-me com  roupa domingueira. Passei pelo prado, pondo todo o coração no canto. Ao pular a cerca de pedra, um relâmpago rasgou as nuvens. Depois mais outro. Botei molas nas pernas. Desci a ladeira íngrime a toda pressa.

A poucos metros de casa, mal tive tempo de saltar um pequeno barranco e, de forma inesperada, desabei no meio do chão. Só dei por mim alguns segundos depois, com o cão Tupi sentado junto aos meus pés, abanando o rabo de leve. Levantei-me meio zonzo. 

Entrei em casa, não havia luz. Fui recolher a roupa no varal, não havia mais roupa e nem varal. O raio queimara o fio de arame. Fui até a árvore que sustentava o varal, estava aberta ao meio pela machadada do raio fulminante. Mais uma vez, porém, o susto não apagou minha coragem diante dos fenômenos da natureza. Ao contrário, senti como se tivesse tido uma iluminação.

O que me faz conservar minhas lembranças da infância é o nariz mais do que os olhos. A riqueza de cheiros está em toda parte. O pés chapinhando poças d’água. O cheiro de terra molhada. O cheiro da uva madurando no parreiral depois da chuvarada. O cheiro da mata se resfolegando com um chuvão daqueles.

Estiagens, com seus braços mais curtos ou mais longos, que deixam o ar parecendo fumaça e pesado como chumbo, com nuvens de poeira por todo lado. Calorões que fazem com que as pessoas andem de boca aberta feito uns corvos velhos, trazem-me uma certa aflição de espírito. Portanto, que chova e chova, até secarem meus olhos.

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Flávio Luis Ferrarini é

Publicitário, escritor e poeta gaúcho não necessariamente nessa ordem.

Tem 16 livros publicados nos gêneros: poesia, conto, novela, crônica e narrativa infanto-juvenil. Sua coletânea Minuto diminuto (1990) mereceu elogios rasgados do poeta José Paulo Paes. Visite seu site:

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