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Crônica política

                                                     

Fogo de morro acima e água de morro abaixo:

as eleições em São Paulo

 

         Laurindo Junqueira Fº

 

Foi com Duda Mendonça que aprendi a fazer cálculos eleitorais. Não que ele estivesse a fim de me ensinar qualquer coisa, que bahiano não dá milho a bode, muito menos esse a este. Nos poucos dias que Duda passou em Campinas ensaiando a campanha de Jacó Bittar, que certamente seria vitoriosa, mas não foi, aprendi coisas interessantes sobre como rezar terços e abençoar coqueiros eleitorais, coisa que só um soteropolitano religioso, chegado ao fazer nada deitado numa rede, sob a sombra das folhas de uma palmeira, poderia saber.

Para Duda a melhor situação prá um marketeiro começar uma eleição seria a dos Três Terços. Talvez houvesse algo de religioso nisso, porque é terço demais da conta prá um descrente como eu. E, além disso, ao contrário, a pior situação prá o marketeiro começar uma campanha seria a de o candidato estar na situação de quem chegou ao alto de um coqueiro. Claro que isso tudo é a opinião de um marketeiro e não necessariamente de um candidato. O marketeiro sempre acha que ele próprio é imprescindível e o candidato acha exatamente o contrário, isto é, que ele é que é imprescindível, já que sem ele sequer eleição haveria, quanto mais marketeiro. São coisas típicas que só bahiano tem, religioso e fervoroso como quase sempre é e observador atento dos mais leves traços que pairam no ar, como há de se ver a seguir.

Mas Duda entendia, já nos anos 1990, que o transporte e o trânsito seriam o mote de muitas das campanhas futuras, não só naquelas campinas como alhures também. Coisas do além, certamente, de gente que vê muito além das folhas dos coqueiros.

Pois foi Kassab quem começou, na São Paulo de 2008, na situação dos Três Terços. E foi Marta quem começou no Alto do Coqueiro. Sorte prá ele e azar prá ela, diria Duda, o meu guru das eleições. Dizia ele que em se estando no alto do coqueiro não há mais para onde ir e que cada milímetro ou ponto percentual subido chega a custar a alma, cuja falta se fará sentir em momentos mais importantes do futuro incerto. Quem começa no alto de um coqueiro não tem mais como subir. Só lhe resta descer, mais dia menos dia. Fica como corredor coelho, que sai na frente prá estimular os outros e vira alvo de todos os demais que vêm atrás. Serve apenas como referência, como benchmarking, no dizer dos marketeiros. E nunca ganha corrida nem eleição nenhuma. Marta está ameaçada de virar coelho, daqui prá frente, se perder mais uma vez. Talvez Lula adore essa hipótese, já que ela teria cometido o erro politicamente abominável de vincular-se a outro financiador de campanhas que não ele próprio. Lula, de fato, não costuma ter muito tato, ao financiar campanhas...

Quem sai nos Três Terços, esse está no paraíso dos marketeiros, com a ajuda de todos os Santos. Trata-se do seguinte. As opiniões dos cidadãos sobre algum candidato ou um prefeito etc. se dividem em cinco classes: péssimo, ruim, regular, bom e ótimo. Os marketeiros juntam as duas piores e as duas melhores classes de opinião em apenas duas categorias e deixam numa terceira categoria as opiniões do “regular”, quase como um fiel de balança. Formam com isso três categorias de tanques: o primeiro tanque contém o péssimo+ruim; o segundo tanque compõe-se do regular; e o terceiro e derradeiro tanque reúne o bom+ótimo. Nas campanhas e durante os governos, os marketeiros fazem verdadeiras mágicas para migrar votos do primeiro tanque para o segundo e deste para o terceiro. Vale a pena acompanhar o seu trabalho quase insano.

Mas a coisa não pára aí. Há ainda dois outros tanques suplementares: o das rejeições e o das aceitações. Tem eleitor que acha ótimo um prefeito, mas rejeita votar nele como candidato. E também tem o contrário, isto é, o que acha ruim um dado prefeito, mas até topa votar nele como candidato. Tem disso. Tem gente prá tudo. Eleição tem sempre algo de comparação. A depende de como são os demais candidatos, muitas são as possibilidades de os votos se comporem desta ou daquela forma.

A grande sacada está em como fazer a rejeição de um candidato migrar para a avaliação do ruim+péssimo, assim como a avaliação de bom+ótimo de um prefeito migrar para a aceitação dele como candidato. Costuma-se ter táticas específicas e muito singulares para trabalhar cada migração dessas, começando-se pela diminuição da rejeição, indo depois para a transferência do péssimo+ruim para o regular, em seguida a deste para o tanque do bom+ótimo e, finalmente, a transferência das opiniões boas e ótimas para a intenção de votar no candidato.

Os marketeiros, nesse fluxo de opiniões e de intenções de voto, preferem, quando estão começando uma campanha eleitoral, a situação dos Três Terços. E abominam a situação do Alto do Coqueiro, assim mesmo, grafada com maiúsculas, dada a sua importância crucial. Expliquemo-nos.

 A situação dos Três Terços é a seguinte: o primeiro e o pior dos três tanques deve ter um terço de péssimo+ruim; o segundo e mediano tanque deve ter um terço de regular e o terceiro e melhor e derradeiro tanque deve ter um terço de bom+ótimo, completando os três terços que compõem a unidade, isto é, os 100% das opiniões. Três Terços, portanto, não tem nada a ver com religião. Duda&Deus que me perdõem.

Kassab começou sua campanha na melhor situação do mundo prá os marketeiros: um terço de ruim+péssimo, um terço de regular e um terço de bom+ótimo. Os três tanques estavam no mesmo nível. Marta, ao contrário, começou na pior situação para os marketeiros: no alto do coqueiro. Contrariamente ao senso comum, os marketeiros não gostam nenhum pouco dessa história de candidato começar com 70% das intenções de voto. Primeiramente, não gostam porque isso desvaloriza o seu trabalho. Político tem sempre ego inflado e isso é fundamental prá o sucesso eleitoral. Ninguém vota em tímido nem em quem tem ar de derrotado. Mas o candidato que começa muito alto não dá a mínima pro marketeiro e faz o que bem entende na campanha, comete indisciplina, muda a agenda ao sabor dos ventos, fala o que lhe dá na venta...e paga menos ao marketeiro, negaceia, enfresca na hora de cumprir compromissos. São poucos os candidatos que começam no alto da glória e que conseguem deixar de cair durante a campanha. E água de morro abaixo... é muito difícil de segurar. Quem sai na frente dá sempre a impressão para os eleitores de que vai perder o fôlego, ainda mais quando as eleições se dão em época de Olimpíadas. Há honrosas exceções!

Esta é certamente uma condição singular. Eleições coincidindo com Olimpíadas acentuam o espírito competitivo que todo ser humano eleitor, seja ele grego ou troiano, paulista ou goiano, tem. Poucos torcem prá aquele que está na frente. Todos torcem prá o que vem atrás, superando competidores e correndo mais do que todos. Ficamos todos, sem exceção, com a secreta vontade de que aquele que vem atrás possa alcançar o que saiu na frente. Talvez Freud explique essa vontade universal que anima os apostadores dos jóqueis clubes e os torcedores das competições de natação, de corrida, de futebol. É como água de torneira - dizia Stanislau Ponte Preta, ao falar de seu time, o São Paulo -, que só fazia barulho no fim dos campeonatos. 

Mas hão, certamente, de perguntar: mas e os demais candidatos? E o Alckmin, como fica? Bom, diriam as estrelas, Alckmin não conta, ao menos no primeiro turno... Assim como Maluf e Soninha não contam. É duro dizer isso, mas eles são apenas atores coadjuvantes, quando não meros figurantes, nestas eleições. Bem pagos, todos, é verdade... E alguns terão que pendurar suas chuteiras, enquanto outras não. Esta é uma campanha essencialmente televisiva. E TV custa caro, muito caro, me disse Beto Mansur, dono de rádio e deputado federal, experiente nessas coisas. Quem não tem bala na agulha estará fora. Quem apostar errado no jogo que vai fazer, também. Terá de servir a algum senhor ou a alguma senhora. E, ao que parece, o senhor conseguiu fechar os acordos antes da senhora, já há um ano. Ela dormiu no ponto de algum ônibus dos corredores que insiste em dizer que construiu.

Já a situação do Alto do Coqueiro é outra. Marta e seu marketeiro sabem perfeitamente que é muito ruim sair logo de cara na situação de quem está no alto do coqueiro. O risco é muito alto, já que é esse o lugar que balança mais. Todo bom bahiano, como Duda, agora deitado em berço explêndido, sob a sombra de alguma palmeira, tem enjôo ao ficar olhando o balançar das folhas e dos cocos dos altos de um coqueiro. Dali, só se vai para baixo. Para cima não dá. Dá vertigem, gente. E, pior de tudo, de vez em quando cai um côco em cima da gente...

Mas, qual é o candidato que resiste à vontade de começar lá encima? Os cabos eleitorais e os puxa-sacos todos torcem prá que a coisa se decida logo, logo, no primeiro turno... Ninguém tem paciência prá esperar e... haja ego prá agüentar. Mas, para todo bom bahiano que, insistimos, deitado numa rede, acorda mais cedo prá ter mais tempo sem o que fazer, essa de estar logo de cara no alto do coqueiro é uma roubada, irmão.

Quem sabe teria sido este um diálogo travado na corte da candidata?

- Meu rei e minha rainha, olhando cá de baixo, balouçando ao som das ondas do mar e embalado por frescas brisas, ouvindo silente o som de Caymi, seria muito ruim começar, como vós pretendeis, logo no alto do coqueiro... Porque de lá não se sabe prá onde ir, minha deusa...

De fato, se tivessem se contentado com os 31% do início da Marta, bem próximo do terço recomendado por todos os orixás, teria sido muito melhor prá ela e prá eles... Prá que fazer a união com os nanicos logo de início? Eles fizeram pular as intenções de votos dos 31% iniciais para os 39%, logo de cara! E foram prá 41% logo em seguida. Prá que isso?! Só prá dar a impressão de que a coisa se decidiria no primeiro turno? Quem sabe essa seria uma condição fundamental: ou se ganhava no primeiro turno, ou seria muito difícil levar as eleições paulistanas, segundo Lula disse? Aliar-se explicitamente ao Bloquinho desde o início só pode ter sido jogo de tudo ou nada: ganhar no primeiro turno, ou perder no segundo turno.

Mas, quem sabe, não tenha sido essa escolha apenas uma questão de ego inflado da Candidata e dos seus aficionados? Quem sabe teria sido vislumbrado, na outra margem do rio, do lado em que está a Oposição, o interesse em fazer inflar exacerbada e artificialmente, com a ajuda dos vários institutos impolutos de pesquisas, coonestados pela imprensa não menos verossímel, os índices da candidata? Que tal dar-lhe uns três ou quatro pontinhos a mais, logo de cara? E fazer o contrário com os índices dos demais candidatos, em especial Kassab? A candidata seria empurrada meio contra a sua própria vontade prá o alto do coqueiro e, ao olhar para trás e para baixo, não veria ninguém à vista e conseguiria iludir-se com a perspectiva de levar já no primeiro turno?

A adesão dos nanicos foi muito negociada. Eles contam que Marta e o PT fez questão de ignorá-los, dizendo-lhes que, como certamente estaria ela no segundo turno, não precisaria deles para nada. Coisa de negociadores de sindicato. Espertos e competentes. Os 10 minutos de TV do segundo turno já estariam garantidos pela paridade eleitoral. E os votos comunistas e socialistas e “esquerdistas” iriam migrar, querendo-se ou não, com ou sem anuência dos dirigentes dos partidos nanicos, para o nome de Marta. Portanto, uma banana para eles! Nem um cargo no secretariado, nem um tostão “pras campanhas”...

Mas houve os que ponderaram que, indo-se para o segundo turno, estaria tudo perdido... Todos, sem exceção, unir-se-iam contra ela, exceto os nanicos de sempre. Seria preciso ganhar no primeiro turno. E, portanto, Marta precisaria, sim, dos parcos mas não poucos votos dessa turma.

Mas, a ameaçada adesão do chamado Bloquinho nos primórdios da campanha, ao ter sido superada, trouxe a Marta, subitamente, oito pontos percentuais a mais nas intenções de voto...

Os bahianos assustaram-se com isso. Você só deve ir ao alto do coqueiro quando quiser buscar um côco, meu rei. E daí prá baixo é ato incontinente. Ou desce ou cai.

Para Kassab o caso se deu diferente. Os três terços são como três caixas d’água. Não tem nada, absolutamente nada, a ver com religião, insistimos. Trata-se de fazer migrar as opiniões da caixa d’água dos que votam “péssimo+ruim” para a caixa d’água dos que votam “regular”. E, a seguir, fazer migrar os votos dos que votam “regular” para os que votam “bom+ótimo”. E, por fim – tarefa árdua! – fazer migrar as opiniões desses eleitores que acham o Prefeito atual como o máximo dentre os máximos, para as intenções de voto reais e concretas nas eleições. E, de quebra, fazê-los também declarar as suas intenções para o segundo turno. Embolar-se com Marta nas intenções de voto para o segundo turno, colocando-se dentro da mesma faixa de erro, é fundamental, agora, para acentuar o fogo de morro acima e a água de morro abaixo. Coisa complexa, heim?! É! Coisa de bons bombeiros bahianos.

Mas... quem está no alto do coqueiro agora é Marta e não Kassab. E quem começou nos Três Terços foi ele e não ela. Ele está no melhor dos mundos dos marketeiros – e ela no pior. É nesse mundo intangível para os demais cidadãos não soteropolitanos que eles reinam felizes e contentes. Kassab começou nas raízes do coqueiro, lá embaixo, comendo a poeira que o Diabo amassou, com direito a cisco no olho e a desaforos mis. Marta, no alto das folhas verdes e frescas, soprada pelas brisas dos altos dos coqueiros, está ela morta de medo do estigma cantado por Duda no embalo de Caymi. Em bom e arcaico portunhol, “duda” quer dizer dúvida. E é dela que vamos tratar doravante.

Diz Duda que se trata de fazer migrar, primeiramente, do tanque do último terço (dos péssimos+ruins) para o tanque do terço dos regulares, alguns poucos mas muito importantes votos. Reforçando o tanque dos que acham apenas regular o governo atual, estar-se-ia preparando a etapa seguinte... Passo seguinte – duas semanas após iniciada a campanha -, tratar-se-ia de fazer migrar do tanque do regular... alguns votinhos disponíveis para achar que bom+ótimo até que seriam uma nota plausível para o governo atual... Com isso, se abandonaria o equilíbrio virtuoso do início da campanha (33,3%,33,3%,33,3%= três terços) para algo como 30%, 36%, 33%. A seguir, a migração objetivaria alcançar 30%, 30% e... 39%, digamos. E assim por diante, até atingir os 45% de bom+ótimo atuais e de fazê-los chegar aos 50%. Tudo aos poucos, devagarzinho, como compete a um bom bahiano.

A seguir, a tática a ser aplicada deveria implicar aumento de disposição de voto, pois é isso o que interessa de fato numa eleição. Esse negócio de achar que um governo é excelente e ótimo é muito bom prá o ego, mas não decide eleição. O tanque dos 50% de bom+ótimo deveria, então, fazer migrar votos concretos para o candidato, algo como 25% do bolo total. E assim foi, tem sido e continuará a ser, desde, pleonasticamente, há um ano atrás.

Marta cometeu o erro de conseguir que os nanicos lhe acrescentassem oito pontos percentuais de uma só vez no início da campanha. Isso deveria ser a posteriori. Partiu dos 31% para os 39%, prá início de conversa. Almejava mais, com certeza. Mas não conseguiu. Os nanicos eram realmente nanicos. Com isso, conseguiu romper o equilíbrio, desajustou tudo, insurgiu-se contra os deuses brancos e os orixás negros, assim como contra as inteligências eleitorais bahianas, logo de cara! Deitou e rolou, cantou glórias e vitórias... e pôs tudo a perder. Quem se põe no alto do coqueiro no começo, dizia Duda a Jacó, vira alvo dos demais, que vêm logo abaixo. Todo mundo atira nela. E isso não ajuda em nada, meu irmão.

No Alto do Coqueiro o marketeiro tem que se esmerar em defender a candidata de múltiplos ataques. Todos atiram nela simultaneamente. Isso é muito difícil e exige muito esforço e muita grana. Especialmente numa campanha de TV, como a atual. Os recursos de artilharia armazenados para dias futuros têm que ser usados de antemão, antes da hora mais oportuna. E isso esgota as reservas futuras. Ainda mais, a logística vai pro espaço, gastam-se forças e recursos reservados para momentos cruciais que vêm pela frente...

Mais do que isso, qualquer esforço prá continuar subindo no coqueiro das intenções de voto resulta ser infrutífero. Gasta-se com apenas alguns milímetros de subida no coqueiro tudo aquilo que se previa se gastar em toda a campanha. E marketeiro de TV tem fome de recursos. Sem grana, nenhum deles trabalha mais do que o mínimo do piscar d’olhos do bahiano dormente sobre a sua rede... Ô gente insaciáááável! E experimente não lhes pagar e verás um côco cair-lhe sobre a sua impródiga cabeça...

Eis aí o quadro a ser assistido daqui para frente. Kassab crescerá dois a três pontos percentuais a cada semana, como vem fazendo desde o começo. Tendo saído dos 8% ou 13%, tanto faz, iria agora dos 23% para os 32%, se coisa ruim ou ainda melhor não lhe vier a acontecer. Marta terá que se reservar também ao mísero terço que lhe confere. Estarão quase empatados nas eleições. Os nanicos que ela tanto desprezou lhe farão uma falta enorme, pois alguns deles migrarão rapidinho para o lado do cavalo ganhador. Kassab dará a impressão ao torcedor paulistano que é exatamente esse cavalo-ganhador, isto é, aquele que vem de trás, que atropela e que, ao final das contas, chega à frente. Os seus 32% poderão crescer um pouco mais, a depender dos demais concorrentes. A ver! Pode Kassab até vir a ganhar o primeiro turno. E, incontestavelmente, ganhará o segundo turno, em qualquer condição, porque ele nunca desprezou os aliados. É esperar para ver. E quem viver verá.

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Laurindo Junqueira Filho

é Analista de Transportes Públicos

ex-Secretário Municipal de Transportes de Campinas e Santos

e cronista eventual do Tiro de Letra.