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Crônica

Entre a marola e o tsunami

*Jorge Fernando dos Santos

Não precisa ser especialista em finanças para saber quando as coisas vão mal no setor econômico. A atual crise internacional oriunda dos Estados Unidos terá sérias conseqüências, principalmente para os países em desenvolvimento. 

O Brasil não está diante de uma marola, como disse o presidente Lula. Trata-se de um tsunami, que poderá nos atingir a todos e varrer do mapa seu projeto de poder, que vinha dando certo exatamente por causa da estabilidade da economia globalizada.

O que mais nos assusta no atual governo é a falta de seriedade diante de assuntos que tanto afligem o cidadão. Até agora, a política lulista resumiu-se ao assistencialismo social, seguindo a receita populista que também caracterizou Getúlio Vargas.

A diferença é que, embora tenha sido ditador, Getúlio adotou postura de grande estadista e foi capaz de dar a vida pelo bem do Brasil. Quanto a Lula, basta julgarmos seu comportamento durante o escândalo do mensalão: não viu, não ouviu e não disse nada. Lavou as mãos feito Pilatos no credo.

A crise mundial arquitetada pelo grande capital tem como finalidade pulverizar o mercado, eliminando pequenos e médios concorrentes, bem como a ameaça de crescimento das economias emergentes.

Afinal, os EUA podem se dar ao luxo de destinar US$ 850 bilhões para salvar suas instituições financeiras. Países da União Européia tendem a seguir o exemplo. E quanto aos países do Terceiro Mundo, o que poderão fazer para minimizar os efeitos da crise sem pedir empréstimos?

Lula e seus ministros tentam fingir que as coisas não são tão sérias e que a economia nacional vai bem, obrigado. No entanto, é nítido o nervosismo do presidente, que já não consegue manter o tom galhofeiro de suas tiradas.

O comportamento da Bovespa, cujos acionistas têm amargado sérias perdas inclusive com ações da Vale e da Petrobras, as mais sólidas empresas do país, sinaliza o tamanho do rombo. Investidores internacionais buscam solidez em outros mercados, o risco Brasil cresce e as perdas nacionais se tornam inevitáveis. 

Crises econômicas são cíclicas e fazem parte do modelo capitalista. Marx e outros grandes teóricos sabiam disso. O problema principal dos países emergentes é a ausência de reservas cambiais para resistir aos grandes efeitos dos tsunamis. É como se um Jeca Tatu fosse a Las Vegas tentar a sorte num grande cassino, levando apenas alguns trocados no bolso.

O pior de tudo, no nosso caso, é que desperdiçamos os momentos de calmaria econômica e simplesmente não fizemos as reformas prioritárias para o real crescimento do país. Apesar do proselitismo dos governantes, o dever de casa não foi concluído. Setores prioritários como educação, saúde, segurança e transporte continuam a ver navios.

Definitivamente, o que é bom para o Primeiro Mundo não é necessariamente bom para o Brasil. Seguir modelos importados de realidades completamente díspares continua sendo um equívoco tupiniquim. Sequer conseguimos reforçar o mercado interno ou estreitar laços comerciais com países vizinhos, parte deles governada por presidentes populistas e fanfarrões.

No nosso caso, como ocorreu nos EUA, um setor que enfrenta sérios riscos é o da construção civil. Com o aumento da crise, vêm a alta dos juros, que gera inadimplência, falências, recessão e desemprego.

A bolha inchou de olho nos recursos do PAC, projeto eleitoreiro que surtiu efeito psicológico, mas cuja eficácia foi insuficiente. Resta-nos rezar e torcer pelo menos pior. A julgar pelos exemplos da história, boa coisa não vem por aí.

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Texto publicado no jornal Diário do Comércio, em 16/10/2008, e gentilmente cedido pelo autor.

*Jorge Fernando dos Santos é

Jornalista, escritor e compositor mineiro não necessariamente nesta ordem

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