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Crônica

    Estações dos relacionamentos

 

                                                             Flávio Luis Ferrarini

 

Que todo relacionamento passa por fases distintas, isso passa. Fases que se difereciam pelas características climáticas, como as estações do ano, duas das quais começam nos solstícios e duas nos equinócios. Ao invés de meses, os períodos costumam durar anos; mais para uns, menos para outros.

                              

                                     Primavera

É o período dos perfumes inebriantes. As formas de tratamento entre o casal vão do clássico “amor”, passam pelo “gato”, “bilu” e chegam ao “nenê”. A cama é pequena, de solteiro, mas cabem os dois com ligeira folga. Ele e ela dormem nus. Como, neste período, a economia de amor é desperdício, o casal faz do amor um ofício: na mesa da cozinha, debaixo do chuveiro, de pé no corredor, no tapete da sala. Presentes: peças íntimas muito sexy. Usam uma expressão de sentido oculto. Por exemplo: “Por você, me mato!” Tradução: “Juro que sou capaz de fazer isso mesmo!”

                                          Verão

É o período em que o relacionamento entra em férias. Enquanto ele dá duro no “aço” da fábrica, ela dá duro no “bronze” da praia. Os filhos já nasceram e o casal chama um ao outro de “pai e mãe” ou “nego e nega” ou, ainda, de “gordo e gorda”. Agora a cama já é de casal. Ele dorme de pijama e ela com a parte de cima do pijama dele. Fazem exercício no escuro, uma vez por semana. Presentes. Ela: relógio. Ele: jóias. Expressão: “Por você, me mato!” Tradução: “Preciso de dinheiro!”

                                        Outono

Neste período as folhas e outras coisas começam a cair. Tomam as formas de tratamento emprestadas dos animais do zoológico: anta, baleia, bode e outros menos nobres. A cama é de casal bem folgada, com uma divisória imaginária bem no meio dela. Os dois dormem de pijama completo. Pensam muito mais do que praticam sexo. Presentes. Ela: cueca GG. Ele: creme anti-rugas. Expressão: Por você, me mato: Tradução: “Se não sumir da minha vida, te mato mesmo!”

                                       Inverno

Os dois colocam o coração na geladeira para conservá-lo bem frio. Formas de tratamento: vó e vô. Dormem separados, de moletom e meias, uma cama de solteiro para cada um. Ainda trocam presentes, como pantufas e caixinhas para guardar remédios. Sexo é uma palavra que só aparece no dicionário. Expressão: Por você, me mato: Tradução: “Por que você não morre de uma vez?”

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Flávio Luis Ferrarini é

Publicitário, escritor e poeta gaúcho não necessariamente nessa ordem. Tem 16 livros publicados nos gêneros: poesia, conto, novela, crônica e narrativa infanto-juvenil. Sua coletânea Minuto diminuto (1990) mereceu elogios rasgados do poeta José Paulo Paes. Visite seu site: http://www.flavioluisferrarini.com.br

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