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Grandes Entrevistas

Julio Verne

Entrevista por Marie A. Belloc, publicada n O Estado de São Paulo, 25/07/1999

Extraído de: Entretiens  avec Julio Verne - Daniel Compere e Jean-Michel Margot (reunião e comentários). Paris: Editions Slaktine, 1999.                                                                                                                                                                                           

Interior burguês, ambiente bom burguês. Ao lado de sua "amável esposa", o "caro Júlio" responde às perguntas de uma jornalista inglesa, sobre seu método de trabalho, suas lei­turas... O autor de A volta ao mundo em 80 das, de Cinco semanas em balão e de muitas ou­tras histórias maravilhosas vive uma existência feliz e realizada em Amiens.

 

O número 1 da Rua Charles­ ubois é uma encantadora casa antiga. A porta é aberta por uma velha empregada que me con­duz pelo jardim, um gramado bem cuidado, enfeitado por den­sos tufos de plantas. Não há nenhuma folha seca nas alamedas de seixos em que o escritor passeia todos os dias. Degraus de pedra conduzem à entrada, uma varanda cheia de palmeiras e arbustos floridos, que leva ao salão no qual meu anfitrião e sua mulher logo me saudaram.

 

O célebre escritor é o primeiro a reconhecer que madame Jú­lio Verne desempenhou um importante papel em cada um de seus sucessos. É difícil acreditar que essa mulher alegre e ativa celebrou suas bodas de ouro há mais de um ano.

 

Legião de Honra

Júlio Verne não corresponde à imagem que fazemos de um grande escritor. Veste-se sempre de negro e sua jaqueta é decorada por um pequeno botão vermelho, indicando que a ele foi conferida a Legião de Honra. Não parece ter 68 anos. Verne não gosta de falar de seus livros nem de si mesmo. Sem a ajuda de sua mulher, seria impossível fazê-lo falar.

 

Não me lembro do tempo no qual eu não escrevia ou no qual decidi tornar-me escritor, observa, Sou bretão de nascimento. Nantes é minha terra natal, mas meu pai era parisiense tanto na educação quanto no gosto, apaixonado pela literatura, porém modesto demais para revelar seu trabalho. Era um poeta requintado Talvez por isso eu tenha estreado na carreira literária como poeta, diz

 

Contudo, minha primeira obra verdadeira foi uma comédia ligeira escrita em colaboração com Alexandre Dumas Filho, que continuou sendo um de meus melhores! amigos, acrescenta Verne após curta pausa. Nossa peça se chamava Les Pailles rompues (Relações rompidas), mas, por mais que gostasse de escrever comédias, elas não rendiam muito em termos financeiros. Ainda assim jamais perdi a paixão pelo teatro. Uma das maiores alegrias que tive foram as adaptações teatrais de meus romances, principalmente de Miguel Strogoff, revela. Já me perguntaram muitas vezes como tive a idéia de escrever romances científicos. Sempre me dediquei ao estudo da geografia. Creio realmente que minha paixão pelos mapas  e pelos grandes exploradores me levaram a redigir o primeiro de uma extensa série de romances geográficos, conta. 

 

Realismo  

Quando escrevi meu primeiro livro, Cinco semanas em balão, escolhi a África como cenário por ser esse continente menos conhecido do que os outros. Adorei escrever essa história e mais ainda as pesquisas a que me obrigou. Nem tentei tornar meus romances, por mais delirantes que fos­sem, tão realistas quanto possí­vel, explica. Terminada a reda­ção da história enviei o manuscrito a um editor parisiense muito conhecido, monsieur Hetzel. Esse homem notável e seu filho se tornaram meus amigos e sua editora está prestes a publicar meu 70° romance."

 

- Seu primeiro livro teve sucesso imediato, tanto na França quanto no exterior?

 

Cinco semanas em balão é um dos meus romances mais populares e eu já tinha 35 anos quando ele foi lançado, lem­bra. Ora, eu nunca quis apresentar-me como um sábio; mas nasci num tempo de descobertas notáveis e de invenções ma­ravilhosas".

 

 

Coincidência

Altiva, madame Verne intervém: “Sem dúvida a senhora sabe que, nos romances de meu marido, muitos fenômenos científicos, aparente­mente impossíveis, se realiza­ram?" Modesto, o escritor diz que tudo não passou de coincidência.

 

Coincidência nascida do fato de, ao inventar um fenômeno científico, eu tentar sempre tornar as coisas tão verdadeiras e simples quanto possível. Quanto à exatidão de mi­nhas descrições ela se deve ao fato de fazer inúmeras anotações quando da leitura de livros, jornais e revistas científicas", explica. "Assino mais de 20 jornais e leio todas as revistas científicas. Tenho enorme prazer em ler ou ouvir falar de uma nova descoberta ou experiência científicas, diz.

 

- Tira algumas idéias dessas leituras ou suas histórias nascem apenas de sua imaginação?

 

Acho impossível dizer o que inspira uma história. Talvez uma coisa ou outra. Muitas vezes conservo uma idéia na memória durante anos, antes de colocála no papel. A Volta ao Mundo em 80 Dias nasceu da leitura de um anúncio turístico num jornal, que mencionava ser possível dar a volta ao mundo em 80 dias, vindo-me imediatamente à memória que o viajante poderia ganhar ou perder num dia, nesse lapso de tempo, lucrando da diferença do meridiano. Graças a essa circunstância, meu herói, Phileas Fogg, chegou em casa a tempo de ganhar sua aposta, em vez de um dia mais tarde, como pensava. 

 

- Ao contrário da maioria dos escritores, o sr. gosta que seus heróis sejam ingleses ou estrangeiros?

 

Sim, eu acho que os povos anglófonos dão excelentes heróis, sobretudo quando se trata de aventuras ou expedições cientificas. Tenho profunda admiração pela coragem e o espírito empreendedor dessa nação, que plantou o Union Jack (bandeira britânica) em tantas partes do mundo.

 

Paixão

- As mulheres não costumam ter papéis importantes em suas histórias, observo 

 

Não concordo, de modo algum, retruca Verne passionalmente. Toda vez que uma personagem feminino se torna necessário pode ter certeza de que o encontrará. O amor é uma paixão absorvente, que deixa pouco espaço nos corações; meus heróis têm necessidade de toda a concentração, pelo que a presença de uma jovem encantadora, de quando em vez, poderia prejudicar a iniciativa. De mais a mais sempre cuidei de que minhas histórias possam ser lidas por todos os jovens, sem a menor hesitação. Evito escrupulosamente cenas que um rapaz não gostaria de ver sua irmã lendo. 

 

Biblioteca

Madame Verne convida-me a conhecer a biblioteca do marido, a que chega por uma escada em caracol, atravessando ma série de cômodos nos quais o escritor o escritor criou boa parte de seus livros. Nas paredes, grandes mapas. Testemunhos de sua paixão pela geografia. A porta revela um quarto do tramanho de uma cela. Verne levanta-se às 5 horas e antes do almoço, às 11 horas, já escreveu e corrigiu as provas de seus livros, e por volta da 20 horas está dormindo. A pequena câmara é despojada, com dois bustos, um de Moliére e outro de Shakespeare, e alguns quadros entre os quais uma aquarela do iate de Verne, o Saint-Michel. O escritório dá para uma sala magnífica, a biblioteca de Julio Verne. Suas paredes estão cobertas por fileiras de livros e no centro uma mesa verga-se sob o peso de jornais, periódicos relatórios científicos, sem falar de uma representativa coleção de revistas literárias francesas e inglesas. Caixas de papelão, ocupando pouco espaço, contêm vinte e tantas mil fichas preenchidas pelo escritor.  

 

“Dize-me o que lês e eu te direi quem és”. Essa seria uma excelente paráfrase de um dito antigo que se aplicaria muito bem a Julio Verne. Sua Biblioteca só existge para servir, não para aparecer. Exemplares surrados de seus confrade Homero, Virgílo, Montagne e Shakespeare – surrados, porém tão caros aos olhos de seu proprietário -, edições de  James Fenimore, Cooper, Charles Dickens e Walter Scott ostentam vestígios de uma utilização constante e também, em encadernação mais recente vários dos mais conhecidos romances ingleses também aí foram guardados.

 

Caloroso, Júlio Verne observa que esses livros

 

provam que é sincera minha afeição pela Grã-Bretanha. Durante toda vida tive prazer lendo os romances de sir Walter Scott e, durante uma inesquecível viagem às Ilhas Britânicas, foi na Escócia que vivi os melhores momentos

 

- Gostaria de saber sua opinião sobre nossa literatura juvenil e os romances de aventura. Com certeza o senhor sabe que nós, na Inglaterra, damos grande importância a esse gênero literário.

 

Oh sim, principalmente com esse clássico tão estimado, tanto pelos adultos quanto pelas crianças que é Robinson Crusoé. E talvez a sra escandalize-se ao saber que pessoalmente, preflro o velho Robinson Crusoé suíço. Costumamos esquecer que Crusoé e seu companheiro Sexta-feira não são mais do que um episódio de uma história em sete volumes. Para mim o grande mérito se livro é que, aparentemente, foi o primeiro romance desse gênero a ser escrito. E acrescenta rindo: Todos nós escrevemos um Robinson, sendo porém difícil saber se teríamos a idéia  sem seu célebre modelo

 

- Como classificaria outros autores de romances de aventura inglesa? 

 

Infelizmente só consigo ler os que foram traduzidos para o francês. Jamais abandonei Fenimore Cooper; alguns de seus romances merecem a imortalidade. Ouso esperar que serão lembrados bem depois de já terem sido esquecidos os gigantes da literatura que se lhes seguiram. Também amo muito os divertidos romances do Capitão Marryat. Graças à minha incapacidade de ler inglês, não estou bem familiarizado com Mayne Reid e Robert Louis Stevenson. Em todo caso A Ilha do tesouro, seu último romance, que tenho traduzido, me agradou muito. Lendo-o tive aimpressão de que tem um extraordinário frescor e uma força prodigiosa. Ainda não mencionei o escritor inglês que considero mestre de todos Dickens.

 

- Assim o rosto do rei dos narradores iluminou-se de entusiasmo juvenil. Acho que o autor de Nicolas Nickeleby, David Coperfield e Um grilo na lareira domina o sentimento da emoção, do humor, do imprevisto, da intriga, tem tantas qualidades que uma só bastaria para garantir a reputação de um autor menos favorecido. Eis ai mais um cuja notoriedade jamais se extinguirá, ainda que um dia seja posta na berlinda. Madame Verne chama minha atenção para as grandes prateleiras cheias de livros aparentando ser muito novos e poucos lidos. "Aqui estão diversas edi­coes de Verne em francês, ale­mão, português, holandês, sue­co e russo, até mesmo uma tra­dução japonesa e outra árabe de A Volta ao Mundo em 80 Dias", diz minha anfitriã, abrin­do as curiosas páginas encarde­nadas em tecido, que revelam as aventuras de Phileas Fogg para as crianças árabes. “Meu marido jamais releu seus romances. Seu interesse deixa de existir após a leitura das últimas provas. E isso apesar de já lhe ter ocorrido refletir durante anos sobre uma intriga ou sobre as situações de uma história”.  

 

Método de trabalho

-Qual é seu método de trabalho?  Pergunto ao escritor

 

Não vejo o interesse que o público possa ter, mas ainda assim vou iniciá-la nos segredos de minha cozinha literária, diz animado. Não recomendaria aos outros que procedessem da mesma maneira. Creio que cada qual trabalha a seu modo, sabendo, instintivamente, qual seria o melhor método. Pois bem, de início estabeleço as grandes linhas do romance. Jamais começo um livro sem saber começo, meio e fim. Até agora tive a sorte de sempre ter em mente não apenas um, mas uma meia dúzia de projetos bem determinados. Terminado o trabalho preliminar, estabeleço um plano de capítulos, começando então então a verdadeira escrita da primeira versão a lápis, deixando uma margem de meia página para as correções. Depois releio tudo e reescrevo a tinta. Acho que meu trabalho verdadeiro começa com a primeira coleção de provas, quando corrijo não apenas  cada frase, como também reescrevo capítulos inteiros. Parece-me que não domino o tema senão quando vejo o trabalho impresso. Feliz mente meu editor concede-me todo espaço para as correções e freqüentemente chego a ler oito ou nove provas. Invejo, mas não quero imitar, aqueles não vêem motivos para modificar ou acrescentar uma só palavra, desde o capítulo primeiro até a palavra fim, explica.

 

Hábitos regulares

- Esse método deve atrasar bastante o seu trabalho, comento.

 

Não acho. Mantendo hábitos regulares, produzo invariavelmente dois romances por ano. E estou sempre adiantado em relação a meu trabalho. Atualmente já es­tou escrevendo uma história que estava prevista para 1897. O que significa dizer que tenho cin­co manuscritos prestes a serem impressos. É bem verdade que isso não seria possível sem sacrifícios. Não tardei a reconhe­cer que um trabalho, exigindo uma produção constante e regu­lar, seria incompatível com os prazeres sociais. Quando jovens, minha mulher e eu morávamos em Paris, apreciando bastante as coisas mundanas e seus múltiplos atrativos. Mas há 12 anos tornei-me morador de Amiens, terra natal de minha mulher. E é aqui que a conheci há 53 anos. Pouco a pouco, to­das as minhas relações de amizade e meus interesses se concentraram nesta cidade. Tenho amigos que chegam a dizer que me orgulho mais de ser conselheiro municipal de Amiens do que de meu renome literário.

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