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Como escrevo?
Blaise Cendrars

“Nunca esqueço que o trabalho é uma praga - e, exatamente por isso, jamais fiz dele um hábito. Logicamente, para ser igual a todo mundo, nos últimos tempos quis trabalhar regularmente de uma dada hora a outra; já passei dos cinquenta e cinco anos e queria produzir quatro livros seguidos. Quando terminei, estava cansado demais. Não tenho nenhum método de trabalho. Experimentei, funcionou, mas isso não é motivo para me ater a ele pelo resto da vida. Tenho mais o que fazer na vida além de escrever livros. Um escritor jamais deveria se instalar diante de uma paisagem, por mais grandiosa que ela seja. Como São Jerônimo, o escritor deve trabalhar em sua cela. Dar as costas. A escrita é um panorama do espírito. “O mundo é minha representação.” A humanidade vive em sua própria ficção. É por isso que os conquistadores querem sempre transformar a face do mundo à sua própria imagem. Hoje, cubro até mesmo os espelhos. Entre os pouquíssimos escritores que tive oportunidade de visitar várias vezes, apenas um homem de letras, celebrado por seu culto alucinado a Napoleão, instalou-se diante de uma paisagem para trabalhar - uma paisagem histórica -; a janela de seu estúdio tinha vista completa do Arco do Triunfo. Mas a janela ficava quase sempre fechada, porque o espetáculo vivo da glória de seu grande ídolo, ao invés de lhe trazer inspiração, cortava suas asas. Dava para ouvir, através da porta, o pobre homem andando de uma lado para outro do estúdio, se debatendo, berrando algumas frases, experimentando sentenças e ritmos, gemendo, chorando sofrendo, como Flaubert em seu gueuloir. A mulher dele dizia então aos empregados: “Não dêem atenção. É apenas Monsieur corrigindo seu estilo”.

Fonte: Os Escritores 2:  As históricas entrevistas da Paris Review. S.Paulo: Cia. das Letras, 1989.

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