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Curiosidades

Literatura dá uma

mãozinha à politica

J.D. Brito

      

          

     Não é a primeira vez nem certamente será a última que a literatura ajuda a política dos mais variados modos. Vejamos mais uma dessas ajudas providenciais que salvou o ministro do trabalho Almino Affonso de uma enrascada, quando procurava exílio no Uruguai logo após o golpe de 1964.

     Devido a problemas com a documentação pessoal dele e de toda a família, pois tiveram que sair do país às pressas, o governo uruguaio criou certas dificuldades na concessão do exílio. As possibilidades que se apresentavam eram mandá-los para a Iugoslávia o voltar para o Brasil e serem presos (1).  

 

  No Chile, alguns brasileiros já exilados se mobilizaram no sentido de encontrar uma saída e o poeta Thiago de Mello, adido cultural do Brasil na Embaixada chilena, conseguiu-lhe um salvo conduto, com o qual poderiam viajar à Santiago. O documento teria que lhe ser entregue em mãos, e para isso aproveitaram o outro poeta que estava de viagem marcada para o Uruguai. O poeta era Pablo Neruda, e chegando à Asunción telefonou para Almino Afonso, se identificou e comunicou sobre o documento que deveria lhe ser entregue.

 

    -“Olha aqui! Eu já estou com problemas demais para tolerar trote”. E bateu o telefone na cara do poeta chileno.  

 

     Neruda voltou a ligar e disse que estava com um envelope para lhe ser entregue, enviado de Santiago por um conhecido em comum: o poeta Thiago de Mello. 

 

     Ao citar o nome do amigo, o telefonema foi concluído e o encontro efetivado. Interessante é que Almino Affonso também é poeta. Chegou a publicar livros de poesia e anos depois lamentou o fato de não ter se tornado um bom poeta. Naquele momento a política predominava. De qualquer modo, ocupa um espaço na literatura na condição de um do melhores oradores políticos do Brasil.

 

    Passados quase 50 anos, reencontro Almino Affonso numa reunião da UBE-União Brasileira de Escritores, em fevereiro de 2012, e relembro-lhe dessa história. Na ocasião ele ficou contente pela lembrança, mas fez uma retificação no título atribuído: “Não foi uma mãozinha que a literatura me deu; foi uma mãozona: no envelope que trazia o salvo conduto havia também U$ 200 dólares que os amigos brasileiros que estavam em Santiago me mandaram”.

 

     Mas o que fazia Almino Affonso na reunião da UBE? Tratava-se de uma reunião da chapa que estava assumindo a diretoria, para a qual ele foi convidado. De certa forma, pode se dizer que assim ele estava retribuindo a ajuda que recebeu dos escritores. O momento agora é inverso: é o político dando uma mãozinha os escritores.

 

(1) Memórias de Almino. Brasileiros, São Paulo, nº 32, mar. 2010.

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