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O RUMOR DA CRÍTICA
Nilson Oliveira
I
Quais as razões da crítica literária? O que quer? O que traz? Questões difíceis, sobre as quais uma comunidade de nomes, da literatura e do pensamento, se ocupou, engendrando toda uma produção, Os frutos de Ouro, sempre na direção de um fazer com, por entre uma diversidade de obras, fazendo da escrita uma máquina de criação, remetendo o fazer literário para as dobras de um pensar a literatura. Não obstante, segundo Deleuze: pensar é criar conceitos. A crítica torna-se uma vitalidade, matéria que através de uma força interpretativa encadeia todo um processo de produção. Já não se trata de comentar, numa volta ao texto reafirmando o que já foi escrito, mas de falar a partir de, seguir em frente, por entre o texto, num fazer duplo, no qual a escrita forja suas apostas, se desloca da origem, interpreta, trai [no sentido de seguir outro curso], dá à matéria pensada uma possibilidade de duplicidade, uma leitura outra. Assim vemos os encontros entre Deleuze/Proust; Blanchot/Kafka; Klossowski/Sade; Foucault/Russel. Mas é lógico, sabemos, esses são casos de encontros notáveis, uma verdadeira produção de filhos pelas costas, belos agenciamentos, nos quais escrever implica em fraturar a paisagem do mesmo, escrevendo sempre em desvio; em traçar uma linha por fora do bê-á-bá da representação, pois a crítica é sempre uma questão de criação, movimento que força a palavra para além do seu limite, para um ponto neutro, o próprio nada, espaço no qual as coisas se engendram fora da frugalidade das coisas do mundo e dentro de um aberto que cintila entre o possível e o indeterminado.
II
Ainda no curso da crítica, ouçamos o que diz Barthes: “a crítica é, certamente, uma leitura profunda (ou melhor ainda: perfilada), descobre na obra um certo inteligível e por aí, de fato, decifra e participa numa interpretação” (1) . Entendemos, com Barthes, que interpretar é um ato de vitalidade, é essencialmente afirmativo, um verdadeiro caso de possível, pois interpretar equivale a criar – à maneira do jazz –, interpretar interpretações e, com isso, gerar uma experiência tecida por um fazer próprio: singular. Portanto, a crítica é, sobremaneira, um ato de interpretação, logo, de criação.
Na cena literária atual, paradoxalmente, a crítica está cada vez menos em foco. As experiências nos cadernos e suplementos nos dão conta de que a questão da crítica passa alhures, por outras margens, fora da vulgata do jornalismo cultural, em uma obra ou outra, como em Altas Literaturas, mantendo com a escrita literária um encontro que não se rompe.
Qual o lugar da crítica? Leyla Perrone-Moisés apresenta uma observação pontual sobre essa questão: “a crítica não visa simplesmente auxiliar e orientar o leitor, mas visa principalmente estabelecer critérios para nortear uma ação: sua própria escrita, presente e imediatamente futura. Nesse sentido, é uma crítica que confirma e cria valores. Enquanto a crítica literária institucional tornou-se cada vez menos analítica e cada vez menos judicativa, a crítica dos escritores lida diretamente com os valores e exerce, sem pudores, a faculdade de julgar” (2). O que é julgar? Na escala dos valores literários, julgar consiste em pôr à prova, submeter a obra ao tempo, às questões que o tempo, a partir do seu movimento, faz revelar, numa relação livro-leitor; num diálogo infinito em que a força, a falha ou os pontos fracos da obra fazem-se revelar. Isso, no entanto, não está ligado a um juízo, mas à derivação, numa relação direta entre leitura e obra na qual a obra é profanada, tornando-se outra, e misteriosamente outra será a cada nova leitura.
III
Quando J. P. Richard leu Mallarmé, segundo percebemos em seu “universo imaginário”, o que viu foi mais que uma obra: uma constelação, um universo amplo e a um só tempo tão próprio e peculiar que se sentiu atraído para o seu centro. A experiência de Richard nos revela que antes da leitura especialista há o leitor, o leigo, que atravessa a obra como um cego tateando a superfície, e nela, quando o livro é vigoroso, tudo o que toca é sublime, indo aos poucos mergulhando na sua escuridão. Desse acontecimento surge a crítica como uma tentativa de pensar o tocado. Isso, porém, tem suas conseqüências, gera uma dobra, pois como evidencia Barthes: “Passar da leitura à crítica é mudar de desejo, é deixar de desejar a obra para desejar a própria linguagem. Mas, pelo mesmo ato, é também remeter a obra para o desejo da escrita, que a gerou. Assim gira a fala em torno do livro: ler, escrever, de um desejo para o outro caminha toda a leitura.(3) Mas a crítica é uma segunda leitura, pois vem de uma situação que acontece depois, em um misto de memória, falha e pensamento, como lampejos em que a obra lida volta a cintilar, porém aberta como uma ferida, dilacerada por um pensamento. Por isso J. P. Richard, mais que um crítico, é um pensador, e sua experiência nos serve para bem evidenciar a relação do leitor com a obra e as consequências que esse encontro pode gerar.
O crítico, hoje, mais que nunca, tem importância, como aquele que experimenta, que se aventura ao erro, e faz dessa viagem uma possibilidade de troca. Porém seu espaço, segundo vemos, é mais e mais escasso. Nesse vácuo surge o funcionário da literatura, dissimulado sob a imagem do jornalista ou do especialista da vez, dominando os cadernos de cultura, as publicações destinadas à literatura, se valendo de análises desnutridas, nas quais os autores e as obras são sempre tratados de um modo idiossincrático ou tendencioso.
Cabe dizer, pois, que esse empreendimento, por parte dos funcionários da literatura, acolhidos nas redações dos grandes e pequenos veículos, não é mera falha. Trata-se, evidentemente, de uma vontade política em estreitar, comprimir, amarrar os laços, ou seja, fazer rodar a esfera em torno das superficialidades, das pequenas verdades já que as regras, o jogo e os jogadores são sempre os mesmos, numa superfície petrificada, minada pelo juízo, contra o movimento, em nome do tédio e de uma razão de mercado. Esse é um ponto asfixiante, ou seja, um espaço que não varia e não permite variação.
Dessa forma, fechar é sempre da ordem do negativo, consiste em ruir no vazio, aceitando os limites ou, numa espécie de inversão, responder na mesma medida, condicionando-se a um tipo de ressentimento sob a égide de uma reação. Em outra medida, pensamos que a questão é de outra ordem, nem retração, nem reação: Ação, êxodo, mobilidade, fazendo da lacuna uma abertura e dessa abertura linhas de fuga por onde as coisas possam circular, enredando possíveis, inventando pensamentos outros em torno de interesses (sempre) abertos.
Apesar dos indícios pouco favoráveis, percebemos que pequenos agenciamentos não cessam de surgir com novas possibilidades, fraturando o mapa do estabelecido, criando alternativas de edição ligadas a um interesse calçado no literário, como faz o projeto Dulcinéia Catadora. É um modo de resistência. Essas investidas apresentam um horizonte em que o ritmo de produção é cada vez mais impreciso, totalmente fora dos radares do jornalismo cultural, fora da ética de mercado, imperceptível, mas acontecendo numa velocidade vertiginosa; movendo-se pelo deserto da escrita, caminhantes a caminho, sem pai, mãe, deus ou destino. Entregues ao sol, a um fluxo que constitui um saber órfão. Saber aberto às entranhas do desconhecido. Saber que inventa mapas, criando novas trilhas, abrindo clareiras, tecendo pacientemente um pensamento sem imagem, pensamento liberto de suas origens, acoplado a um saber órfão, a uma razão nômade, tal como nos diz o belo poema de Abdelkébir Khatibi: Todo mundo louva a identidade / todo mundo busca a origem/ e eu, ensino o saber órfão.(4)
Portanto, em que pese o vazio da crítica, as coisas continuam acontecendo.
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Extraído de: OLIVEIRA, Nilson. A literatura e os possíveis da escrita literária. São Paulo: Lumme, 2010. p.16-19.
Nilson Oliveira é escritor, ensaísta, editor da Revista Polichinello; autor de A Outra Morte de Haroldo Maranhão, IAP-2006; Apenas Blanchot (org.), Editora Pazulin-2009; A Literatura e Os Possíveis da Escrita Literária, Editora Lumme-2010; Nietzsche/ Deleuze: Natureza/Cultura (org.), no prelo, Editora Lumme-2010. E-mail: revista.polichinello@gmail.com
Notas:
(1) BARTHES, Roland. Crítica e Verdade. Lisboa: Edições 70, 1987, p. 69.
(2) PERRONE-MOISÉS, Leyla. Altas Literaturas. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 11.
(3) BARTHES, Roland. Crítica e Verdade. Lisboa: Edições 70, 1987, p. 77.
(4) KHATIBI apud Daniel Lins. In: Revista Polichinello nº 9, 2007, p. 45.
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