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BEM
(Advérbio do adjetivo bom, e substantivo) O que possui valor sob qualquer aspecto: o que é objeto de satisfação ou de aprovação em qualquer ordem de finalidade; o que é perfeito em seu gênero, bem sucedido, favorável, útil: é o termo laudativo universal dos juízes de apreciação; aplica-se ao voluntário e ao involuntário.
O bem, para os escolásticos tem razão final.. È o para que tende, uma orexis, um apetite (de petere ad, pedir para). Ora, é aptecível tudo quanto é conveniente à natureza de uma coisa considerada estática, dinâmica e cinematicamente; ou seja, enquanto em sua natureza, em suas atualizações, e nas suas reciprocidades, na interatuação com o seu ambiente circunstancial. Tudo quanto é conveniente desse modo é bom. E como todo ser convém pelo menos a si mesmo, todo ser é bom; é, pois, um bem. Além desse bem, que todo ser é em si mesmo, pode ser um bem, ainda, para outro. O primeiro é um bem intrínseco, e o segundo extrínseco. O primeiro é perdurante, enquanto o ser é o que é, enquanto o segundo pode variar. Na ordem dos bens, uns podem estar mais próximos, outros mais remotos, e algum será o final onde se aquite a orexis no seu anelo. Este será o bem final. Como todo ser revela um tender para mais, uma orexis para o bem máximo, consequentemente o bem final tem de ser um bem máximo, Bem Supremo, que se univoca e identifica com o Ser Supremo, fonte e origem de todas as coisas. Por isso o Ser Supremo é princípio e fim de todas as coisas, alfa e omega.
Comentários sobre o Bem: É inegável que todo ser forma uma unidade, pois um ente sem unidade seria nada, como vimos. E a unidade é afirmação de si mesma, pois o ser, porque é, afirma-se. Tende por pedir a si mesmo. Há um verbo latino formado de ad e petere, pedir para, dirigir-se para, appetere, que deu o nosso apetecer, em sentido mais freqüentativo. Com esse verbo, pretendia-se dizer o que, para o qual, alguma coisa tende, por corresponder, de certo modo, à sua conveniência. Assim as raízes da árvore tendem para a unidade, para a água, que é conveniente à sua natureza, como todas as coisas apetecem o que lhes é conveniente, o que, na linguagem comum, se diz que lhes é bom (o que é um bem), que, por ser conveniente à sua natureza, lhes aumenta o que há de conveniente em si mesmo e por isso, são boas.
Não se ter compreendido nessa simplicidade de explanação e de conteúdo conceitual o que é bom, o que é bem, permitiu que muitos filósofos construíssem em torno destes termos inúmeras teorias e doutrinassem idéias tão destrutivas, que elas só serviram para aumentar ainda mais a decepção humana, agravar as suas mágoas, e apressar a queda no niilismo e no desperismo dos mais fracos.
Não há necessidade de longas e aprofundadas explanações sobre ese tema, porque a sua meridiana clareza permite desde logo separar o joio do trigo, e mostrar em que erros fundamentais se baseiam aqueles que tudo fazem para aumentar o pessimismo humano e enfastiar os homens da vida.
Na Economia, chama-se bem a tudo quanto pode satisfazer uma necessidade, tomado aqui este termo no sentido da carência, que é mister preencher, no desejo que é mister aplacar, na ausência dos meios indispensáveis à conservação do indivíduo. Bem econômico é especificamente aquele bem que é produzido pela ação inteligente (trabalho) do homem. Assim o ar é um bem, não é, porém, econômico, porque não é produzido pelo homem, que dele normalmente se serve, de modo ilimitado, já que é um bem ilimitado.
Todo ser apetece, pois, a si mesmo, o que é evidenciado pela unidade, que ainda afirma uma tensão de si mesma, que unifica e fortalece a si mesma.
Desse modo, como todo ser é unidade e toda unidade é ser, todo ser é um bem (pelo menos para si mesmo). Consequentemente, era uma decorrência rigorosa dos escolásticos afirmarem que bonum et ens convertuntur, que bem (bom) e ente se convertem, e metafisicamente, como conceitos transcendentais, de certo modo se univocam.
Por outro lado, uma unidade, um ser pode ser apetecido por outro, por lhe convir à sua natureza dinamicamente considerada e, portanto, ser um bem para outro. Nos seres inteligentes, pode dar-se a consciência (saber com saber) do bem apetecido. E o homem, como ser inteligente, tem consciência do que lhe seria bom, que é sempre a completude do que lhe falta, a obtenção do que carece, a incorporação do que é mister à sua conservação, a posse do que lhe aumentaria o tónus vital e o tónus intelectual e afetivo, etc. O homem tem consciência do bem, e nada lhe seria melhor que a imersão ou a posse do Ser Supremo, que lhe aplacaria todos os desejos.
Como não é possivel admitir-se que o mais venha do menos, pois, então, o nada seria criador do ser, o que é absurdo, todas as perfeições, que são naturalmente presença e não ausência de ser, devem estar contidas, desde todo sempre, no ser, que é o principio de todos os outros, chamem-no matéria, energia eterna (como a chamam os soviéticos hoje), espírito ou outro nome qualquer. O que importa é que tal ser é possuidor de todas as perfeições atualizadas ontem, atualizadas hoje e atualizáveis para o futuro. Todas elas estão contidas no poder daquele ser, na sua onipotência, porque ele pode tudo quanto pode ser, e é tudo, perfetivamente, todas as perfeições já atualizadas e as atualizáveis, porque, nele, ser, ter, haver e poder se identificam. Conseqüentemente, é ele o bem supremo, porque ele daria a solução a todas as nossas carências e é, neste sentido, que as religiões superiores o concebem. Por isso é que o chamam de bem supremo.
É bem tudo quanto é apetecido enquanto se apetece, ou é apetecido. Como todo ser é apetecido, já vimos, é ele bom. Bom é de todos os seres, só dos seres, porque o nada, enquanto nada, não pode ser objeto de apetência, porque é nada; e é sempre, por que sempre o ente apetece algum bem.
Conseqüentemente, o bom é uma propriedade transcendental do ser, pois contém tudo quanto se requer necessàriamente numa propriedade.
Alguém poderá dizer, e muitos dizem, que um ser pode desejar a sua destruição, e, portanto, a negação do seu bem, o que é evidenciado à nossa experiência de muitas maneiras. Negar tais fatos seria estultície. Não demonstram que não há apetência ao bem, porque é julgando a sua destruição um bem, que o ente pode desejá-la. E quem quisesse o mal pelo mal, já que o mal, sendo o contrário de bem, é a privação deste? Ora, o mal enquanto mal, é apenas relativo. O bem, contudo, pode ser absoluto, como é o bem do Ser Supremo, como princípio de todas as coisas. O mal, sendo carência de bem, é carência de ser, e é relativo ao ser carecido. Um mal absoluto seria uma carência absoluta, seria nada absoluto. Comno o nada absoluto é impossível, porque há o ser, o mal absoluto é absurdo, porque afirmaria o nada absoluto, que é absurdo. O mal, portanto, é sempre relativo. Ora, o mal é o que contraria, perturba, o que obstaculiza, o que destrói o bem apetecido de uma coisa. Desejar a carência pela carência, seria desejar o mal pelo mal; desejar a carência, porque a carência carece, seria desejar, então, nada, nada desejar. Mas, como o nada absoluto é impossível, esse desejar será o desejar a ausência de alguma coisa, que é indesejada. Portanto, desejar o mal pelo mal, como o afirmam os satanistas, é a mesma coisa que desejar a destruição como libertação de uma existência dolorosa, considerada insuportável. Essas mesmas idéias encontramos fàcilmente no pensamento dos pessimistas modernos, que encontram seguidores em deficientes e mórbidos intelectuais de nossa época.
Vê-se, fàcilmente, que bem não é somente o que é captado pela cognição de um ser, nem muito menos o de que se tem consciência. É bem o que é conveniente à natureza da coisa considerada dinamicamente. Desse modo, os entes, que carecem de cognição, também apetecem bens, embora sua apetência não seja cognoscitiva. Apetecem naturalmente, movem-se para eles, ordenam-se a eles. Apetite é, portanto, ou natural ou elícito, ou seja, produto de uma deliberação ou de um ímpeto consciente.
Bem é, pois, o perfectivo que é conveniente à natureza de alguma coisa dinamicamente considerada. A ausência é considerada boa, quando impede a perturbação da conveniência da natureza de tal coisa. A ausência, considerada como tal, não é um bem, o bem vai consistir na ausência de alguma coisa que perturba um bem, que é sempre perfectivo. O bem, é, portanto, ser, e não não-ser.
Consequentemente, o bem é verdadeiro, porque, sabemos, ser e verdadeiro se convertem.
Um bem será absoluto, se em si ou segundo a si mesmo é, por si mesmo, conveniente. Será relativo, quando é conveniente para outro e não para todos. O Ser Supremo é um bem absoluto em si e para outros, enquanto este ou aquele bem são relativos, em relação aos outros.
Classificavam os antigos os bens em: bem honesto, aquele que aperfeiçoa uma natureza e é conveniente a ela, o que há per se conveniência com a natureza racional. Bem deleitável, o que oferece algum deleite, o que aquieta o apetite; bem útil, o que não o é de per si, mas em razão de outro (honesto ou deleitável), por meio do qual aquele é obtido.
Se se prestar bem a atenção, verifica-se que é em torno do bem que giram muitas idéias não só no campo da Filosofia, como no da Economia, sobretudo, no da Política.
Na maneira de se conceber o bem é que se revela o otimismo ou o pessimismo, o desesperismo, o niilismo negro, etc.
Vejamos primeiramente como foi concebido pelos filósofos o bem.
1) Para Platão, o Bem é a suprema afirmação, e a suprema afirmação é o Bem, o supremo apetecível, do qual todas as outras coisas participam e são boas na proporção dessa participação. Em outros termos, Platão, afirmando que o Bem é a suprema afirmação e a suprema afirmação é o Bem, afirma que o Bem é o Ser Supremo e o Ser Supremo é o Bem. Quem não compreende assim, é que nada compreendeu de Platão. Como todo ser finito é ser deficiente, e é proficiente na proporção que é, e deficiente na proporção do bem que lhe falta, seu ser participa do Ser, e é bom na proporção dessa participação, porque ser e bem se convertem.
2) Aristóteles, que sempre quis considerar Platão do ângulo idealístico, colocou a bondade na imanência das coisas e não na transcendência.
Na verdade, julgou dizer outra coisa do que afirmava Platão, mas apenas disse o que já estava parcialmente incluso naquele pensamento, porque o grande discípulo de Sócrates não negava o bem imanente, por afirmar o bem transcendente.
3) Os neo-platônicos, como Plotino, Santo Agostinho, Pseudo-Dionisio, Proclo, Boécio e outros deram apenas um novo colorido ao que realmente afirmava Platão, sem contradize-lo nem retificá-lo.
4) A concepção de Tomás de Aquino é também platônica, embora muitos não aceitem essa classificação, pois afirma a bondade de ser na proporção da participação de ser.
No filosofar moderno, de caráter negativista e abstratista, é que surge o pessimismo, que já se evidenciara entre os gregos menores. Um dos maiores representantes do pessimismo moderno é Schopenhauer. Para ele, a vida é um continuo desejo, cujo termo é inacessível. O mundo é vontade, e a realidade de todos os entes é querer viver. A única solução humana, já que é impossível a satisfação de todos os desejos, é a mortificação de todo o desejo.
Ed. von Hartmann, seu discípulo, chegou a afirmar que tudo tende para um suicídio coletivo. Spengler pregou o pessimismo cultural, afirmando a inevitabilidade da decadência de toda sociedade humana superior (ciclos culturais). Nietzsche pregou uma atitude heróica ante o pessimismo que o mundo oferece. Jaspers afirmou que marchamos para uma catástrofe, Heidegger, que o homem tende para a morte, que é da sua essência, e o sr. Jean-Paul Sartre afirmou que toda existência é tediosa e nauseabunda. Para os existencialistas, como os últimos, o homem é um desesperado, tende para o nada, condenado à morte inevitável.
Para os pessimistas, todo ente é um obstáculo aos outros, portanto um mal. O existir finito é um mal inevitável e irrecuperável.
Mas, na verdade, é um mal relativo e não absoluto. O erro dos pessimistas é tornar o mal, que é relativo, em absoluto.
O que é fundamental no pessimismo é a afirmação de que o bem absoluto é inatingível pelo homem, enquanto ser finito. Até aí ninguém discorda deles. Mas se admitem que seria melhor e até ótimo se pudesse o ser humano alcançar o bem absoluto, afirmam, indiretamente, que a suprema felicidade do homem, a sua quietação final, sua tranquilidade suprema, estaria na posse desse bem. Não podem negar que o homem sabe que esse bem supremo seria a sua solução. Afirmam, porém, que é inatingível. Mas aceitando o primeiro postulado, e comparando-o com o segundo, concluir-se-ia que o homem seria justificado se o bem absoluto lhe fosse atingível, atualizável. É o que decorre da própria concepção pessimista. Mas o defensor de tais idéias afirma que não o é. Precisamente, são as religiões que afirmam em contrário.
Para que uma ou outra posição seja verdadeira, é mister demonstrar que, necessàriamente, o homem não pode atingir ao bem absoluto, e dele não pode participar de modo a aquietar as suas carências e satisfazer as suas apetências. Não pode nenhum pessimista afirmar que não haja aquietações, que não haja momentos de satisfação dos apetites e a deleitação conseqüente. Schopenhauer, que tanto gostava de salsichas e de tocar flauta, conhecia o deleite ao comê-las e ao fazer suas variações musicais. E também o sr. Jean-Paul Sartre ao fumar o seu charuto, e o sr. Heidegger ao tomar a sua cerveja.
A vida humana não é um perene sofrimento, uma imersão absoluto no mal, nem para o maior sofredor.
Contudo, o homem sabe (e o sabe o pessimista também), que apetece ao que lhe daria uma plena satisfação, e o que lhe daria a plena satisfação é ser, e não nada absoluto. Nem o nirvana búdico era uma busca do nada, pois Buda profligou aqueles que afirmavam que era ele um pessimista e que baixamente lhe atribuíam um desejo de nada absoluto. O nirvana era o aniquilamento do que impede a plenitude da felicidade. O que impede é o limite, a determinação, a fronteira fechada, o «muro da vergonha», a cortina de ferro do ser.
Sabendo o homem o que lhe daria a felicidade, ele terá que admitir que a felicidade é inteligível. Ora, todo ser é inteligível. Se a felicidade é inteligível é ser, embora não atual para nós, mas potencial. Afirmar os postulados pessimistas como necessários, seria afirmar uma absurdidade, porque seria afirmar o nada absoluto, negar totalmente o ser, negar o bem, mesmo relativo. O mal não é essencial ao mundo, mas acidental. Surge de uma relação, e não é em si, porque o mal não é em si, pois é carência.
Ademais, a experiência nos comprova que dos males muitos podem ser evitados, e muitos, que eram julgados inevitáveis, hoje já não o são mais.
O homem pode melhorar o mundo e a si mesmo. Ademais, verifica-se que uns são mais tristes que outros, mais infelizes que outros, enquanto outros mais alegres, mais afortunados. Ora, o que é escalar não é da essência, porque a essência não é escalar. O que é escalar só pode ser acidental. Portanto, o mal é acidental, e o que é acidental não é absolutamente necessário.
O pessimismo é, portanto, uma tendência com raízes e causas psicológicas. Como posição filosófica, é uma maneira deficiente de pensar. Não se pode negar ao homem a esperança, e esta é a virtude que consiste em confiar em valores superiores. O que muitos desejam, hoje, é destruí-la nos homens, dando vazão aos seus impulsos mórbidos e vituperáveis.
Também não se justifica um otimismo cândido, mas a compreensão da realidade da nossa existência. Se o homem sabe que há algo que lhe poderia dar a felicidade desejada, essa esperança, essa confiança nos valores superiores, tem uma raiz real e não é um sonho. E é sobre essa esperança que ele deverá meditar.
Crítica: aqueles que dizem que o bem é apenas subjetivo, respondemos-lhes que confundem bem relativo com bem absoluto.
O resto decorre das confusões feitas sobre tema de tanta importância.
Os envenenadores de consciências humanas e propugnadores de tantos erros são apenas pensadores menores, que jamais meditaram devidamente sobre o bem, ou dele formaram um conceito falso. É de deplorar, contudo, os malefícios que tais pensadores têm propagado pelo mundo. E inúmeras vidas em farrapos, e muitas desfeitas são a colheita obtida por esses indignos semeadores.
Bem, no sentido de moralmente bom, como tal, é um dos conceitos normativos fundamentais ao lado dos valores do verdadeiro e do belo. É um ato que, em um caso determinado, considera-se como o moralmente preferível. Com respeito aos atos realizados, é aquele que encontra aprovação; com respeito aos atos futuros, é aquele que deve ser realizado. Mas o Bem difere do Dever: 1) enquanto não implica nenhuma idéia de obrigação ou de obediência a uma autoridade, mas somente de norma e de perfeição (como se fosse considerado como uma qualidade inerente a um sujeito, o que de fato é, segundo alguns filósofos, sendo negado por outros), e 2) enquanto o Bem concerne ao próprio ato que deve ser realizado e não à intenção.
Kant, para colocar os valores morais em uma posição de plena independência, com respeito a todos os outros valores, negou que o o bem e o mal fossem valores materiais e reduziu esses princípios à conformidade ou não-conformidade a um preceito imperativo como um «dever-ser» normativo. Como o bem se pode manifestar em atos diferentes, conforme as circunstâncias de um caso determinado, Kant chega à afirmação de que o único bem incondicional é uma vontade boa.
Essa concepção do bem foi recentemente muito combatida pelos representantes elo neo-realismo, especialmente por Scheler, que defende que «o bem e o mal são qualidades irredutíveis, que se oferecem imediatamente à intuição emocional» que, segundo ele, é o órgão adequado para a apreensão dos valores.
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