Volta para a capa
Grandes entrevistas

Adonis

Entrevista conduzida por Gulherme Freitas, publicada n' O Globo, de 19/03/2012.

As manifestações populares que se espalharam pelo Oriente Médio e pelo norte da África nas últimas semanas foram recebidas com entusiasmo por exilados de origem árabe em todo o mundo, mas por um deles em particular: o sírio Ali Ahmad Said Esber, mais conhecido por seu pseudônimo, Adonis. Aos 81 anos, o maior nome da poesia árabe moderna, sempre lembrado nas especulações para o prêmio Nobel, acompanha atentamente, de sua casa em Paris, as notícias sobre os protestos na Tunísia, no Egito, na Líbia, no Iêmen, em seu país natal e em vários outros da região. Defensor histórico da criação de democracias laicas no mundo árabe, mas também um opositor irredutível das intervenções estrangeiras em seus assuntos internos, Adonis reconhece nas demandas desses movimentos algumas das bandeiras que defendeu ao longo da vida e se mostra esperançoso, mesmo diante da reação brutal de ditadores como o líbio Muamar Kadafi.

Esse é um movimento que vai durar, porque seu espírito é novo. Mesmo que haja alguns empecilhos agora, ele vai continuar e vai se espalhar para outros países — acredita o poeta, que conversou com o GLOBO por telefone, de Paris, onde mora.

Nascido em 1930 numa família camponesa do norte da Síria, Adonis começou a escrever ainda na adolescência, e ganhou uma bolsa de estudos universitária depois de impressionar o então presidente do país com um recital. Enquanto criava os primeiros versos, militava em organizações seculares nacionalistas, o que o levou a ser preso por subversão em 1955. Libertado no ano seguinte, exilou-se em Beirute (nos anos 1960, ganharia cidadania libanesa), onde passou a se dedicar com igual empenho à poesia experimental e ao pan-arabismo. Em 1980, instalou-se na França, refugiando-se da Guerra Civil do Líbano.

Nesta entrevista, Adonis explica sua leitura da tradição poética árabe, que reabilita uma linhagem de pensadores iconoclastas e antirreligiosos para apontar a promiscuidade entre política e religião nas sociedades árabes contemporâneas. Crítico radical do monoteísmo (que considera “essencialmente antidemocrático”, não importa se muçulmano, cristão ou judaico), ele fala também sobre os impasses no diálogo entre Ocidente e Oriente.

Pouco conhecido no Brasil, onde ainda não tem obras publicadas, Adonis esteve prestes a visitar o país pela primeira vez em novembro passado, mas cancelou a participação na Fliporto em cima da hora, por problemas de saúde (e faz questão de dizer que aceitaria novos convites). 

 O senhor sempre se manifestou contra a ingerência estrangeira em assuntos árabes e já disse que “se quisermos ter democracias, temos que tomar as rédeas da situação”. O que pensa das manifestações populares que se espalharam por Tunísia, Egito, Líbia, Iêmen e outros países da região nas últimas semanas?

O que acontece atualmente nos países árabes é importante não só no plano contemporâneo, mas no histórico. São eventos atípicos na história árabe, por quatro razões principais. Primeiro, porque essas manifestações não são ideológicas, não foram lideradas por uma classe, seja de trabalhadores, militares ou burgueses. Segundo, pela grande participação das mulheres, sobretudo as jovens, o que é completamente novo na sociedade árabe. Terceiro, porque, com exceção da Líbia, são revoltas sem violência. Quarto, porque não são manifestações voltadas para o exterior, não são contra ou a favor de nenhum outro país ou povo, sua única demanda é a liberdade. Esse é um movimento que vai durar, porque seu espírito é novo. Mesmo que haja alguns empecilhos agora, esse movimento vai continuar e vai se espalhar para outros países.

Há condições para a democracia laica nos países árabes? Que papel a religião deve ter nessas sociedades?

A questão não é propriamente a religião, e sim o monoteísmo, que para mim é essencialmente antidemocrático. Seja cristão, muçulmano ou judaico, o monoteísmo acredita possuir a verdade última. Nessa situação, o indivíduo não tem nada a acrescentar à sociedade, ele deve apenas crer e obedecer. Como pode haver democracia assim? Sobretudo em sociedades mistas como as nossas, onde há praticantes de todas as religiões e também muitos ateus. Só podemos ser democratas se as crenças religiosas se tornarem hábitos individuais. Muçulmanos, cristãos e judeus devem ter seu espaço, mas a sociedade não pode ter religião, ela é dos seres humanos, com seus direitos e liberdades. É preciso separar a política da religião, o que soa simples, mas não é. Quando entendermos isso, abriremos um novo horizonte em nossas sociedades. Mas será um combate longo, porque a democracia é uma educação e uma cultura, e exige antes de tudo reconhecimento do outro. O que está acontecendo agora é um começo. Em vez de disputar quem detém a verdade última, devemos acreditar que a verdade é uma busca comum e que ela está no futuro e não no passado.

O senhor costuma dizer que a cultura árabe está baseada em duas coisas essenciais mas opostas: a religião e a poesia. Que papel tiveram esses dois elementos na formação da cultura árabe?

A cultura árabe foi fundada sobre a poesia, no período pré-islâmico. Com o surgimento do Islã, a religião tentou substituir a poesia como base do pensamento. Toda nossa história é um conflito entre essas duas linguagens, e esse conflito continua. Em nossa cultura, todos os grandes criadores eram antirreligiosos. Mesmo os poetas místicos defenderam uma concepção de Deus que não tem nada a ver com a concepção islâmica tradicional. Enquanto o Deus do Islã é uma força cósmica separada do ser humano, estabelecida num lugar incognoscível, o Deus dos poetas místicos faz parte da nossa existência. São definições antípodas. Sempre houve esse choque entre poesia, no sentido amplo da palavra, e religião. Mas como a religião se liga à política e ao dinheiro, ela sempre vence. E o pensamento, a criação e a cultura são marginalizados.

Como é essa relação entre poesia e religião hoje? Existe espaço para artistas e intelectuais que não celebram o status quo religioso e político?

Se você quer criar poesia verdadeiramente nova, é preciso combater as ideias herdadas da religião, porque criar é ser livre de toda ideologia e de todo pensamento a priori. Em nossa cultura atual, encontramos uma grande influência da religião em todos os estratos da sociedade, porque a educação, a família, as relações sociais, a universidade, tudo é fundado ou influenciado pelo espírito religioso. Se compreendemos a poesia como visão de mundo, e não só como cantos ou versos, então não encontramos grande poesia entre nós hoje. Os grandes pensadores e artistas que recusam os valores vigentes são mal vistos e malditos.

Sua obra é sempre ligada à ideia de “modernismo árabe”. Como ela se relaciona com a tradição poética árabe?

Tenho uma relação profunda com a linguagem de grandes criadores que fizeram uma abstração da religião enquanto visão de mundo. A cultura árabe tem muitos desses poetas: Abu Nuwas, Abu Tammam, Al-Ma’arri, os grandes místicos. Todos eram antirreligiosos. Procuro fazer uma releitura da tradição que reabilita esses grandes personagens, porque acredito que não podemos ser modernos e religiosos ao mesmo tempo. As sociedades árabes falharam, essencialmente, porque aproveitaram apenas os subprodutos da modernidade. Temos carros, aviões e tudo que superficialmente indica progresso. Mas não podemos pegar um avião e recusar o espírito que o inventou. Nós árabes adotamos os produtos da racionalidade moderna, mas recusamos os princípios da razão que os desenvolveu. Ou repensamos nossa relação com a religião ou jamais seremos modernos.

O que pensa da obra dos modernistas ocidentais, como T. S. Eliot e James Joyce? Que autores ocidentais foram importantes em sua formação?

Poeticamente, Eliot era modernista, mas no plano do pensamento era conservador. Ele adotou uma forma moderna de se expressar, mas o que expressava não era moderno. Há muitos poetas ocidentais assim. Na nossa tradição, o grande moderno foi Al-Ma’arri, que refutou categoricamente a religião. Nesse sentido, o grande poeta moderno do Ocidente foi Rimbaud, que fez algo parecido na tradição ocidental, criticando a cultura dominante e o cristianismo. O mesmo fez Nietzsche, o mais moderno dos pensadores europeus, alguém que deveríamos seguir. Nietzsche desmontou a visão religiosa da verdade e insistiu que o indivíduo era mais importante que as crenças herdadas de uma sociedade. Ele abriu o caminho da liberdade para o ser humano. Sou muito criticado não só por fundamentalistas religiosos, como também por políticos de esquerda, porque eles também acreditam que a religião pode ser importante para a sobrevivência dos árabes. Mas a religião não pode nos libertar e não aceito ser libertado por ela.

O senhor vive na França desde os anos 1980. Como vê a evolução (ou involução) do diálogo entre Ocidente e Oriente nesse período?

Civilização é abertura, diálogo e troca. Mas hoje só falamos de trocas que pouco têm de humanas, baseadas no interesse e na política. Se minha crença é uma negação da sua, como podemos dialogar? Podemos conviver, manter relações comerciais, mas uma verdadeira troca é impossível. O diálogo que temos hoje não serve para nada. O único diálogo eficaz é aquele entre criadores, porque nele não há preconceitos nem verdades a priori. É isso que cria unidade entre os seres humanos. É preciso insistir no diálogo cultural, não só comercial, político e militar. Em vez de pensar no mundo como um mercado, deveríamos pensar nele como uma universidade.

Concorda com as teorias de Edward Said sobre o “orientalismo”? Quais seriam hoje as maiores limitações na compreensão da história e da cultura árabes pelo Ocidente?

Said foi um grande amigo e um pensador brilhante, que admiro muito. Mas não concordo com tudo que escreveu. Acho que ele fez algumas generalizações sobre os orientalistas. O que Said enfatiza corretamente é um estereótipo do Oriente que existe no Ocidente, mas a meu ver isso está ligado a uma visão política e não cultural. Muitos intelectuais ocidentais combateram esses estereótipos. Alguns deles conhecem a cultura e a história árabe muito melhor que a maioria dos árabes e deixaram obras monumentais. Por exemplo, o alemão Carl Brockelmann, autor de uma história da literatura árabe, e os franceses Louis Massignon, autor de um grande livro sobre o poeta místico Al-Hallaj, e Jacques Berque, que revolucionou esse campo ao mostrar a cultura árabe como uma cultura do presente e não do passado, como costuma ser retratada. Ainda hoje, há muitos intelectuais no Ocidente que denunciam esses estereótipos com mais energia do que se faz no mundo árabe. O maior obstáculo para essa compreensão continua sendo a memória histórica. Há muita coisa enraizada nos espíritos ocidentais contra os árabes e o Islã, e será preciso um longo trabalho para desfazer isso.

 

Links selecionados

- Por que escrevo?

- Onde escrevo?

- Religião

- Politica
- Biografia