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Grandes entrevistas

 

Leon Tolstoi

 

Entrevistado por : Harold Williams -  Extraída do livro: A arte da entrevista:

The Manchester Guardian,              uma antologia de 1823 aos nossos

09/02/1905                                       dias organizada  por Fabio Altman. São

                                                         Paulo: Scritta, 1995.

 

 

Leon Nikolayevich Tolstoi (1828-1910), romancista e filósofo russo, nasceu em uma família de camponeses da região do Volga. Tolstoi estudou direito e línguas orientais mas nunca chegou a se formar. Fora da universidade, alistou-se num regimento de artilharia do Cáucaso - foi durante esse período militar que ele começou a escrever.  Seus romances mais conhecidos são Guerra e Paz, escrito entre 1863 e 1869, e Anna Karenina, de 1876.  Ele escreveria também dezenas de artigos de cunho religioso que resultariam em sua excomunhão pública.  No final de sua vida, Tolstoi renegou seus próprios livros, entregou todo seu dinheiro à esposa e fechou-se como um ermitão em sua residência campestre, onde peregrinos iam visitá­lo. Ele morreu vitimado por uma violenta gripe que havia contraído num passeio de barco noturno.

                                   

No conflito e na desordem que hoje agitam a Rússia, Tolstoi parece pertencer, muitas vezes, a um passado silencioso e distante. Lembramos que ele está vivo e trabalhando; percebemos a reverência com que seu nome é mencionado por todos; vemos o seu retrato ou o seu busto por toda parte; em centenas de famílias, Guerra e Paz está sendo lido mais uma vez com um novo e vivo interesse. Tolstoi descansa seguro acima dos ventos que agitam as influências do momento, e essa mesma segurança parece elevá-lo a uma categoria de imparcialidade olímpica quanto às esperanças e os medos daqueles que estão lutando pela liberdade política. Além disso, a Rússia atingiu um estágio em que não escuta mais a Tolstoi. Houve um tempo em que seus ensinamentos eram populares por aqui - o tempo durante o qual as medidas repressivas que sucederam à morte de Alexandre II haviam paralisado todas as atividades políticas e sociais, e forçado altruísticos russos a procurarem abrigo em doutrinas de abstinência e submissão.  Mas agora que a esperança de liberdade revigorou as energias políticas de cada pensador no país, Tolstoi veio a ser um grito no deserto. A grandeza de seus dotes artísticos é reconhecida, mas nenhum líder liberal pensa em pedir sua opinião sobre os rumos da agitação política. Os estrangeiros têm um ponto de vista diferente. Continua importante para nós saber o que Tolstoi pensa sobre os grandes eventos do momento, e quando a violência se instaura, como aconteceu recentemente em São Petersburgo, as pessoas recorrem à celebridade viva do país, para saber sua interpretação da tragédia.

                                                                      

 

Cheguei em Yasnaya Polyana, no Volga, na quinta-feira de manhã, vindo de Moscou e Tula.  A nevasca passara, e o sol brilhava no céu varrido pelo vento sobre as colinas por onde se estende a colônia que encerra a conhecida propriedade. Depois dos tremores de São Petersburgo e dos presságios sombrios de Moscou, Yasnaya Polyana parecia o porto seguro da paz. E em relação à personalidade de Tolstoi, a atmosfera de paz parecia repousar continuamente. Ele era muito calmo, possuía a calma daqueles cujo tempo de luta já passou, e embora falasse livremente sobre os eventos atuais e fosse gentil e cortês, à moda graciosa dos nobres russos da velha escola, sentia-se que sua verdadeira vida estava escondida em algum mundo remoto de calma contemplação.

 

Não preciso descrever novamente o rosto familiar. A idade e a doença fizeram, seu trabalho, mas o rosto e a forma foram poupados.  Os cabelos estão rareando, embora não tão brancos como se esperava vê-los. Tolstoi anda com passos vivos, mas um pouco curvado. Não abandonou o hábito dos exercícios vigorosos; passa quase todas as tardes cavalgando ou em caminhadas, e nos momentos de folga em casa, joga peteca com sua filha ou se entretém com bola e cesta.  Está muito bem de saúde, embora o médico, que reside com eles, tenha dito que era propenso a resfriados. Está cada vez mais convencido do valor de uma dieta vegetariana, e mencionou com entusiasmo os trabalhos do doutor Haig e os sucessos dos atletas vegetarianos na Inglaterra.

 

Quanto ao trabalho literário, era uma decepção para ele que o romance tão comentado ultimamente estivesse interrompido e corresse o risco não ser terminado. Durante o outono e o início do inverno, Tolstoi esteve ocupado preparando um breviário de pensamentos de grandes homens - um fragmento para cada dia do ano.  Seus olhos brilhavam enquanto descrevia o prazer que o trabalho tinha lhe proporcionado. Espera completá-lo escrevendo uma série de contos, um para o primeiro dia de cada mês, e a parte principal do trabalho já está nas mãos do editor em Moscou. Recentemente, em resposta aos constantes apelos da Inglaterra e de outros países, ele vem registrando suas opiniões sobre o movimento liberal russo, e, na manhã da minha chegada, terminou um artigo sobre o assunto, que logo será publicado na imprensa inglesa.  Agora está trabalhando em um folheto onde revelará, uma vez mais, suas opiniões sobre o Estado e sobre as atividades políticas em geral.

 

Evidentemente, nossa conversa começou com o movimento constitucional. Sua opinião sobre o fato foi muito breve. É perigoso, declarou ele, e desnecessário, porque desvia as ações dos homens do caminho da verdade. Uma constituição não pode melhorar as circunstâncias e não pode trazer a liberdade. Todos os governos são mantidos pela violência ou pela ameaça de violência, e ela é contrária à liberdade. Um homem só é livre quando ninguém pode forçá-lo a fazer aquilo que ele acredita ser errado. A atitude correta para cada homem é de abster-se de toda e qualquer participação nos atos do governo, recusar-se a servir no exército, recusar-se a aceitar qualquer cargo público, e sempre fazer o bem. O tumulto por uma constituição só pode levar a falsos resultados.

 

Ele ficou muito interessado em saber dos recentes eventos em São Petersburgo, e particularmente ansioso em saber mais sobre o padre Gapon.  Havia um elo entre ele e o líder dos trabalhadores; a verdade é que Fainermann, um dos professores de Gapon no seminário eclesiástico, era amigo e discípulo de Tolstoi, e só há alguns dias atrás, Tolstoi recebera uma carta de Fainermann, descrevendo sua relação com Gapon. Ele lamentou o massacre e ficou horrorizado ao ouvir os detalhes, mas declarou que isso era o que se podia esperar de um governo, que precisa da violência para se manter no poder.

 

- Então o senhor acha que a agitação entre os trabalhadores foi responsável por esse resultado?, perguntei.

 

Não! Não,  exclamou ele. Não iria tão longe. Digo simplesmente que todo esse movimento para a constituição é um movimento na direção errada. O povo não quer uma constituição, e aqueles que estão se agitando por ela não conhecem o povo. Apesar de todas as declarações de amor pelo povo, eles não têm uma verdadeira preocupação com ele, simplesmente o desprezam. O povo só quer uma coisa - terra. Já leu o trabalho de Henry George?

 

 

Tolstoi, apesar de sua abominação pelos métodos políticos, é um grande admirador de Henry George, e acompanhou, avidamente, a forma pela qual suas teorias foram postas em prática na Nova Zelândia.  Esse foi só um exemplo da incoerência aparentemente irreconciliável entre os lados prático e teórico de sua natureza. Voltando à pergunta sobre a agitação constitucional, ele disse:

 

Acho que a melhor coisa sería uma Zemsky Sobor (Assembléia dos Deputados de zemstvos).

 

- Mas como o senhor concilia isso com o que diz sobre a ilegitimidade de todos os sistemas políticos?, perguntei.

 

Ah, disse ele, eu só quis dizer que o imperador é insensato, do ponto de vista de seus próprios interesses, em não convocar uma Zemsky Sobor. E acrescentou que seu filho mais velho tinha enviado uma petição ao imperador para uma Zemsky Sobor, e, com o mesmo propósito, um amigo seu de Nijni Novgorod havia desenvolvido um projeto sobre o qual falou com aprovação. Ele não admitia que uma forma predominante de governo em um país causasse qualquer diferença substancial na vida de seus cidadãos.

 

- O senhor não acha que é melhor viver, digamos, sob o sistema político inglês do que sob o russo? Veja o método de passaporte aqui, por exemplo; a censura, e a deportação dos transgressores políticos.

 

Não é nem um pouco melhor na Inglaterra, disse ele, com firmeza. Onde quer que haja a violência, o povo estará privado de sua liberdade. Meu amigo Tchertkoff, que mora fora da cidade de Christchurch, é obrigado a pagar uma taxa para a manutenção de uma banda que toca dentro da cidade, e que ele mesmo preferia nunca ter ouvido. E quanto à deportação, isso afeta muito pouco um homem.  Eu venho esperando a deportação por mais de vinte anos, e se ela vier não devo me aborrecer. A deportação não pode impedir um homem de viver a vida real. E a liberdade de imprensa!  O povo precisa de liberdade de imprensa? Esses senhores podem ter liberdade de imprensa, se quiserem, para declarar suas próprias opiniões, mas essa é uma causa pequena.

 

Devo acrescentar que o próprio Tolstoi sofreu muito com os efeitos da censura. Até mesmo um escritor tão célebre quanto ele não é poupado da indignidade de receber livros e papéis vindos de fora e endereçados a ele com trechos rasurados.  E a existência da censura o impede de receber as cópias de muitos de seus trabalhos publicados na Inglaterra ou na Alemanha. Falou sobre as greves, e disse que a greve mais efetiva seria a daqueles que abastecem a nação com o pão. Mencionei uma notícia que tinha ouvido em Moscou, sobre as conseqüências de uma greve geral dos médicos nos distritos rurais.

 

Tanto melhor, disse Tolstoi, com um sorriso.

 

- Mas assim, disse eu, todos os camponeses ficarão sem ajuda médica.

 

Melhor ainda, declarou, há quarenta ou cinqüenta anos, quando eu era jovem, não havia médicos entre os camponeses, e eles viviam muito bem sem médicos.  Não, a doença não é um mal.  O único mal é o que o homem faz de errado

 

À noite, depois do jantar, abandonamos o caminho espinhoso da política, e Tolstoi começou a falar sobre as questões que o afetavam mais de perto. Ao falar sobre a escolha de uma profissão, ele disse que o modo de vida de um homem é o resultado da ação de duas forças opostas: seu próprio esforço para alcançar um ideal, e a inércia de seu passado.

 

Existe aquela terrível afirmação de Kant, disse ele, uma afirmação que por muito tempo não ousei aceitar, mas agora eu sei que é verdadeira. Segundo Kant, um homem que só faz o bem por hábito não é um homem bom. Isso é um fato.  Quando alcançamos um estágio de bondade, não devemos nos atrever a ficar por lá, mas devemos lutar para alcançar um outro ainda maior. Você me faz lembrar - acrescentou ele, voltando-se para o médico da família, que estava ao lado - de uma afirmação de Sutaieff.  Não foi Sutaieff, mas um outro camponês que, quando lhe disseram que o divórcio não era um ato cristão, respondeu que continuar vivendo com sua mulher devia ser, afinal, um trabalho que agradava a Deus, porque era tão duro.

 

Eu sou um homem velho agora, continuou ele, devo morrer logo, e, para mim, é mais importante pensar na vida eterna do que nas formas do mundo. E, além disso, como outros homens não sabem quão prematuramente podem morrer, acho que eles também deveriam se preocupar com a vida eterna. Quando me perguntam sobre a vida futura, para onde devo ir depois da morte, novamente só posso me referir ao meu caro Kant, que salientou que a concepção de espaço e tempo é um princípio meramente formativo da inteligência humana.  A questão: onde, envolve a consideração de espaço, devo estar, envolve a consideração de tempo.  E na vida etema não há espaço ou tempo.  Somos todos parte da vida universal que está acima do espaço e do tempo.

 

Tolstoi declarou não possuir um sistema metafísico claro e elaborado, mas expressou uma grande admiração por Kant, e o desejo de que ele (Kant) fosse lido mais freqüentemente. A filosofia atual não vale o próprio nome Pode respeitar homens como Kant e Hegel, mesmo quando não se concorda com eles.  Mas quanto a Nietzsche, ele é um mero feuilletonist.

 

No entanto, ficou muito interessado em saber que um de seus discípulos (doutor Eugen Schmitt) havia descoberto excelentes pontos em Nietzsche. Falou brevemente sobre a filosofia contemporânea russa, e estava ressentido de que membros da nova escola idealista pensassem em encontrar uma justificação filosófica para os dogmas da igreja Ortodoxa. Sobre Vladimir Solovioff, o maior dos filósofos russos, disse que ele havia criado um hábito intelectual fatal de brincar com as grandes idéias.

 

Suas críticas literárias são sempre interessantes. Ele não é muito favorável à literatura russa; como também não é favorável à maioria das outras literaturas do presente.  Antigamente, disse ele, a arte era como a música de câmara, e agradava a poucos; agora ela chega ao gosto das poderosas classes comerciais e industriais.  Mas nunca será ela mesma até que agrade ao povo em geral. Ele fez comentários sobre sua tese a respeito da literatura inglesa contemporânea.

 

Veja Rider Haggard, disse ele, ele escreve as fábulas mais extraordinarias, e prosseguiu com entusiasmo ao se referir a um artista que fazia parte do sumário de She. Suas considerações sobre a senhorita Marie Corelli e sobre o senhor Hall Caine (este em particular) foram extremamente desfavoráveis. Tinhia uma profunda admiração por Dickens e, recentemente, relera com prazer Child's Hístory of England. Ibsen não lhe agrada, ele criticou duramente Quando despertamos entre os mortos, que fora apresentada recentemente em um teatro de Moscou. Dentre os escritores alemães, admira Von Polens, cujo Büttner~bauer foi traduzido para o russo com seu apoio.  Rosegger, cujas descrições sobre a vida dos camponeses poderiam vir a agradá-lo, não o fazem, mas falou com entusiasmo sobre um conto de um outro austríaco, Anzengruber. E Crainquebille, de Anatole France, também parece ter conseguido sua admiração. Expressou sua surpresa com a perfeição alcançada pela técnica de escrever romance. Por isso, hoje em dia, as senhoras russas escrevem maravilhosamente - bem melhor que Turgenieff ou qualquer um de nós; só que elas não têm nada a dizer.

 

O jornalismo, assegurou-me, "era um mau negócio.  Um jornal está sujeito a apoiar um certo partido, quando na verdade devia ser independente. E o jornalismo é mau porque força o homem a trabalhar aceleradamente e o torna ávido por ante­cipar-se aos outros.  O jornalismo possui bons objetivos, é verdade, e um deles é que fornece aos homens um meio de comunicação. O maior conhecimento cristão é o conhecimento das línguas, porque ele une os homens, acrescentou.

 

Ele falou muito mais coisas no decorrer do dia - mais do que sou capaz de recordar aqui.  E no esforço de relatar suas palavras não tenho sido capaz de aludir ao jogo incessante de sua personalidade. Nossa conversa era freqüentemente interrompida; uma parte dela aconteceu durante o almoço, outra parte na biblioteca e outra parte ainda durante o jantar e o chá da noite.  Houve muitos intervalos. Seu humor mudava freqüentemente de sério para brincalhão e, de uma hora para a outra, mudava das questões mais generalizadas para as de interesse puramente pessoal. Ele falou de modo simples e gentil, sem a mínima pretensão de dogmatismo, e estava sempre pronto a ouvir uma opinião contrária a sua. E não se podia deixar de sentir sua calma interior, como a de um homem que encarou os problemas mais profundos e encontrou a paz ao solucioná-los.

 

Eu o deixei à meia-noite, e na manhã seguinte estava em Moscou, ouvindo sobre a agitação na Assembléia dos Nobres, as resoluções radicais de uma reunião de advogados e sobre uma discussão acirrada quanto à probabilidade de um conflito entre o terror vindo de cima e o terror vindo de baixo. Involuntariamente pensei nas palavras  de Tolstoi -"O movimento constitucional é um movimento ruidoso, e esse barulho não é em seu favor.  O trabalho de Deus é modelado em silêncio. Para o profeta Elijah,  Deus falou não como o  terremoto, não como o vento, mas como uma voz pausada e calma."

 

Contudo, é na vida tempestuosa das cidades que a batalha pela liberdade russa está sendo travada, e não, embora gostaria de acreditar que estivesse, no paraíso alegre e pacífico de Yasnaya Polyana.

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