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Romance policial

 

Os Dentes de Berenice

Dr. Ailton Falcão

                                                                                            1º Capítulo  

      Caíra a tarde, o último raio de sol balouçando nas fímbrias do vasto horizonte resistia de todo fenecer.

      Costurado... - disse o médico, enquanto a noviça lhe enxugava a testa. Curativo. – completou, olhando fixo para os residentes. E afastou-se da mesa operatória, tentando retirar a própria máscara, tentando sorrir, dirigindo-se até a área menos iluminada da sala, arrastando sem querer a jovem futura freira, que ainda mantinha a esponja comprimida na testa do cirurgiã

   Dona Matilda, a enfermeira-chefe, aproximou-se da zona de penumbra, puxou o laço da cinta do avental do médico, desatando o nó e causando, involuntariamente, um imperceptível estremecer de vergonha e um brusco movimento de distância da noviça ajudante, que deve ter pensado que não suportaria muito tempo a intimidade de uma sala de operações.

   Com um gesto nas sobrancelhas, o calejado cirurgião ordenou à noviça que voltasse às suas funções, ajudando na limpeza geral da sala. Os enfermeiros se preparavam para a remoção da paciente. O grande médico, livre da máscara e do avental, luvas e pretechos cirúrgicos, era cumprimentado pelos médicos auxiliares, pelo anestesista, pelos residentes, assistentes, aprendizes e enfermeiros, dando a entender que uma grande tarefa havia sido realizada, ou, talvez, que uma única demonstração de competência, de habilidade, de domínio total e inexcedível acabara de ser realizada e presenciada.

    A confirmar a euforia da sala, uma pequena multidão aguardava o experiente cirurgião no corredor. Todos o cumprimentavam, como se essa tivesse sido a sua primeira cirurgia de sucesso. Ou a última, o que de fato, como logo mais se comprovaria, era a pura verdade.  

  Todos se abraçavam como se compartilhassem do mesmo sucesso, comportando-se como um bando de torcedores ao se abraçarem comemorando o gol do artilheiro do time, como se tivessem participado da jogada, ou até mesmo como se tivessem feito o gol.

   O grande cirurgião sempre fora importante entre seus pares, rivais e áulicos, alunos e meros admiradores. Sua fama, no meio clínico e cirúrgico, sempre existiu. A fama nacional, o velho cirurgião adquiriu num debate na televisão, quando apresentava sua tese, a de que o aumento da incidência de diabetes é decorrente do conforto moderno e do consumo de alimentos industrializados.

   Tendo sido refutado pelo seu contendor, que afirmou triunfante que a tese não passava de uma tremenda besteira, porque era comprovada a diabetes em animais – cachorros, por exemplo.

   O grande cirurgião, sem perder a pose controlada e a natural elegância polêmica, fulminou o adversário, impiedoso. - Isso comprova o que eu digo, doutor. Cachorros comem na latinha, comida preparada e servida sem esforço, cachorros vivem como homens, enclausurados no conforto da vida moderna. Mostre-me um tigre com diabetes. Um tigre. Existe tigre com diabetes?

   E arrematou vitorioso - Senhores telespectadores, o alimento do tigre passa correndo por ele, quilômetros por hora, ou o tigre sai atrás dele, ou morre de fome, de diabetes, jamais. Tigres não morrem de diabetes. O conforto, senhores, é o nosso pior inimigo e o causador dos nossos mais temidos males. Tenho dito.

    No corredor, todos queriam abraçá-lo. As irmãs, as faxineiras, simples funcionários e alguns seguranças também acorriam para a pequena multidão, ninguém na Santa Casa queria ficar de fora dos efusivos cumprimentos, até mesmo alguns pacientes vieram participar, arrastando seus pijamas, suas ataduras, seus chinelos e suas esperanças.  

   De repente, de dentro da sala, a noviça com a esponja, como trovoada de uma chuva torrencial em pleno inverno, berrou, como pode berrar uma futura freira, com todas as forças de seus saudáveis e delicados pulmões. - Doutor Abelardo, DOUTOR ABELARDO, Deus nos ajude. Deus nos acuda. A SUA PACIENTE, PARECE QUE MORREU!

                        *

                                                                                 

                                                                                               2º Capítulo

 

     O doutor Abelardo como todo homem reconhecido, respeitado e admirado por muitos, despertava ciúmes de alguns, rivalidade de outros e inveja de todos, mas, foi justamente um desses invejosos que o apelidou pelo modo que ele ficou definitivamente conhecido, e reconhecido, el amputador.

    Esse era o seu principal trabalho. Amputar. O doutor Abelardo, nos últimos cinqüenta anos, amputara. Mãos, braços e antebraços, pés, pernas e coxas, orelhas e narizes, seios e pênis e até uma ou duas bundas.

    Extraia, também, em menor escala, rins, vesículas, olhos, ovários, úteros, gônadas, testículos, línguas e o que mais se pudesse extrair.

      Esse era o seu trabalho, amputar e extrair fosse o que fosse para salvar vidas. O doutor Abelardo vivia em plena guerra. Propriamente uma guerra, não. Quem vive em guerra vive entre mortos e mutilados. O doutor Abelardo raramente, eu disse raramente, esteve entre mortos.

   Os pacientes, dos quais amputou a bunda, mais conhecida como bacia do ilíaco, não sobreviveram por muito tempo. Porisso, consciencioso, o grande médico não amputou mais que duas ou três, preferindo que os pacientes com problemas nesta região suportassem seu fardo por mais algum tempo, na base de remédios e morfina, do que restarem sem a bacia e logo acabarem mortos.

  Incansável, o grande cirurgião combatia sem trégua diuturnamente cânceres, putrefações, decomposições, degenerações e diabetes.

    Dona Matilda, a enfermeira-chefe, trocou um rápido olhar com o doutor Abelardo e voltou à sala de cirurgia.  A noviça, ainda enrubescida pelo berro, apertando a esponja com a mão tremula, se dirigiu ao abrigo da irmã veterana, seus lábios pálidos pelo medo e pelo contraste com a cor do rosto, não arriscaram balbuciar, temendo novo grito, mas seus olhos tonitroavam. A irmã veterana aproximou-a, tomou-lhe a esponja, antes úmida do suor do médico e agora encharcada do suor da futura freira e, sem dizer palavra, consolou-a, como se dissesse: Filha, aqui, a morte é a nossa companheira mais constante.

   É certo que a noviça não desconhecia a presença constante da morte na Santa Casa, é certo, também, que não se tratava de sua primeira experiência com a morte. Talvez, o pavor que a descontrolava resultasse mais da surpresa da presença da morte numa cirurgia do doutor Abelardo do que da presença da morte em si.

   Foi neste instante, que a noviça, afinal, conseguiu olhar para o grande médico e reparar que ele permanecia inabalável, sereno, sequer incomodado com o berro seguido do alvoroço que, aparentemente, empanara a alegria, o princípio de euforia e a agitação dos cumprimentos. O médico permanecia impassível, a justificar o epíteto que o invejoso lhe lançara. A jovem noviça não deixou de observar: tratava-se, de fato, sem sombras de demérito, del amputador.

   O quadro é estável. Dona Matilda voltou da sala de operações. – A paciente respira, dorme com o efeito da anestesia, o pulso oscilou e caiu, batimentos estão normalizados agora.

    Doutor Abelardo olhou para a noviça, cujo rosto passou da cor de romã para a cor da pêra, pegou-a pelo braço como se lhe tomasse o pulso e explicou, carinhoso – Irmãzinha, primeiro, olho no paciente, depois no aparelho. É mais confiável.

  A noviça, que retornava ao estado de cor de romã, ou seria melhor dizer, que passava de cor de pêra a cor de pitanga, agradeceu aliviada e prometeu, com os olhos, umedecidos pela lágrima mais satisfeita que por ali se vertera, que tomaria mais cuidado etc.

   De volta aos cumprimentos, o grande cirurgião ouviu uma recomendação do anestesista. – Olho na paciente. Oxigênio e desfibrilador.

    UTI, doutor? – perguntou dona Matilda.

  Melhor. – disse o médico. – Temos vaga, irmã? A moça deve desfalecer pelo menos mais uma vez.

 

*

                                                                            3° Capítulo

 

   Como alguém que esvazia gavetas de dez em dez anos, ou de vinte em vinte, e vai encontrando peças, frações de objetos, restos e retalhos de coisas que foram guardadas com alguma finalidade completamente esquecida, que não fazem o menor sentido a não ser aborrecer a memória e, talvez, nunca tenham feito qualquer sentido, porque só a partir daquele momento passaram a existir, sem nenhuma razão, prática ou sentimental, e são, imediatamente, postas no lixo, o doutor Abelardo consultava o prontuário de seus pacientes nos hospitais. Para ele, aqueles nomes, aquelas pessoas, jamais existiram completas, com as partes que lhes foram separadas. Todos aqueles pacientes, para o grande médico, já nasceram amputados. Era assim. Carolina sem braço, Pedro sem perna, Manoel sem pinto, Irene sem seio etc. etc.

 

   Os mortos, estes, o doutor Abelardo era capaz de lembrar em minúcias, restaram gravados para sempre em seu consciente, o mal que os acometia, o membro ou órgão extirpado, o antes e o depois, cada detalhe da cirurgia, cada acontecimento clínico que acabou por colocá-los no túmulo.

 

  Todos nos hospitais eram testemunhas que o médico tinha horror á morte de seus pacientes e que não media esforços, não poupava recursos, dedicava-se ao extremo para lhes salvar a vida e, no entanto... Todos eram testemunhas. A madre superiora, conhecendo há décadas o modo de ser e de agir do grande médico, principalmente a lembrança detalhada que retinha dos poucos, felizmente, pacientes mortos, disse certa vez, para acalmá-lo: - Doutor Abelardo, é tal a sua dedicação, o seu desvelo com os nossos doentes, que me vejo na contingência de lhe falar, que a sua recordação quase que absoluta é, antes de mais nada, a prova de uma consciência aliviada.

 

   O médico espantado sorriu, sem, provavelmente, alcançar o sentido profundo da observação, levando a irmã a adverti-lo: - Não a tome como grande virtude, porque o orgulho pode arruiná-la, doutor.

 

   O grande cirurgião examinava a ficha da paciente que acabara de amputar o... e pensava com os botões do jaleco, não vou deixar que ela morra. Neste mesmo instante levantou os olhos e viu, na foto clássica da enfermeira com o indicador sobre os lábios pedindo silêncio, a imagem da madre superiora a alertá-lo dos perigos da soberba.

 

   Também neste mesmo instante, a menina amputada, estava sendo removida para a UTI e dormia serenamente.

 

   Frei Lourenço, o médico anestesista, que acompanhou a remoção da amputada, ao saber que o grande cirurgião ainda estava nas dependências da Santa Casa e conhecendo-o como o conhecia, foi o mais rápido possível ao seu encontro. Para, quem sabe, aliviá-lo.

 

   Num gesto brusco, doutor Abelardo indicou a foto clássica para frei Lourenço e apontou o pátio externo da Santa Casa. Para lá se dirigiram em passos ruidosos.

 

- Dose cavalar, frei. Era preciso? Ela tem apenas dezesseis anos. Era preciso? Uma simples amputação, duas ou três horas de anestesia, além do tempo da operação, era mais do que suficiente, depois controlava a dor com sedativos e logo em seguida analgésico. Caramba, frei.

 

- Apliquei a dose certa, Abel. Duas ou três horas.

 

  Doutor Abelardo expressou no rosto vincado de inumeráveis vitórias uma pergunta, que somente homens como o anestesista frei Lourenço, que o conheciam há muito tempo, podiam interpretar corretamente, algo como, então o que foi que deu errado?

 

- Não sei, Abel, não sei. Ou melhor, tenho uma suspeita. Encontrei no sangue da menina vestígios de tranqüilizante, não sei, posso suspeitar que ela tenha se entupido de tranqüilizante... minutos antes da cirurgia, o exame não acusaria.

 

    A expressão de agora do grande médico qualquer um traduziria.

 

                         *

 

    4º Capítulo

- Já disse, não sei, Abel, é mera suspeita. De todo modo, vou mandar fazer outra coleta e enviar pro laboratório, quero ter certeza do medicamento e da dose...

 

- Faça isso, Lenço, faça isso. - O sorriso do doutor Abelardo voltou a ser o costumeiro, o sorriso do homem vitorioso, um tantinho bafejado pelo orgulho.

 

   O pátio de entrada da Santa Casa é um pequeno jardim pisoteado pelos visitantes, com bancos de madeira pintados de branco descascado, relva, arbustos, antúrios, copos de leite e quatro limoeiros, todos mal cuidados. Não havia dinheiro para o salário do jardineiro e a irmã Sorella andava adoentada e sem forças para ficar se abaixando e se levantando, na árdua tarefa de jardinagem.

 

  Um homem tão alto e tão largo como uma betoneira, quase um King Kong, se aproximou. - B´ noite, doto,  b´ noite frei. – Era o motorista do doutor Abelardo.

 

- Boa noite, Azul, como vai? E sua mãe? perguntou o anestesista.

 

- Indo, frei, indo.

 

- Vamos, Roberto. Até amanhã, Lenço, e não se esqueça, qualquer novidade...

 

- Vai sossegado, Abel, assim que eu tiver o resultado lhe comunico. Vai com Deus. Azul, motorista de homem importante não tem tempo para um cafezinho, né...

 

- Tem sim, frei, mais o sinhô tomém é ocupado. Té mais vê.

 

- Lembranças para sua mamãe, vai com Deus.

 

- Serom dada, amém.

 

- Gente fina, né doto, nunca que esquece da minha mãe. Frei bão, taí.

 

- Vamos Roberto, temos que passar no HC e no hospital da face.

 

- A propós´, o sinhô vai vê a dona dos óio.

 

- Não me diga, Roberto, que você se apiedou daquela maluca.

 

- Sina, doto, sina memo, fazê u quê. Ela me óia cum tanto carinho.

 

- Com olho de vidro, Roberto? Acho que o maluco é você. – Riram, a gargalhada do motorista não era menos estrondosa que uma ponte ruindo. 

 

   Frei Lourenço, voltou ao laboratório e teve confirmada a sua pior suspeita. Além do anestésico aplicado por ele, o exame acusava a presença de outro tipo de anestésico, muito mais poderoso do que um mero tranqüilizante,  e a mistura dos dois poderia ser letal.

 

   Foi ver a paciente na UTI e deparou com a menina desfalecida. A enfermeira, que cuidava de mais dois pacientes terminais, teve tempo, apenas, de expressar com a comissura dos lábios o curto consolo da ocasião.

 

  Duas irmãs auxiliares, experientes naquela situação, comentavam em uníssono como num coro de Ésquilo:

 

- Por todas as suas veias corre um humor frio e letárgico.

- O pulso deixou de ter a batida natural, está estático.

- Nem o calor nem a respiração mostram que vive.

- As rosas de seus lábios e de seu rosto murcharam em pálidas cinzas.

- Seus membros, privados de moleza e movimento, ficaram rijos, inteiriçados e frios como a morte.

- As janelas de seus olhos se fecharam, como quando as fecha a morte ao dia da vida.

 

    O anestesista sentenciou: - A menina foi envenenada.

 

                         * 

 

  5º Capítulo

    Correu ao telefone. O celular do calejado cirurgião estava na caixa postal. O celular do motorista vibrou na platéia. 

     Estavam ambos na primeira das inúmeras homenagens ao renomado cirurgião, que acabara de se aposentar e completaria, em breve, oitenta anos de idade, ao lado de cada partícula de seu velho corpo, que ao longo da vida se teve alguma parte separada de si foram apenas unhas, barba, cabelo e dentes de leite. 

     A platéia se extasiava com a seqüência de slides de uma das cirurgias mais festejadas do grande homenageado. Não tanto com a cirurgia em si, mas com a seqüência de slides, que lembrava a frenética, tremeluzente e trepidante seqüência de Yoná Magalhães, jovem e maravilhosamente maravilhosa, em “Deus e o diabo na terra do sol”. 

     O motorista atendeu, com a discrição necessária, e reconheceu a voz do anestesista. - Azul, Azul, pelo amor de Deus, diz pro Abel, avisa, por favor, a menina foi envenenada... tá me ouvindo... avisa o doutor Abelardo... 

     Terminada a bela seqüência de slides, el amputador se preparava para agradecer a todos os presentes, quando percebeu o conhecido discreto gesto sereno do motorista que lhe indicava problemas. 

       Não se abalou, é claro. Reduziu os agradecimentos ao mínimo necessário, sem parecer descortês ou mal-agradecido e partiu. Saíram às pressas. 

      Chegaram na Santa Casa em poucos minutos. A expectativa era nenhuma. Na Santa Casa ninguém se abala, na Santa Casa a ordem é manter o controle. Custe o que custar. 

     Frei Lourenço deu as últimas notícias. A paciente fora envenenada, ali, na Santa Casa. Ele, ainda, não poderia afirmar se a menina ingerira por conta própria ou se alguém lhe ministrara a dose fatal, o fato fora de dúvida, é que fora envenenada. E corria sério risco de vida, pelas próximas quarenta e duas horas.  

     - Então, estamos diante de um crime, Lenço? 

     - Suicídio ou homicídio.  Já pedi à madre superiora para chamar a polícia. 

     - Meu Deus, meu Deus... minha última cirurgia, nas páginas policiais... 

     - Calma, Abel, chamamos a polícia, não a imprensa. Estes últimos dias têm lhe deixado um tanto importante... 

     - Ahhh, o maldito autocontrole dos anestesistas. 

     - Ora... se alguém deve ser responsabilizado pelo envenenamento, é o anestesista, não o cirurgião. 

     O silêncio que se seguiu poderia ser interpretado como exasperador, o respeito e a amizade dos doutores, no entanto, denotava alguma coisa a mais. Alguma coisa mal resolvida, mal explicada, deixada em reticências...  do passado recente, algum ressentimento, ou mesmo quebra de confiança, ou até mesmo alguma desconfiança. O silêncio perdurava. 

     - Conheço de cor estas suas palavras, não é a primeira vez... 

     - Você, não vai, Abel, não vai. Mais uma vez, não, por favor... 

     - Eu não estou me dirigindo à pessoa, muito menos ao frei, eu estou falando com o anestesista, que deve observar... 

     - Mais uma vez, não. 

     - Senhores, doutores, frei Lourenço... doutor Abelardo, iminente doutor Abelardo, eu vos peço, vos imploro, tenham um tantinho de tolerância, razoabilidade, sejam cordiais. – Admoestava-os a madre superiora.  

     - É o que estamos sendo, irmã, cordiais. Caso contrário, eu poderia encerrar a minha carreira com um decepamento.

 

                                                         *

                                     

                                          6º Capítulo

    Para que o circunspecto leitor, a condescendente leitora, compreendam em toda a extensão o diálogo travado entre o frei anestesista e o grande cirurgião, faz-se necessário narrar a história de Nazira, ou seria Safira?, a virgem de lábios de mel. Opa! essa é a personagem do Alencar, Iracema, aquela. A nossa, Safira, ou seria Nazira?, é a libanesa de olheiras abissais. Antes, porém, ouçamos o fim do referido diálogo. 

     - Bem. O anestesista... deve observar... todos os procedimentos de absorção. 

     El amputador discorrendo sobre aglutinação de partes. 

     - Não vamos começar, frei Lourenço. 

     - Ele começou, irmã. 

     - Ele. 

     - Doutor Abelardo o senhor não tem mais nada para fazer aqui, o senhor foi informado de tudo, a responsabilidade, agora, fica por conta de nossos residentes, assistidos pelo doutor Lourenço, obrigada doutor Abelardo. Obrigada, frei. Vão com Deus. 

     - Não há de quê, irmã. Boa noite a todos. 

     - Boa noite, doutor. Ainda precisa de mim, irmã? Posso entrar? 

     - Simpliciter simplex. Amém.  

     Doutor Abelardo partiu, bengala em riste. Seus passos duros marcavam a lajota fria como inscrições rupestres. Atravessou o jardim pisoteado pelos visitantes, com bancos de madeira pintados de branco descascado, sem notar a presença de dois novos limõezinhos que confirmavam a persistência da vida mesmo entre malcuidados limoeiros.  O cérebro fervia, fervia, não, os cérebros de calejados cirurgiões não fervem, usinam. Uma ideiazinha vinda de um centro de obstinações tomou conta de todo o pensamento: - não é a primeira vez. Não é a primeira vez. Não é a primeira vez. Não é. - Outra, tímida, vinda do mesmo centro, talvez, se sobrepôs: - Esses religiosos, irmãos, eh eh, irmãos, defendem-se. A madre interrompeu a discussão para proteger o frei. Eu não posso admitir que na minha última cirurgia haja qualquer tipo de problema, ainda que não causado por mim, não posso admitir. Se ficar assim, entre eles, eh eh, entre eles, se deixar assim, vão falar, vão me acusar, o velho, a mão mole do velho, a vista fraca do velho, vão me acusar. Vão. Isto não pode ficar entre eles. Entre eles. Cristãos, entre eles, católicos conciliares, tradicionalistas vão pro inferno, entre eles, católicos conciliares e tradicionalistas, ortodoxos vão pro inferno, coptas vão pro inferno, entre eles, católicos conciliares e tradicionalistas, ortodoxos e coptas, protestantes vão pro inferno, entre eles, católicos conciliares e tradicionalistas, ortodoxos e coptas e protestantes, evangélicos vão pro inferno, entre eles, católicos conciliares e tradicionalistas, ortodoxos e coptas protestantes e evangélicos, pentecostais vão pro inferno, entre eles. Isso não tem fim. Não tem. Se protegem, se atacam, se acusam, se defendem. Justo mesmo, só Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo, que ama seus filhos por desigual, mas julga a todos igualmente. São João Apóstolo e o ladrão na cruz são minhas testemunhas.  

     O motorista esperava pelo grande cirurgião, e, conhecendo-o como o conhecia, não disse palavra. Abriu a porta do carro, ajudou-o a entrar, tomando-lhe a bengala e apoiando-o com o braço, devolveu-lhe a bengala, bateu a porta do automóvel e deu uma última rápida espiada em direção à porta principal da Santa Casa e não viu ninguém. Nenhum aceno, nenhuma mesura. Entrou no carro, ligou o motor, engatou a marcha e arriscou perguntar. – Qué fechá os vidro, doto. – Não obteve resposta. Chateou-se, também. De todos os homens que colaboravam com o doutor Abelardo, aquele a quem Roberto tinha maior apreço era frei Lourenço. Achava, com razão, que o grande cirurgião devotava especial atenção ao dedicado anestesista. Rusgas havia, claro que havia. Quem, trabalhando junto, não tem rusgas? Mínimas diferenças, pequenas idiossincrasias. Quem? O respeito e o apreço, até mesmo a amizade, vêm justamente daí. Das pequenas diferenças. Mas na hora em que estas afloram tornam-se descomunais, agigantam-se, parecem não ter solução e as amizades, nestas horas, de risco, se fendem ou se solidificam. Ah, esqueci-me de contar a história de Nazira, ou seria Safira?, a virgem libanesa de lábios de mel e olheiras abissais. Fica para o próximo capítulo.   

  

*

 7º Capítulo

     A menina envenenada moveu-se, quase imperceptível. Depois, lentamente, com excessivo esforço, ergueu as pálpebras e semiorbitou os olhos vagos, miúdos, úmidos, nos contornos avermelhados, que, naquele instante, adquiriram tons permanentes violáceos arroxeados. Exausta, cerrou as pálpebras, rapidamente e com força. Então, deu uma golfada curta, quase seca. Um resto de bile e uma sobra de água salobra usada nas lavagens. Os lábios afilaram, deixando entrever uma mostra dos dentes musgosos. Frêmito, seguido de gemido suave, quase suspiro. Moveu-se mais uma vez, ainda imperceptível, e balbuciou sons numa estranha língua. Uma palavra, talvez, única. A primeira sílaba, o espanto. A segunda, um pedido de socorro. A última, a esperança. Tornou a revirar os olhos, sem, contudo, soerguer as pálpebras, cujas veias quedavam inturgescidas de todo o espectro do azul. 

     Frei Lourenço cochilava na poltrona de pano esgarçado da pequena farmácia de prateleiras empoeiradas, quando o subconsciente alertou o consciente, que despertou nervos e músculos. Correu. Suspeitou que já não havia mais tempo. Atravessou corredores em desabalada carreira, mas teve tempo de ouvir o riso dos enfermeiros e o motivo. Um deles disse: 

     - Antigamente, a mentira tinha pernas curtas. Hoje, a mentira tem nove dedos. 

     Frei Lourenço ao deparar-se com a jovem amputada, não conseguiu evitar a imagem do calejado cirurgião, cabeça grande, parcos cabelos brancos desalinhados, ombros arqueados em corpo empertigado, bengala em riste. Sentiu que deveria deixar suas preocupações de lado e pediu a Deus que o auxiliasse a só pensar no próximo. Notou a presença das irmãs na UTI e o trabalho de preparação da alma, que antecede a preparação do corpo. Fraquejaram as pernas? Sentiu que sim e pensou que somos levados a reações estereotipadas, mesmo em situações previsíveis, procurou recostar-se, recuperar-se. Preencheu a consciência com recordações desordenadas das belas e sábias palavras de são Cipriano, tão arduamente decoradas em época de desnecessidade. “Muitos de vós conservam o espírito calmo, a fé firme e o ânimo devotado, longe de serem abalados pela extensão da mortandade, qual rochedo forte, quebram os assaltos impetuosos do mundo... O que há no mundo senão combate quotidiano com o demônio e pelejas assíduas contra seus dardos e flechas?... Proveitoso para nossa fé que as vísceras dissolvidas em fluxo esgotem a força do corpo, que a febre queime a face ulcerada, que o estômago seja dilacerado por vômitos repetidos, que os olhos ardam pela afluência do sangue, que os pés e outros membros sejam amputados pelo contágio da podridão, que a doença se espalhe pelas juntas, tornando-as defeituosas e paralisadas, ou pelo corpo todo tornando obstruído o ouvido eã Sorella, que faz às vezes de jardineira e secretária, tomavam as primeiras providências, junto ao telefone. Informando os familiares da jovem paciente do acontecimento, comunicando a ocorrência ao distrito policial, localizando o legista, reservando vaga no necrotério, encomendando coroa de flores, e, principalmente, dando a notícia ao experiente cirurgião. 

     - Doutor Abelardo, por favor. É da Santa Casa.

     - Abelardo falando. Ah, irmã... como vai? Bem, obrigado. Sei. Fatalidade? Hum. Sei. Já estou indo pra aí. Não, eu vou. Eu tenho de ir, irmã. A senhora compreende, não? É a minha última cirurgia. Última. Estou calmo, irmã. Um médico da

cegos os olhos.” Tomado por esta verdade, repetiu em voz alta, atropelando as palavras, o livro da Sabedoria: 

     - “Mas o justo, ainda que seja acometido pela morte repentina, estará em descanso... Foi arrebatado para que a malícia não lhe mudasse o entendimento... Tendo vivido pouco, encheu a carreira duma larga vida: porque a sua alma era agradável a Deus, por isso Ele se apressou a tirá-lo do meio das iniqüidades... Mas o justo morto condena aos ímpios vivos, e a mocidade consumada em breve, a larga vida do injusto.” 

     As irmãs, ouvindo-o e percebendo-o tão emocionado, deixaram seus afazeres e se reuniram em oração, assim os enfermeiros e residentes: - Pai nosso que estais nos céus: santificado seja o vosso nome.

      No andar de cima, no acanhado escritório da administração, a madre superiora, acompanhada da irm

minha envergadura (a palavra lhe soou um tanto vetusta, um tanto plástica) não deixa seus pacientes na mão. Até já. Não precisa se incomodar.  

      O sol nasce, mas o cariz do céu ameaça tormenta.

 

*

 8º Capítulo

    Às onze e dez da manhã diluvial, o delegado titular entrou em sua sala, tirou do bolso o volumoso molho de chaves, abriu a segunda gaveta da escrivaninha, pegou a bóia para poupar hemorróidas e a jogou na cadeira de jacarandá, espaldar alto, braços largos, mola central, esmaltada de preto. Pegou a flanela, ocre do pó acumulado, passou-a superficialmente sobre a cadeira e a mesa e a devolveu para o fundo da gaveta, fechou a gaveta e foi até o cabide, no canto esquerdo da sala, oposto ao da janela. Tirou o paletó e o pendurou.

   De costas para a porta que deixara adrede aberta, notou a presença do seu melhor investigador, girou o corpo o mais devagar que pôde, fingindo distração, para satisfazer o colega com a sensação da surpresa, e retornou à mesa, com os olhos nas pontas dos sapatos.

- Dia, doutor. Que aguaceiro, hein?

     O delegado respondeu a saudação e a pergunta com dois vagos meneares da cabeça, mas com os olhos, agora, voltados para o centro da mesa, onde numa nesga, um punhado de pó insistia permanecer.

- As novidades... não são boas, doutor.

    O delegado, finalmente, encarou o seu melhor investigador, que já se encontrava no meio da sala. Alçou as sobrancelhas sobre os óculos, eternamente engordurados, num gesto, demasiadamente conhecido no Distrito, cujo único sentido é: desembucha.

- A chuva atrapalhou a troca do plantão. O delegado da noite ainda está aqui. – Esperou que o chefe absorvesse o golpe e deu a segunda estocada. – Prenderam outra vez a moreninha do cabelo periquito. – O melhor investigador sentiu que o segundo soco pegou. Fez uma pausa, dando dois lentos passos para trás, e desferiu o terceiro. – Ligaram do hospital, mais um crime, envenenamento, parece. – Mais um passo, rápido, até a porta. – A vítima é paciente do cirurgião lenhador. – Fechou a porta, pelo lado de fora, e esperou, um ou dois segundos, a trovoada, que a natureza naquela manhã enxundiosa não conseguira oferecer.

- Jacutinga, o doutor pode me receber? - Era o delegado do plantão noturno, no meio do corredor, ansioso para uma entrevista, sempre adiada, com o delegado titular.

- Pode, sim. Ele tá querendo falar com o doutor.

- Você me acompanha?

- Claro. Dá um tempinho, doutor. Vamos tomar um café, primeiro.

- Ele está com alguém na sala?

- Não, ele gosta de falar sozinho.

- Só impropérios?

- Liga não, aquela morena que o senhor prendeu... ele

- Arruaceira. Eu solto se o doutor quiser, não fiz a ocorrência.

- Nada, ela é nossa hóspede.

- Que cabelo é aquele, hein, Jacutinga?

- Cabelo periquito, doutor.

    O delegado de plantão tinha um problema sério. Muito sério. Apenas o delegado titular, que foi o mais atilado e mais bem sucedido investigador do seu tempo, poderia ajudá-lo.

    O caso era mais ou menos o seguinte: Semanas atrás, não passava das cinco horas da manhã, quando um homem entrou no DP, deixou um maço de Hollywood em cima da mesa do plantão e desapareceu. O maço estava aberto e dava para ver que não havia nenhum cigarro ali dentro.

  Delegado de plantão é curioso por natureza, balançou o maço, nenhum barulho, emborcou-o na mesa e deixou escorregar o conteúdo: um olho verde-do-mar- profundo. Lindo.

   Levou o objeto ao legista, que concluiu tratar-se de olho direito de brasileira, branca, virgem, dezesseis anos, mais ou menos um metro e setenta e cinco de altura, entre sessenta e cinqüenta e quatro quilos. Provavelmente extraído com um único sopapo na nuca e cortes nos músculos e nervo com tesourinha de unha, super afiada. 

   Mais uma semana, o delegado de plantão tinha saído com a equipe para um café, deixando no DP um moleque tomando chá-de-cadeira. O moleque viu um homem entrar, atravessar a sala e depositar um maço de Hollywood na mesa do plantão.

    Levado ao legista, a conclusão veio célere. Olho verde-escuro esquerdo de brasileira, branca, mãe de seis filhos, sessenta e um anos, mais ou menos um metro e cinqüenta e sete de altura, entre setenta e quatro e sessenta e cinco quilos, vazado antes da extração.

   O moleque não soube, ou não quis, dizer nada sobre o homem que viu deixar o maço de cigarros na mesa do delegado de plantão. Apenas observou, depois de muita insistência dos policiais, que o homem parecia mancar, ou, pelo menos, andava se arrastando, como se fosse muito velho. 

*

 9º Capítulo

 

     O delegado titular afrouxou, menos de um centímetro, o nó da gravata e sentiu o colarinho descolar da pele e roçar-lhe a nuca a fria aspereza do suor empoeirado. Acendeu um cigarro, deu uma longa tragada e foi abrir a porta. Olhou para o pequeno corredor vazio, passou os olhos por toda a superfície do rodapé, como se o estivesse lendo, e retornou à mesa.

     O investigador Jacutinga aproximou-se.

     - Doutor, o plantão me pediu, quer falar com senhor.

     - Foi ele quem atendeu a irmã? Ele fez a ocorrência? Mande subir com as pastas dos casos anteriores.

     - Estou com elas, doutor. O doutor pode me atender? – O delegado de plantão parecia mais excitado que o natural.

     - Cadê a ocorrência? Envenenamento?

     - Informação da Santa Casa, doutor. Não tive ninguém pra ir lá.

     - Paciente do doutor Abelardo?

     - Não sabemos, doutor. O Jacutinga deduziu, a vítima, parece, sofreu cirurgia, foi amputada, tudo muito vago, doutor, essa chuva, ligaram por volta de seis da manhã...

     - Deixe as pastas aí. Pode ir pra casa, doutor. Vá descansar. Vejo que o senhor não pregou os olhos.

     - Mas.

     - Eu cuido disso. Vá descansar.

     - Doutor, gostaria, ainda, de trocar algumas palavras sobre o caso do par de olhos que deixaram na minha mesa.

     - Outro dia. – O semblante do delegado titular não permitia qualquer persuasão. – Homicídio, doutor, tem prioridade a lesão corporal.

     - Sim, senhor. Tenha um bom dia. Ah, o plantão diurno ainda não chegou, o doutor quer que eu...

     - Bom dia, vá descansar. Jacutinga, avise todo mundo que não quero ser incomodado, traga a garrafa de café e vamos trabalhar.

     - É pra já, doutor. - Saíram.

     Jacutinga teve o cuidado de fechar a porta sem bater. O delegado titular, além das hemorróidas que lhe queimavam o, digamos, terminal, sofria de uma dor de cabeça crônica que lhe cozinhava o cérebro e o obrigava a tomar diariamente toneladas de analgésicos, que ele mastigava como chicletes.

     - Dá licença, doutor? Posso falar com o doutor um instante? – A investigadora entreabriu a porta e colocou parte do rosto dentro da sala. O delegado alçou as sobrancelhas sobre os óculos, o gesto demasiadamente conhecido no Distrito, e a investigadora observou que o delegado de plantão acabara de sair e pediu para soltar a moreninha do cabelo periquito.

     - Ela ainda não aprontou nada, mas o senhor conhece a encrenca. Melhor soltar logo. Posso? Faço como da outra vez? Tem uma viatura da PM aí. Mando algemar e levar pras bandas de bem longe. Obrigada doutor, não incomodo mais, obrigada, doutor Farofa. - Farofa, não é apelido é nome, explico logo mais, se o circunspecto leitor e a condescendente leitora tiverem um pouquinho de paciência.

     Jacutinga voltou com duas garrafas de água, copos, garrafa térmica de café, xícaras e dois pães com manteiga, tomaram o desjejum em silêncio e fumaram. O delegado mastigou um comprimido de analgésico, leu mais uma vez as anotações do plantão e fez um gesto para o investigador ligar para a Santa Casa.

     - Alô, irmã, madre, como vai a senhora? Sabe quem está falando? Pena que seja nestas circunstâncias, mas a senhora sabe, é da nossa profissão. Irmã, tenho algumas perguntas, meus homens precisam examinar o local, ouvir testemunhas, a vítima já foi removida? Não. O legista ainda não chegou. Eu sei, a chuva. Está bem, madre. Ah, madre, por favor, confirme: a vítima era paciente do doutor, desculpe, irmã, como é mesmo? Doutor... Abelardo. Vou precisar falar com ele, também. Infelizmente, madre. Tenha um bom dia, irmã. Obrigada, irmã, a nós todos, irmã. – Desligou e emendou. – Pobre irmã. Jacutinga, esse caso é seu. Não preciso dizer, não é? Eu quero o delegado de plantão fora disso. Agora, me diga, o que a moreninha aprontou desta vez.

     - Ih, doutor, nem te conto. O plantão prendeu a maluca, porque ela tirou a roupa toda numa padaria e pos pra secar na boca do forno. Dois PMs atenderam a ocorrência, teve luta, algemaram e trouxeram pra cá. Um deles, tava bem arranhado, o outro, dois ou três dedos quebrados e do padeiro, doutor, ela comeu a sobrancelha esquerda. O plantão mandou tirar as algemas e jogar na cela. Ainda bem que eu vi a tempo. Mandei algemar na grade. O senhor se lembra, da outra vez? Ela enfiou a sandália havaiana no rabo de uma detenta.

     - Lembro. Bem, pede o carro, vamos pra cena do crime.    

*

 10º Capítulo

     Dezenas de olhares cortaram o distrito policial, depois de depararem com o delegado Farofa e o investigador Jacutinga saindo juntos para fazer uma diligência, e cruzaram-se com um único significado: o caso é espeto, a exigir aguçada inteligência e astúcia atilada.

- É a terceira vez que anestesista Lourenço e cirurgião Abelardo estão envolvidos em homicídio hospitalar.

- Quarta, doutor.

- Sempre inocentes.

- Em três casos, indiscutível. Totalmente resolvidos, sem indícios, nem dúvidas. Mas no caso da libanesa.

- Ahn?

- Ordens superiores, doutor.

- O inquérito foi pra a homicídios?

- Isso, doutor.

- Nazira.

- Safira, doutor.

- Não solucionaram?

   A cidade parada, um ou outro ronco de motor, uma ou outra buzinada, mormaço, umidade, cheiro de vômito no ar, lentidão, terra nos olhos, uma ou outra fisgada das hemorróidas. O delegado acende um cigarro, enquanto masca o seu tradicional comprimido de analgésico. O investigador observa uma senhora carregada com sacolas, bolsa e guarda-chuva subindo e descendo o meio-fio, tentando manter os sapatos secos longe da lama e balança negativamente a cabeça. O delegado entende o gesto como resposta à sua pergunta e acrescenta.

- O caso Nazira ainda pode nos ser útil.

- Como, doutor?

- Vamos apertar os médicos, Jacutinga.

- Vamos, doutor.

- Com o pouco que sabemos.

- Nossa especialidade, doutor. 

     Na Santa Casa, os dois policiais foram se inteirando das imensas dificuldades técnicas da investigação. A paciente foi levada da sala de cirurgia para a UTI e, portanto, não retornou ao quarto, local mais provável em que poderia ter sido envenenada ou ter tomado o veneno que a matou. O quarto foi arrumado e limpo e todo o lixo jogado fora e, imediatamente, ocupado por outra paciente, que, felizmente, passava bem. O sangue recolhido para o segundo exame, que constatou a presença do veneno, reexaminado não apresentou vestígios da droga, que se volatilizara por completo, o que levava a crer que o corpo quando fosse autopsiado também não apresentaria sinal algum. A única prova do veneno, portanto, era aquela encontrada no segundo exame: anotada num simples pedaço de papel. A faxineira, as enfermeiras, os residentes e a noviça que ou estiveram no quarto ou acompanharam o translado da menina para a sala de cirurgia e UTI, nada tinham a dizer, nada perceberam de anormal, de estranho à rotina, estavam todos igualmente surpresos, especialmente porque a cirurgia sem risco havia sido um sucesso. O cirurgião, doutor Abelardo, ainda não chegara e o anestesista, frei Lourenço, tão surpreso como os demais, explicou que solicitou o exame, por cautela, pelas reações da paciente, que poderiam ser devidas à ingestão de anestésico. Jacutinga não deixou de notar o rosto do médico aljofrado de quatro lágrimas.

- Doutor delegado, o senhor poderia insistir com o IML, a pobre menina, com este calorão, começa a decompor e nós não temos onde deixar.

- Pois não, madre, o trânsito está um...

- Caos.

- A senhora tem uma ambulância? Nós vamos levá-la.

- O senhor me faria este grande favor?

- Claro, irmã.  Já não temos mais nada o que fazer aqui. Só mais uma coisa, desculpe, rotina, a senhora suspeita de alguém?

- Não, doutor. Caso suspeitasse, seria a primeira informação a lhe passar.

- Imaginei, irmã.

- Excolantes culicem camelum autem gluttientes.

- Claro, irmã. Mas eu lhe adverti. Rotina.

- O senhor ainda precisa de mim?

- Agora, não. Obrigado, madre.

- Fiquem com Deus.

- Doutor, que latim era aquele? – Jacutinga indagou do anestesista, sem que o delegado percebesse.

- Palavra de Nosso Senhor. Coais um mosquito e engolis um camelo.

*

11° Capítulo

 

   O investigador permaneceu pela Santa Casa, perambulando e bisbilhotando, examinando o controle de visitantes, os registros do ambulatório, da farmácia e da cozinha, ouvindo funcionários, lendo relatórios e prontuários, observando o movimento e conversando fiado, em suma: coando mosquito.
    O delegado titular, que acompanhou o cadáver até o IML, para assistir o trabalho da autópsia e informar-se sobre a arma do crime, fingia, como era de seu feitio, engolir camelo.
- Fala, Farofinha, tudo bem?
- Como vai, Leleco?
   O médico legista, doutor Leleco Gaiarça, filho de renomada e afamada família de médicos, e o delegado eram velhos conhecidos, desde o jardim da infância. Minto, desde o ginásio. Cursaram o científico juntos, mas não chegaram a ser amigos. Voltaram a se encontrar na Academia de Polícia e trabalharam na solução de uma dezena de casos. Havia boa camaradagem entre eles e indiscutível respeito profissional.
- Mais uma complicaçãozinha daquelas?
- Parece.
- Bonitinha, jeitosinha, uma criança. Uma pena.
O delegado consentiu.
- Pena. Amputaçãozinha perfeita, viu. Ah! Deixa eu te apresentar, doutora Perolinha, nossa toxicologista.
- Como vai, doutora? Ibrahim Faroum Farah.
- Prazer delegado.
     Abriram a menina e os sinais do envenenamento se evidenciaram, foram colhidas frações de fígado, rins, esôfago, estômago, intestinos, pâncreas e pulmões, além do sangue, para o exame toxicológico. O delegado, neste ínterim, foi informado das presenças do pai e do tio da vítima, autorizou a retirada do corpo, mas evitou encontrá-los, que ficassem, por enquanto, apenas com a dor da perda e as obrigações da inumação. Depois, perguntou ao funcionário que os recebeu, que impressão lhe causaram os parentes, se abatidos ou abalados, se mortificados ou conformados etc. Pediu à toxicologista, que o informasse em primeira mão de qualquer resultado que viesse a obter, pediu, ainda, com ênfase, total confiança e sigilo absoluto, enquanto se dava reparo da formosura da médica, a lhe fazer jus ao nome, a cabeça miúda, a tez pálida, os olhos negros e os lábios rosa e coral, que preencheram a retina do delegado com a imagem que antes habitava apenas a sua mente, a da morgadinha da Fervença, da obra imortal de Camilo Castelo Branco. Então, saiu, sem se despedir de ninguém, e tomou um táxi, na rua detrás.
- Pára. – Ordenou o delegado, com tamanha autoridade na voz, que pouco mais tarde o taxista contaria no ponto que o carro parou sozinho. Pagou a corrida e desceu do táxi em frente à padaria próxima ao DP, o investigador já o esperava na porta. Tomaram café em silêncio, em silêncio acenderam os cigarros e, em silêncio, caminharam em direção ao distrito, o delegado com as pernas abertas como se estivesse sobre andas e a pélvis projetada. Ao entrarem na sala do titular e fecharem a porta, o delegado quis saber:
- O que aconteceu, Jacutinga?
- A menina era noiva, doutor.
   Doutor Farofa alçou as sobrancelhas sobre os óculos. - Desculpe, doutor. No livro de visitas não encontrei o nome do garoto, mas fiquei sabendo, por uma freirinha assustada, do noivado e que o noivo andava por lá, Romeu Moutinho Júnior, “noivado secreto”, ela disse. Liguei pra casa do rapaz e a empregada me informou que o garoto arrumou a mala e saiu com o pai sem dizer pra onde, que a mãe ainda não sabia de nada, mas se a mãe ligasse, a empregada ia falar que “foram pra Caraguatatuba, na casa do primo Sampaio”, porque é pra lá que eles sempre vão.
- Um franguinho, porra. É só?
   O investigador fez que sim e passou a narrar o que seria, na opinião dele, o menos relevante do resto da investigação. O delegado deixou entrever que por enquanto concordava com a avaliação e ouviu atentamente o relato, mascando um comprimido de analgésico. Neste instante, foram interrompidos por uma policial, que veio informar que um certo doutor Abelardo havia ligado algumas vezes e insistido em falar com o delegado, a policial entendeu o gesto com a mão do superior e saiu, era para continuar dizendo que o delegado estava incomunicável no momento e que retornaria assim que pudesse. Não demorou um minuto e a policial voltou para dizer que o tal doutor Abelardo tinha uma importante revelação a fazer e estava a caminho do DP.
- Ora, pois.
- É, doutor, pelo jeito tem gente de mais querendo se acusar.
- Que abacaxi, porra.

*

12° Capítulo

 

  A notícia, que saiu com o mesmo título, “MAIS UMA MORTE MISTERIOSA NA SANTA CASA DE MISERICÓRDIA”, em três dos quatro maiores jornais de São Paulo, não mereceu chamada de capa, tampouco destaque nas páginas internas, porque foi publicada na semana em que a mídia incitava e explorava a comoção publica com o crime “que estarreceu o país”, do pai que esquartejou o filho cego de seis anos com um abridor de latas. Mesmo assim interessou aos poucos envolvidos, aos curiosos habituais, e, particularmente, a dois personagens que acabam de entrar em cena, que leram a matéria com denodada atenção: o juiz Nabor B. Ofegante, viúvo da libanesa de lábios de mel e olheiras abissais, e o semeador de cardos e espinhos, Mendonção, o vermelho.

   Sob o céu borrascoso, por parentes e amigos, em cujos rostos ígneos as gotas da chuva carregadas pelo vento engrossavam o rio de lágrimas, Julinha foi deitada na terra.

   Irreconhecível, entre ciprestes, Jacutinga, cinóptico, espreita. Vigia. Investiga.

    Um, dois, três, quatro, cinco, seis, doze, dezenove, vinte e sete, trinta e nove pessoas. Algumas delas, embora o choque, a dor e o luto as igualem, podem ser identificadas pela intensidade. Pai, mãe, avô, avô, avó.   

   Duas meninas, possíveis irmãzinhas. Tios, tias, primos. Colegas de turma, quatro prováveis vizinhos, um senhor de óculos que não é parente e a freirinha assustada.

    O senhor de óculos fala com os coveiros e sai. Trinta e oito.

Pareceu ao investigador, e saiba o circunspecto leitor e a condescendente leitora que, quando parece ser ao Jacutinga, é quase certeza que seja, pareceu, eu dizia, ter visto a moreninha do cabelo periquito.

   Por acaso, essa perigosa mulher teria seguido o detetive? É só uma idéia. Tão rápido quanto ela. Deambulando entre túmulos próximos, o queixo enterrado no colo.

     O investigador não tinha mais nada para fazer ali e vai deixando o cemitério, nota o senhor de óculos sentado na administração, segue até ele e lhe pergunta se haveria algum outro enterro hoje, o homem faz que não sabe, o investigador pergunta se ele trabalha ali, o homem responde que é o motorista do carro fúnebre, Jacutinga pergunta se ele sabe onde está o administrador, o senhor de óculos o informa que se trata de administradora e que, provavelmente, ela deve estar circulando pelo cemitério, o investigador comenta que reparou numa jovem morena de cabelos esquisitos e pergunta se não seria ela a administradora, o homem dá um pequeno sorriso e responde que a administradora está usando uma capa de chuva com gorro amarela.

    Neste ínterim, no distrito, o delegado de plantão, que recebeu os olhos extraídos de uma jovem e de uma senhora e os mantinha dentro de vidrinhos, colocou-os sobre a pilha de livros em sua mesa e os observava, concentrado.

     O olho da jovem era vivo, tinha a ânsia de descobrir o mundo, de maravilhar-se com a superfície das rosas, com o tênue desenrolar do horizonte, tinha curiosidade, coragem e audácia. Parecia querer dizer alguma coisa. O olho da senhora estava vazado, morto por assim dizer, irremediavelmente mudo. O delegado pegou uma folha de papel e anotou: Hollywood         Cinema   Olho. Depois a jogou fora.

  Uma perua estacionou na porta do DP. Dela desceram dois homens com uma caixa de papelão de um metro por oitenta centímetros.

- Põe na sala do Chefe - disse um investigador - é um frizi.

   A sala encheu de gente, abriram a caixa, lá estava a mini-geladeira. Aberta a mini-geladeira, encheram as formas de água, ligaram-na na tomada e ela deu um zumbido calorosamente aplaudido.

    Em meio ao alvoroço, apenas o delegado de plantão notou uma pequena caixa, junto da caixa da mini-geladeira. Pediu ao escrivão que a colocasse sobre a mesa, os homens que estavam saindo foram voltando aos poucos.

    Abriram a caixa, dentro dela outra caixa, hermeticamente fechada, o delegado impaciente cortou as bordas com um estilete e rasgou o papelão. Outra caixa.

    Aberta a caixa, em meio à serragem, um maço de Hollywood.

   O delegado deu a ordem antes de abrir o maço. – Prendam aqueles dois.

    Saíram dois policiais, mas os entregadores já tinham partido.

- Alguém anotou a chapa? Alguém sabe onde eles trabalham?

   A sala ficou cheia de gente, todos apreensivos. O delegado de plantão, decidido, tomado de fúria controlada, abriu vagarosamente o maço de cigarros. Lá estavam dois olhos castanhos claros,  do sexo masculino.

 

*

13° Capítulo

 

       A capa de chuva com gorro amarela. Jacutinga permaneceu do ladode fora do cemitério tempo suficiente. Estranho esse mundo. Os parcos homens fazem o seu trabalho, transportam e baixam os caixões, apressados. As mulheres, estas sim, visitam seus mortos, trazem seus rosários, oram, limpam os túmulos, trocam os vasos, renovam as flores, acendem velas, oram, cuidam com desvelo, agem com carinho, oram. Não têm pressa. Misericórdia, teu nome

é mulher.

      O desconforto da chuva intermitente e a exaustão das horas vãs não aborrecem o detetive, ao invés, convencem-no da acuidade de seus instintos e do acerto de sua atitude.

       A recompensa não tarda. O detetive pressente que atrás dele um prédio começa a mover-se. Não se espanta, espera. O chão treme. Um homem, um negro passa pelo investigador e entra no cemitério. Melhor segui-lo. Jacutinga acompanha com o olhar o homenzarrão descer a alameda e ir direto ao jazigo da jovem envenenada. O negro olha em torno, a chuva não o importuna, passa as grandes mãos na lápide, agacha-se, examina a portinhola, se levanta, passa mais uma vez as grandes mãos na lápide, faz o sinal da Cruz e sai vagarosamente, como é próprio do seu tamanho.

     Jacutinga já o reconheceu, é o motorista do doutor Abelardo, valeu a pena esperar. Valeu mesmo. De um mausoléu, uma jovem, gostosinha, morena, com um balde de plástico rente à cabeça, a esconder o rosto e o inconfundível cabelo periquito, sai correndo em direção ao gigante. O negro a abraça e a moça desaparece, como se tivesse entrado num vagão de trem. 

     O investigador não pode crer no que seus olhos vêem. O motorista do doutor Abelardo entrar sozinho no carro. Cadê a moreninha? Sumiu? Como é possível? A situação é tão inusitada, que o detetive não hesita em abandonar o disfarce e se identificar. Corre até o automóvel.

     - Boa tarde.

     - Bastarde.

     - Conheço o senhor.

     - É? Roberto, mai podi mi chamá de Azuli. Tómen cunheço o sinhô.

     - Jacutinga.

     - Da poliça, né?

     - Como vai.

     - Qué u’a carona?

     - Não, só uma pergunta.

     - Pois.

     - O senhor veio visitar o túmulo da paciente do seu patrão. Algum motivo especial?

     - O dotô num pode vi.

     - Algum motivo especial? 

     - Não. Veíce, acho.

     - E a morena?

     - Aquela? Sombrinha da mia mana.

     - Onde?

     - Ficô por lá. Gosta de andá em sumitero, principarmente em dia chuvuscoso. Bão, priciso i.

     - Vamos buscar a moça, quero falar com ela.

     - Pois.

     - Ouviu? Um assobio?

     Jacutinga sentiu o corpo de Roberto projetar-se, a mão do negro esbarrou em seu ombro como uma mó de atafona. A montanha desmoronava. Aturdido, o investigador não teve tempo, nem instinto, para notar a chegada da moreninha, nem dos dois cavalheiros que a acompanhavam.

     A rapariga desferiu violenta cabeçada na boca do estômago do investigador, que não teve tempo de sentir o diafragma dilacerar, o gosto de sangue e o ar fugindo dos pulmões e desmaiou.

     Tão rápido quanto este ato e, principalmente porque o motorista parecia despertar da bastonada e sem dúvida daria muito trabalho, os dois senhores trataram de carregar o investigador até o carro estacionado na porta do cemitério, jogaram-no no porta-malas e partiram na contramão a toda velocidade.

     Roberto logo despertou e a moreninha do cabelo periquito o auxiliou a levantar.

     - Tudo bem, tio?

     - Que? Quem? Fia?

     - Vai, tio, a polícia já vem.

     - Que, num devu nada.

     - Tchau, tio, lembrança pra tia.

 

*

14° Capítulo

 

     Como a sentinela dos Atridas, sem dormir e abandonado pelos sonhos, em vez de sono o medo, o grande medo, que afasta sempre as pálpebras pesadas, doutor Abelardo, as pernas trôpegas, ergue-se com dificuldade da poltrona de vime na varanda do seu amplo apartamento para receber um colega no gabinete privado. É o doutor Leleco Gaiarça, que faz longa mesura para saldar o experimentado cirurgião, medindo as palavras para evitar o uso obsessivo do abominável diminutivo. Veio trazer, pessoalmente, notícias do exame de corpo de delito do motorista, de cuja cabeçorra o legista retirou fragmentos da barra de aço utilizada no golpe, que, agora, exibe ao grande cirurgião.

     - Que cabecinha, hein, doutor? Qualquer outra e estaria irremediavelmente em pedacinhos.

     - Roberto ainda não se recuperou, mandei interná-lo, a tomografia nada registrou, mas o atordoamento não passa. Ele não se lembra de nada, nem mesmo que foi atingido no cemitério.

     - Cemitério? Ué, ele disse na polícia que foi assaltado.

     - Sim, ele foi assaltado no cemitério.

     - Ah é, mas levaram o seu carro, não levaram?

     - Levaram

     - A polícia já tem alguma pista?

     - Nenhuma. Roberto esteve no cemitério, a meu pedido, para acompanhar o enterro daquela minha paciente.

     - Sei, eu fiz a necropsia, o senhor sabe.

     - Alguma novidade?

     - Não, acho que não. A mocinha tomou o veneno. Minha toxicologista encontrou traços da droga na mão direita. Suicidiozinho.

     - Já saiu o laudo?

     - Quase. Minha toxicologista gosta de um detalhinho.

     - Apresse o laudo, doutor Gaiarça. Apresse, é um pedido encarecido que lhe faço. Preciso descansar.

     - Não se preocupe, doutor, não se preocupe.

     - Minha última cirurgia. – Nem mesmo a apreensão e angústia que dominam o tarimbado cirurgião ajudam-no a disfarçar o tom nostálgico.

     - Não se preocupe, doutor, não se preocupe.

     - Como não me preocupar? O senhor não percebe que, caso se confirme o suicídio, isto também me atinge?

     - Claro, doutor. O senhor tem toda a razão. Mas o senhor fique certo de que tudo que nós pudermos fazer para poupá-lo desses aborrecimentos nós faremos.

     - Obrigado. O senhor tem boas relações com o delegado, não tem? Faron, como é mesmo?

     - Farofinha.

     - Pois é, estou tentando falar com o delegado há dias e ele não me retorna.

     - Não se preocupe, Abelardinho, perdão, doutor Abelardo. Farofinha foi meu colega de classe. Tudo o que puder ser feito para ajudar o senhor, fique certo, nós faremos.

     - Obrigado, passar bem.

     - Passar bem. Minhas recomendações à senhora sua esposa.

     Vamos encerrar este capítulo com um pouco de suavidade. A dedicada esposa do grande cirurgião. Antes, é necessário que se diga que o doutor Abelardo preparou-se com afinco para ser o melhor cirurgião do seu tempo, aplicado ao extremo, cada hora, cada minuto, estudando e pesquisando, jamais esteve presente nas memoráveis festas de arromba da faculdade, nunca lançou um olhar sequer para as colegas mais carnudas ou as rebolantes enfermeiras.

     Conheceu a esposa na maturidade, jovem aluna, alta e rechonchuda, ossos proeminentes arredondados, de profundos, tristonhos e doces olhos verdes, pele rósea aveludada, cabelos estanhados, longos e encaracolados, dossel sobre majestosos ombros, gengivas fartas e brilhantes, dentes pequenos e lindos, quase tão lindos quanto os dentes de Berenice, emoldurados por lábios desenhados no céu, sorriso de mãe bondosa e voz macia.

     Casados há mais de trinta anos, a diferença entre eles beira vinte e cinco, quatro filhos e uma vida de carinhos comedidos, porém, constantes.

     Abelardo nasceu adulto e sisudo, a esposa lhe trouxe no íntimo a infância jamais revelada. Ainda assim, a meninice do grande médico não ultrapassava o bom comportamento, a resignação e a natureza remansosa das crianças ajuizadas. O que, de fato, pode ser um bem, mas, muita vez, é um mal, na medida em que a passividade representa um estoicismo indiferente.

     De caráter inabalável, dona Heloísa, para o renomado cirurgião, é essencialmente ortopédica, porquanto serve para lhe manter a firmeza e retidão. 

 

 

*

15° Capítulo

     Desde o passamento prematuro de sua amantíssima e extremosa esposa, o juiz Nabor B. Ofegante, abandonando juramentos formais, pôs-se a organizar e a empreender, diuturna e infatigavelmente, a própria vingança: colocar no cepo perpétuo, algemados e amordaçados, numa masmorra fétida, habitada por ratos e percevejos, os doutores Abelardo e Lourenço.

     Para não deixar transparecer o pendão pessoal, nem o único e exclusivo propósito de desforra, aconselhado por áulicos e acólitos moderados, rastreou a esmo na internet algumas vítimas de semelhante desdita, para fundarem uma ONG, elegendo como alvo a iatrogênese.

     Por sugestão de um velho advogado, que debitava aos esculápios a perda irreparável do pai com noventa e quatro anos e da mãe com cento e doze, desasistidos e abandonados em leitos hospitalares, a ONG adotou, como definição de iatrogênese, acessível ao grande público, as célebres palavras de Ovídio, “video meliora proboque; deteriora sequor”.

     Mediante expedientes de cursos, palestras e conferências esclarecedoras da “população mais humilde”, que lhes permitiam freqüentar pronto-socorros, hospitais, santa casas e clínicas, os membros da organização mantinham em constante vigilância os passos e as ações dos médicos e laboratórios farmacêuticos seus desafetos, além de se aproximarem de eventuais aliados, inimigos de ocasião de seus inimigos, seja por rivalidade, seja por vaidade, seja por ingratidão, que abarrotavam os arquivos da organização com incontáveis disparates, caluniosos, injuriosos e difamantes.

     Em pouco tempo, o juiz vingador constatou duas verdades, a primeira e mais importante: os doutores Abelardo e Lourenço eram respeitadíssimos entre seus pares e os raros que ousavam detratá-los, estavam envolvidos em acidentes ou até mesmo em crimes mais numerosos e muito mais evidentes.

     A segunda, a iatrogênese é universal e essencialmente democrática, não se restringindo a nenhuma especialidade médica, nem a nenhuma condição sócio-econômica ou higiênica.

     Por estes motivos, logo o juiz Nabor B. Ofegante viu-se na contingência de, não podendo formular acusação concreta, baseada em fatos e circunstâncias reais, fantasiar fatos e forjar acusações, chegando a afirmar, apoiado em dezenas de centenas de milhares de exemplos, que todas as doenças humanas foram erradicadas no final do século dezenove, perdurando apenas aquelas moléstias advindas da fome. A conclusão, que não poderia ser mais óbvia, o juiz deixava para seus ouvintes. Onde houver abundância de alimentos, como no nosso querido país, a iatrogênese reina absoluta.

     Tal teoria, de imediato, rendeu fama e sucesso para a ONG. Maravilhado com a repentina popularidade, tocado em sua fatuidade, com os aplausos e manifestações de arrimo, que confirmavam a certeza que sempre acalentou no íntimo de sua superioridade natural, o juiz deixou-se levar e enlevar. Esqueceu-se momentaneamente da causa de sua vingança, para embriagar-se com os portentosos sorvos da merecida vanglória. Até o dia em que leu a notícia da morte da menina envenenada, que lhe avivou a memória, os humores da vindicta e a imorredoura saudade de sua adorada esposa, a libanesa de lábios de mel e olheiras abissais, a inesquecível Nazira, ou seria Safira?

     Madrugada sufocante, suarenta, enfadonha. No DP, os ruídos dos ventiladores compõem inebriante cantiga de ninar. Os homens, com as narinas dilatadas e as bocas semi-cerradas, distantes entre eles o suficiente para não respirarem o mesmo ar, apalermados com o mormaço, toscanejavam. O delegado de plantão cochilava em sonhos de rios e lagos.

     Ninguém percebeu o homem coxo, chegar se arrastando, como se fosse muito velho, atravessar a sala e depositar uma pequena caixa de papelão amarrada com barbante na mesa do delegado.

     Dentro da caixa, um olho escuro, castanho ou preto, rajado de vermelho na córnea, parecendo ter sido socado.

     O berro do delegado de plantão fez voltar por alguns segundos as pás dos ventiladores e o azáfama habitual do DP.

     Na noite seguinte, a investigadora cautelosa entrou na sala do delegado titular, esperou calma e confiante, que o delegado alçasse as sobrancelhas sobre os óculos, eternamente engordurados, num gesto, demasiadamente conhecido no Distrito, cujo único sentido é: desembucha.

     - Você, também, Mirtes?

     - Doutor, não quero pecar por omissão. A certeza é geral.

     - Tá bem. – O delegado se remexeu como se estivesse sentado numa caixa de marimbondos, e estava. – Vou mandar fazer o DNA, assim resolve duma vez.

     - Brigada, doutor. Vou trazer a requisição pro doutor assinar. O olho está no IML, o plantão mandou pra análise, sexo, idade, tamanho etc.

     - E o material pra comparação?

     - Peguei uns fios de cabelo no pente do Jacutinga.

*

16° Capítulo

  Que esterquilíneos! Que protérvia!

     - Farofinha.

     - Leleco.

     - Que historinha é essa?

     - O meu pessoal merece essa satisfação.

     - Posso te adiantar o examezinho clínico. – Pausa. – Globo ocular com hematoma causado por instrumento contundente, provavelmente foi esmurrado, com comprometimento da esclerótica, rompimento de vasos capilares, edema na córnea, perda de humor vítreo etc. A técnica extrativa é a mesma dos outros. Sopapo na nuca e cortes longitudinais nos músculos e diametral no nervo, com aparelho semelhante a tesourinha de unha, bem afiada. Olho direito, macho, quarenta e três anos, entre um metro e sessenta e sete e um metro e setenta e dois de altura, de setenta a oitenta quilos. Não vai precisar fazer o DNAzinho, não. Te garanto, nove contra um, é um olho de Ja...

     - Filho da puta. – Caiu a linha. O delegado bateu o telefone com raiva incomum. Sentiu o sangue subir e banhar a raiz de cada cabelo. Respirou fundo. Saiu da cadeira num solavanco e foi até a janela, empurrou com força o basculante, que desta vez não enguiçou, até o fim. A respiração pesava. Seguiu até a porta e mandou quem estava pelo corredor chamar a investigadora Mirtes. Acendeu o cigarro e esperou que a policial apontasse no topo da escada. Cabelos curtos, cobrindo a orelha na altura do lóbulo, rosto claro, ombros largos, braços fortes, andar reto, quase sem meneios. Avistou-a girando e a viu caminhar no corredor em sua direção. Mirou-a fixamente, observando os movimentos das pálpebras e dos olhos que pareciam lobrigá-lo, discerniu os tons do verde do limão ao esmeralda, depois, sem dizer nada, fez um gesto para que a policial retornasse ao próprio posto e retornou à própria secretária.

      Dona Ivete Praxíteles Levedura da Rocha gosta de tomar leite com groselha.

     Veio para uma temporada na casa de praia, em Caraguatatuba, do primo Sampaio e lá se encontrava quando o primo Moutinho levou o filho com a intenção de afastá-lo das amarguras e dos mexericos da morte por envenenamento da menina Julinha, na Santa Casa de Misericórdia.

     A prima Ivete, solteirona atraente sem ser bonita, pertence ao terceiro escalão do governo estadual, afilhada política do governador, dizem, e madrinha política de futuros eleitores. O primo Moutinho considerou que ela seria uma boa companhia para o entristecido menino e voltou a São Paulo, deixando-os a sós, com algum dinheiro e muitas recomendações.

     Dona Ivete em frêmitos ao deparar com o jovem franzino enfiado numa minúscula sunga, que lhe espremia as virilhas e fazia propaganda enganosa da realçada genitália, particularmente com o peito glabro e os mamilos intumescidos, que, ela acreditava, serem fruto do operoso trabalho de Onan.

     De início, convidou o adolescente para uma dose de conhaque, desafiando-o a bebê-la de um só trago. E logo em seguida mais uma. Agora, um tanto mais animados, ela foi se chegando até borrifar entre dentes uma nuvem de leite com groselha sobre os mamilos sedutores e se oferecer para enxugá-los com a língua sedenta e os lábios sequiosos. O mancebo não reagiu à altura. Ela rasgou a sunga como quem desembrulha um presente. Ele reagiu encabulado.

     - Que foi, gostoso?

     - Nada.

     - Deixa eu ver, gostoso?

     - Pára, tia.

     - Bobo. Viu? Gostoso.

     A língua da matrona agia como uma formiga recolhendo alimento, de lá pra cá, daqui pra lá, uma formiga, não, um formigueiro. Primeiro, ocupando todo o exterior do corpo do fedelho, depois, invadindo cada e todas as cavidades, fendas, fissuras, frestas, frinchas, furos, gretas, interstícios, orifícios, rachas, vãos e buraco.

     Então, caíram cada um para um lado.

     Dona Ivete logo se recompôs, foi até a cozinha aquecer o leite e o tomou morno com groselha. Sentiu uma tontura.

     Veio deitar-se ao lado do rapaz, que dormia encolhido como uma aranha. Sentiu outra tontura, um espasmo, uma ânsia.

     Vomitou.

     Foi ao banheiro vomitando pelo caminho, ajoelhou-se no vaso e vomitou. Teve um leve desmaio, bateu a cabeça na pia, depois conseguiu erguer-se e voltar para a sala, onde quedou desacordada.

     Foi socorrida pelo menino assustado e um casal de vizinhos. 

     No hospital, um mequetrefe, asqueroso e fingido, servil do semeador de cardos e espinhos, Mendonção, o vermelho, apareceu para fazer uma visita à colega de gabinete.

 

*

17° Capítulo

     São Bernardo do Campo, rua sem nome, casa sem número, toca o celular. Três da tarde.

     Uma senhora esgrouviada, heteróclita, a pele lavada, raspada, esticada e polida, resultado de inúmeras intervenções cirúrgicas e de enxertos de silicone, toxina botulínica e quejandos, assemelhada a um palimpsesto, na qual se pode vislumbrar traços das epidermes anteriores, maquiada numa policromia esfuziante, vestida em felpas de cetim drapejadas e crocitante, recendendo hectolitros de fragrâncias francesas, esparramada sobre uma mesa de mármore pentélico e vidro espesso de murano, recorta notícias de jornal, lânguida e caprichosamente.

     No sofá, obra de preciosa marchetaria, coberto de ricos bordados persas, um homem roliço, gelatinoso, orelhas gordurosas, rosto descorado, cabelos lisos implantados, barba natural desgrenhada, olhos rútilos, lábios frouxos malgrado o ricto, dentes amarelos e mãos diminutas, enfiado num terno de veludo italiano, ronca acambulhado. O estardalhaço do celular o desperta.

     - Não fui eu! Não fui eu! Ahnnnn?

     - Eeeei, Bilu, acorda. Atende aí, é o celular do Donça.

     - Ahnnnnnnn? Cadê ele?

     - Operações especiais.

     - Ahhhhh. Alô, oi. Fala, seu porra. O quê? Ahnnnn. Ivetona? Sei. O quê. Suspeita? Tá. Falô. Anotado. Tchau. Falô. – A mulher levanta o queixo.

     - Ahnnnn. Era o seu Porra. Ele tá em Caraguá, a Ivetona tá internada lá, suspeita de envenenamento. Pega a ficha dela. O Donção vai gostar.

     - Ivetona?

     - É, a papa anjo, sabe? A Ivetona da Secretaria, sabe?

     - Sei, o Donça mandou o seu Porra ficar na cola.

     - Pois é, veja só. Ivetona e envenenamento, não é demais?

     - O Donça parece que adivinha.

     - Que adivinha, que nada. Isso é ciência, Ma. O véio Donça sabe das coisas. Quando ele saca um assunto, sempre rende.

     - Tá aqui ó, Ivete Pracsitéles Levedura Rosa, Rocha, trinta e oito anos, solteira, balconista, professora, militante da juventude da social democracia... ai, ai, amiga do governador, papa anjo, a ficha é longa, hein?

     - Anota aí, suspeita de envenenamento em Caraguatatuba, internada desde ontem, estava na casa do primo, dito Sampaio, com o filho dele, espera... vê aí, Romeu Moutinho, pega essa ficha, se for quem eu tô pensando o Donção vai gozar...

     - Calma, Bilu, assim você me estressa.

     - Ma, isso aqui é operações especiais, beibi, vê se eu tenho tempo.

     - Assim não dá, vou falar pro Mendonça me mandar de volta pra Assembléia, eu não nasci pra me estressar. O Donça te falou o quê? De mim?

     - O véio Donça é um túmulo. Eh, eh. Brincadeira. Ele me disse que você quando era estudante dava um pau. Agitava.

     - Agora, Bilu, eu to na linha de frente, agito é pra moçada.

     - Aqui só tem bunda, essa molecada pegou tudo pronto.

     - E a gente se estressa?

     - Ah, vai, toma uma agüinha, Ma.

     - Romeu Moutinho, administrador, pa, pa, pa, amigo do, pa, pa, pa, Romeu Moutinho Junior, noooossa! Namorado de Julinha, ai, ai, ai. Morta por envenenamento na Santa Casa, doutores Abelardo e Lourenço, que babado, Bilu. Será que o moleque? Espera. Isso tira a suspeita do velho Abelardo, el amputador, o Mendonça não vai gozar, não.

     - Xiii, é o caso do Nabor, juiz, né?

     - Claro que é.

     - Ferrou. Cadê o celular? Alô, alô, atende, porra. Alô, seu Porra, faz o seguinte, vai atrás do garoto, o anjo que a Ivetona comeu, sacou? Vai, atrás, esse moleque, foi ele, sacou? O moleque é um criminoso. Quero ficha completa, sacou? O quê? Tá. To mandando. Um pau tá bom? Dois? Olha o caixa, hein, seu Porra, quero nota, falô? Nota das despesa, porra.

     No Distrito Policial, a investigadora Mirtes reavivava a consternação geral, dando indícios aos colegas que o telefonema interrompido do legista ao delegado titular dera a entender que a pior das hipóteses se confirmara, o olho socado deixado na mesa do delegado de plantão era mesmo do querido e eficiente investigador desaparecido no cemitério, quando ecoou em todo o prédio o mais sonoro, o mais doce e benfazejo “filho da puta” ali ouvido nos últimos tempos, era a frase final do diálogo retomado, que começara assim:

     - Farofinha. Caiu a linha, eu estava dizendo que garanto, nove contra um, que é um olho de ja...

     - Do Jacutinga?

     - Que, Jacutinga, Farofa? O olho é de japonês.

*

18° Capítulo

     Uma semana e um dia. Manhã de domingo.

     - Sabe o que é isto?

     - Sei.

     - Diga o nome.

     - Azuli.

     - Não. Diga o nome disto.

     - Não sei.

     - Então, o senhor não sabe o que é isto.

     - Sei.

     - O que é isto?

     - Não sei.

     - Quantos dedos têm aqui?

     - Três.

     - Muito bem, três. Diga o seu nome.

     - Azuli.

     - Azuli é o seu nome?

     - Podi mi chamá anssim.

     - Qual é o seu nome.

     - É.

     O delegado titular triturara mais um comprimido de analgésico, deixando o pó amargo desprender-se dos molares apenas com o auxílio da saliva.

     - Ele está se recuperando, delegado.

     - Posso falar com ele?

     - Delegado, o procedimento nestes casos.

     - Azul.

     - Sinhô.

     - O que lhe aconteceu?

     - Bati o crânio.

     - O senhor se lembra?

     - Craro, ô. Dói.

     - O senhor acha que está bem?

     - Delegado, por favor, não induza o meu paciente.

     - Doutor, o senhor se retire, ou mando prendê-lo por atrapalhar a investigação.

     - Delegado, por favor, o procedimento nestes casos. O senhor também pode ser processado, sabia?

     - Vai à merda.

     - Delegado.

     - Ih, ih, tá ficano quenti.

     - Azul.

     - So eu, sim sinhô.

     - Como é o seu nome?

     - Roberto, mai podi mi chamá de Azuli.

     - O senhor acha que está bem?

     - Acho.

     - O senhor sabe o que é isto?

     - Sei.

     - Diga o que é.

     - Um copo.

     - O senhor disse que bateu a cabeça?

     - Bati o crânio.

     - Onde?

     - No sumitero.

     - Como foi?

     - Não é possível, delegado, eu.

     - Doutor, o senhor está atrapalhando a investigação.

     - Como foi, senhor Roberto?

     - Mi pegaro atrais.

     - Quem?

     - Num sei não sinhô. Num vi, né.

     - Tinha mais alguém com o senhor?

     - Tinha. O dotô da poliça.

     - Tinha mais alguém além dele.

     - Tinha.

     - Quem?

     - Uma sombrinha minha, minina boa, dotô, só o sinhô vendo, mai cum cabelinho do esquisito.

     - Senhor Roberto, só mais uma pergunta.

     - Podi preguntá, dotô.

     - O senhor quer ir comigo pra casa?

*

19° Capítulo

     Com a tenacidade do moscardo que persegue a bezerra, a paciência da aranha que apanha o moscardo, a destreza da lagartixa que captura a aranha, a precisão do galeto que aprisiona a lagartixa e a força do gavião que estraçalha o galeto, o delegado titular, doutor Ibrahim Faroum Farah, saiu no encalço da moreninha do cabelo periquito, levando a tiracolo o tio da meliante, Roberto, o Azul, motorista do doutor Abelardo, convencido que, destarte, encontraria o seu melhor investigador, Jacutinga, e de quebra solucionaria o caso em que este estava trabalhando quando desapareceu, o do envenenamento na Santa Casa de Misericórdia, que, por sua vez, envolvia o afamado cirurgião amputador.

     A BMW prateada entrou a toda velocidade na garagem subterrânea da casa sem número, da rua sem nome, da outrora pacata cidade de São Bernardo do Campo, trazendo em seu interior, Mendonção, o vermelho, o semeador de cardos e espinhos, que era aguardado na fortaleza pelo bangalafumenga seu Porra, que trazia novas informações de Caraguatatuba, acerca dos acontecimentos em torno de dona Ivete Praxíteles Levedura da Rocha, que, graças a tomar tanto leite com groselha, lograra escapar da morte por envenenamento, tendo sido este devidamente confirmado pelos exames clínicos, embora permanecesse desconhecido o agente nocivo.

     Ora, como é do conhecimento do circunspecto leitor e da condescendente leitora, dona Ivete estivera, sob os auspícios de Vênus, com o jovem Romeu Moutinho Junior, cujo era noivo “secreto” da infeliz Julinha, que viera a falecer justamente por obra de peçonha, desarte, nada mais óbvio do que imaginar que o rapazote seria o causador de tais infortúnios.

     - Então, o hospital não conseguiu identificar a droga?

     - Não, chefe.

     - Ótimo. E a polícia? Já está atrás do garoto?

     - Já, chefe.

     - Polícia de Caraguá?

     - É. Por enquanto...

     - São Paulo já foi avisada?

     - Não tenho certeza, mas... Por garantia, liguei pro Palácio, anônimo.

     - Ótimo. Você sabe que a pior coisa que pode acontecer é se algum delegadinho enxerido...

     - Não tem perigo, chefe.

     - Olha lá, hein, seu Porra... Ah! Alguém precisa informar o juiz Nabor...

     - Desculpe, chefe, essa eu não entendi...

     - O quê?

     - Não é pra deixar o fascista do doutor Abelardo fora dessa?

     - Claro que não, seu Porra.

     - Então, pra que incriminar o moleque?

     - Santa ignorância. A menina não morreu envenenada na mão do velho fascista?

     - Morreu.

     - Então.

     - Então, o quê?

     - Ele deveria ter tentado salvar a menina, entende? Não percebeu que ela estava envenenada, ou não quis perceber, entende? Preferiu operar, por vaidade... por pura vaidade, entendeu?

     - Ah, entendi, o velho impediu de salvarem a menina.

     - Esperto. Alguém precisa informar o juiz Nabor, ele é o “nosso” maior especialista em vaidade médica.

     - O juiz faz o resto do trabalho?

     - Faz, se você cuidar pra que nenhum delegadinho enxerido...

     - Não tem perigo, chefe.

     Um voluntário da ONG de combate à iatrogênese, fundada e presidida pelo juiz Nabor B. Ofegante, viúvo da saudosa libanesa de olheiras abissais, Nazira, ou seria Safira?, recebeu um email apócrifo denunciando a falta das mais mínimas condições de análise no laboratório do hospital de Caraguatatuba, incapaz de identificar sequer um simples mata-rato.

     A partir daí, não foi difícil descobrir que no episódio em questão estaria envolvida certa importante figura do terceiro escalão do governo paulista, que, além de não autorizar qualquer publicidade a respeito e afirmar que fora muito bem tratada durante a sua internação, deixou escapar que o caso estava com a polícia, pois havia suspeita de intento criminoso.

     Feitas as devidas ligações, também não foi difícil descobrir o principal suspeito, nem a participação deste no caso mais recente de morte relacionada aos doutores Abelardo e Lourenço, que levou o sisudo juiz Nabor a espumar de satisfação, posto que, não era sem tempo se aproximava a hora da tão ansiosamente esperada vingança pelo assassinato clínico da sua insuficientemente pranteada esposa.

*

20° Capítulo

   Na propícia hora do apropriado repouso da tarde estival daquele mesmo domingo, dona Heloísa e doutor Abelardo foram despertados por estrepitosa e estridulosa barafunda na portaria do prédio.

     - Mande o Roberto tirar essa gente daí.

     - Querido, o Roberto está internado.

     Tratava-se de um grupelho de jovens, portando cartazes com garatujas iletradas e ressoando slogans de linguajar duvidoso, liderados por uma senhora “mais feia do que pede a razão que seja uma senhora honesta”.

     - Mande chamar a polícia.

     - Calma, querido, daqui a pouco eles se cansam.

     - O que vão pensar os vizinhos?

     - Nada além do que já pensam.

     Concomitantemente outro grupelho, com idênticos slogans e cartazes iguais incomodava a vizinhança de frei Lourenço, e, ainda, mais um, clamando por “justiça”, “cadeia para os culpados” e “fim da impunidade” infernizava a vida dos pacientes e funcionários do hospital de Caraguatatuba.

     Qualquer criança sabe que a Constituição, dita cidadã, garante, sob a denominação de “livre expressão do pensamento”, a arruaça, mas nem todos os adultos sabem que a paz nos hospitais quem garante é a polícia. Este é o mundo em que viveis.

     O delegado de Caraguatatuba era de São Paulo, da boa cepa originária do delegado Farofa, e lá estacionara por transferência punitiva. Prevendo os acontecimentos, prendeu de imediato o púbere suspeito e mandou espalhar, entre jornalistas e curiosos de plantão, que o rapazote ainda não fora localizado, mas que não se encontrava foragido, posto que, por ora, desconhecia que estava sendo procurado.

     - Romeu Moutinho Junior?

     - Sim, senhor.

     - Sua chapa tá esquentando.

     - Quero falar com meu advogado.

     - Calma, vamos conversar. Dona Ivete é sua?

     - Prima do meu pai.

     - Como você explica que ela tenha parado no hospital?

     - Quero falar com meu advogado.

     - Calma, menino. Eu quero lhe ajudar. Se você não está interessado e prefere que essa nossa conversa se transforme num inquérito, eu mando chamar o seu advogado.

     - O cara que me prendeu, disse que ela foi envenenada.

     - Primeiro, você não tá preso. Quer ir embora, pode ir.

     - Tá bom, se dona Ivete foi envenenada, não fui eu.

     - Mandamos analisar a substância. É a mesma que matou Julinha, a sua namorada.

     O choro convulsivo não impressionou o experiente policial. Mandou servir água e café para o rapaz, ofereceu um cigarro e iniciou um diálogo diverso para distrair e acalmar, depois voltou ríspido ao assunto.

     - Eu juro, doutor. Juro pela minha mãe! A Julí, a família dela é muito careta, a família era contra o nosso noivado, eles não queriam que eu visitasse ela no hospital, quando ela foi fazer aquela cirurgia, então eu entrei sem autorização, aí, eu falei pro meu pai, quando ela morreu, que eles não podiam saber que eu estive no hospital, entende? Então, meu pai me trouxe pra cá, então, meu pai me disse que a Julí tinha sido envenenada, então, eu disse que ela não tinha se matado, porque eu e ela, nós, combinamos, depois que ela saísse do hospital, que nós íamos nos casar e ela tava muito afim, então, como pode ela, ela morrer envenenada? Ela morreu, porque alguém, algum médico, no hospital, eu acho, mataram ela, ou erraram a dose, eu não sei, doutor.

     - E a dona Ivete? Envenenada?

     A súbita palidez, a falta de ar, a expressão inefável de terror, também não impressionaram o delegado.

     - Se acalme, meu filho. Pra tudo tem explicação.

     - Eu não sei, doutor.

     - Eu vou descobrir.

     - O senhor vai ver que não sou eu.

     - Telefone pro seu pai, peça pra ele trazer o advogado, porque eu, agora, preciso lhe deter pra averiguação e também pra lhe proteger. Parece que tem gente interessada em relacionar os dois casos, eu ainda não sei por que, mas sei que isso vai acabar lhe prejudicando.

     - Quem, doutor?

     - Agora, neste instante, a polícia dispersou alguns jovens que estavam na porta do hospital, pedindo punição pro culpado. Você sabe quem seria?

     - Por que tá me acontecendo isso?

 

 *

  21º Capítulo 

    O arco da lua minguante rasgara o céu do domingo evocando no delegado Farofa recordações não experimentadas, cenas da vida que pertencem a outros, até então desconhecidas e inimagináveis, como a do nobre Guichard Vert, que morreu jovem em 1287, deixando duas camas, três cobertores, quatro lençóis, dois tapetes pequenos, uma mesa, três bancos, cinco baús, dois presuntos e um quarto de toucinho na despensa, cinco barricas vazias na adega, um tabuleiro de xadrez, um capacete e lança, mas não a espada, colhida num livro de história, cujo título já esquecera.

     Uma certeza havia. A de que o desaparecimento de Jacutinga o martirizava mais do que os casos não desatados que tinha na mão.

     O delegado olhou pelo vidro do automóvel. A paisagem ia passando, as casas, as pessoas, pequenos morros, gatos, uma menina com chupeta. Daqui a pouco tudo estaria escuro, talvez chovesse, nuvens pesadas e negras acumulavam-se no horizonte.

     O carro mais e mais trepidava, parecia caminhar, embrenhando-se pelos veios sulcados no chão, entre terra, ora poeirenta, ora enlameada e mato. De repente, uma pequena multidão, vinda de todos os cantos, homens, mulheres e crianças, apressados, tropeçando, olhando para trás, apontando em todas as direções, falando, falando, todos ao mesmo tempo. Ninguém ouvia, ninguém entendia. O delegado fez sinal para segui-los. Chegaram até uma pequena clareira.

     E viram: um corpo. Devia ser de mulher, pelo menos parecia de mulher. Sem vestido, apenas com farrapos ensangüentados. Um corpo sem forma humana, sem forma de espécie alguma. Alguns cães ainda estavam em cima, ativos, devoradores. Outros cães, cães do mato, lobos selvagens, jaziam ao derredor. A luta fora tremenda. Havia pedaços de carne sobre os galhos das árvores, pingando sangue, soltando pêlos, dentes arrancados a dente, vísceras e ossos, que não se poderia distinguir se separados do corpo humano ou do corpo das feras.

      Na mandíbula partida ao meio de um cão selvagem, lobo do mato, uma madeixa do inconfundível cabelo periquito.

     - Minha sombrinha, dotô.

     - Tarde demais, merda!

     A moreninha morreu como viveu. “Nenhuma flor por perto, nenhuma relva, erva, folha ou mato que não roubasse seu sangue e parecesse sangrar com ela.”

     As explicações chegaram com as mulheres velhas.

     - Era a tua sobrinha.

     - Tava com fome, a pobre.

     - Foi almoçar o filhote de uma cadela brava.

     - Entra, vamos tomar um café.

     - Deixa, o Dito cuida de enterrar o que sobrou.

     - O doutor tá servido?

     O delegado dispensou o café, mas não se rogou de pedir uma aspirina, tomou logo duas, ou melhor, mascou-as. Depois, examinou as roupas e os guardados da moreninha do cabelo periquito, encontrou um livro, uns potes de creme, sabonete, sandália, um bonequinho de plástico roído, dois cartões de crédito mastigados, uma haste de aço com uma rosa de pano despetalada, um papel com rabiscos borrados a guisa de anotações e uma cadernetinha com número de telefones, quase ilegíveis. Guardou o papel e a caderneta, deu dez reais em paga pelo analgésico e dez minutos para Roberto se despedir e consolar os familiares. Partiram em direção ao distrito.

     Chegaram por volta da meia-noite. Silêncio e paz reinavam no distrito, o delegado pediu a um policial que preparasse um lanche, Roberto, extenuado, recostou-se no sofá, na sala do delegado titular, e num segundo roncava.

     Doutor Farofa pegou um envelope de aspirinas em sua gaveta e desceu para o salão principal.

     Abriu a cadernetinha e olhou cuidadosamente cada número de telefone anotado, cada algarismo parecia lhe transmitir uma mensagem de esperança, cada algarismo sussurrava a possibilidade real de localizar o Jacutinga, teve ímpetos de começar a ligar naquele exato momento, mas o adiantado da hora, a razão o aconselhava esperar, tudo deveria ser feito com muita técnica, sem alarmar ou afugentar os suspeitos.

     Gozava deste agradável devaneio, quando um grito ensurdecedor despertou a todos no distrito, menos Roberto, que dormia o sono dos anjos.

     Um bêbado, detido numa rixa de boate, sem ficha corrida, deixado no distrito até que passasse a carraspana, adormeceu no banco na sala do delegado de plantão. Quando acordou viu sobre a mesa um maço de Hollywood, novinho em folha, vincado e lacrado e resolveu fumar.

 

 *

  22º Capítulo 

    O delegado orientou a investigadora Mirtes para, se fazendo passar pela moreninha do cabelo periquito, discar para os números dos telefones anotados na cadernetinha em busca de alguma pista que levasse a polícia a encontrar aqueles senhores que seqüestraram o Jacutinga.

     Ela levou o dia nesta tarefa. Em vão. Um número era de um onzeneiro, outro de posto de gasolina e de manicura, e de pedicura e de cabeleireira, quatro de bufarinheiros de missangas e lantejoulas, quatro de brechós, três de borladora, berloqueira e bescate, dois de lojas de materiais de construção, dois de clínicas ginecológicas e um de imobiliária. Este, o mais significativo, porque lá havia um agente de serviços externos e operador de máquina reprográfica, com quem a policial travou o seguinte diálogo:

     “¡Te amo! ¡Oh, si me amases tu!... Ya no me pertenezco. ¡Si te poseyera!... Ante mí se desliza la encantadora corriente. Contemplé sus ondas deleitosas. La corriente destruyó mi propia imagen, y abrasado anhelo calmar mi ardor. Salto el arroyo. ¡Ah, que las bienhechoras ondas  me absorban ahora para saciar mi sed! ¡Despierta!... ¡Despierta, doncella! ¡Ríe y vive supremo placer! ¡Sé mía!”

     “¡Oh...! ¡Siempre fuí tuya!”

     “Si lo fuiste siempre, sé mía también ahora.”

     “¡Tuya eternamente!”

     “¡Sé hoy lo que has de ser por siempre! Al enlazarte mis brazos, latiendo mi pecho; al confundirse el fuego de las miradas y de los hálitos, los ojos en los ojos, la boca en la boca... ¡Así serás mía, como antes y como siempre! ¿Se aplaca mi ardiente angustia? ¿Es ya mía...?”

     “¿Si soy tuya?... ¡Serenidad divina, ruge em olas tempestuosas! ¡Casta luz, estalla em incêndio! ¡Desvanécete, celeste sabiduría, te acosa el grito gozoso del amor! ¿Si soy tuya?... ¡Oh...! ... ¿No me ves? ¿No te ciega y consume mi ardiente mirada? No te quema mi abrazo? ¡Como río tumultuoso mi sangre corre hacia ti! ¿No sientes un ímpetu de fuego? ¿No temes... a la mujer de frenesí abrasador?”

     “¡Ah, cómo hierve la sangre! ¡Abrasan las miradas! ¡Queman los brazos al enlazarse! ¡Renazca mi valor! El miedo que no conocí antes, el temor que apenas tú me infundiste un instante, ya lo he olvidado em mi torpeza.”

     “¡Héroe infantil! ¡Mancebo sublime! ¡Ingenuo tesoro de hazañas supremas! ¡Riendo he de amarte, risueña, me ciega el amor, riéndonos caeremos em el mortal abismo!”

     “¡Riendo, despiertas deliciosamente para mí! ¡Salve, oh día que nos alumbras! ¡Gloria al sol que nos da de su esplendor! ¡Salve luz surgente de la noche! ¡Gloria al mundo em que... vive! ¡Despierta! ¡Vive! ¡Me sonríe! ¡Brilla para mí la estrella de…! ¡Es mía, eternamente mi herencia y mi bien! Una y todo!”

     “¡Es mío, eternamente mi herencia y mi bien! ¡Uno y todo!”

     “¡Fulgente amor!”

     “¡Fulgente amor! ¡Risueña muerte!”

     O delegado prosseguia na tentativa de decifrar os rabiscos borrados no pedaço de papel, mas tudo levava a crer que seria mais uma investigação frustrada. Tal como os borrões que pareciam não fazer sentido algum, e, talvez, não fizessem mesmo, uma sensação de pensamento, uma pequena idéia solitária não formada, insistia em vir á tona no cérebro do mais atilado e mais bem sucedido investigador do seu tempo, o ora vivido, experiente e experimentado delegado titular, que, ajeitando a bóia para poupar hemorróidas na cadeira de jacarandá, fechou os olhos atrás dos óculos eternamente engordurados e deixou que a ideiazinha crescesse, se aclarasse e adquirisse sentido em sua mente.

     O mesmo sol que brandamente acariciava com ternos cálidos toques o sono profundo e reparador do retorcido motorista Roberto no sofá-cama na sala do delegado titular, abrasava inclemente com raios estorricantes o pesadelo atormentado e tormentoso do doutor Abelardo escarrapachado languidamente em seu colchão de plumas.

     Roberto despertou satisfeito. Demorou alguns segundos para perceber onde estava e recordar que havia deixado a clínica, o que lhe aumentou a satisfação, mesmo que a custa da lembrança da morte cruenta da sobrinha. Procurou um banheiro, urinou, lavou o rosto, enxaguou os dentes, penteou os cabelos com uma escova redonda azul e gasta, tirou o resto de barro e mato dos sapatos e desceu a escada até o salão principal, onde não conteve o largo sorriso ao rever o seu salvador, o nobre delegado titular, doutor Farofa, que acompanhava uma ocorrência para distrair-se, enquanto aguardava a chegada da sua competente auxiliar, a investigadora Mirtes.

     Tudo o que aconteceu depois disso já demos notícia, menos sobre a ideiazinha, simples e certeira, que, agora, fazia todo o sentido do mundo.

 *

  23º Capítulo 

 

   A régua da professora era capaz de alcançar o cocuruto de meninos e meninas sentados na quarta fileira a professora preferia acertar a orelha e cada pancada vergava e o zumbido então dois vezes um dois dois vezes dois quatro dois vezes quatro oito dois vezes oito dezesseis dois vezes dezesseis trinta e dois rapazes e moças deambulando pela praia os pés desnudos na rede estendida os peixes se debatendo subindo pelas pernas ferindo os calcanhares e as pontas dos artelhos se enroscavam se prendiam então dois vezes trinta e dois sessenta e quatro dois vezes sessenta e quatro cento e vinte e oito dois vezes cento e vinte e oito duzentos e cinqüenta e seis dois vezes duzentos e cinqüenta e seis quinhentos e doze era papel de parede não eram janelas e portas não havia a fumaça entrava pelo assoalho da sala se condensava no teto em meio a fumaça cinza sólida a claridade sem ar então dois vezes quinhentos e doze mil e vinte e quatro dois vezes mil e vinte e quatro dois mil e quarenta e oito dois vezes dois mil e quarenta e oito quatro mil e noventa e seis dois vezes quatro mil e noventa e seis oito mil cento e noventa e dois...   

     O doutor Abelardo narrou à sua extremosa esposa que acordara estrovinhado a desgrudar os olhos, que se haviam fechado com duas lágrimas, as primeiras que o terror lhe esponjara do imo e cristalizara nos cílios, como diria o doutor Libório, que aqui não nos interessa quem seja.

     Dona Heloísa não teve tempo para ajudar o marido a decifrar o pesadelo, porque fora chamada ao telefone. Era do hospital da face, uma amiga, para lhe informar que Roberto, o motorista, estava por ali, tentando visitar em hora imprópria a paciente de olho de vidro, que o circunspecto leitor e a condescendente leitora conhecem desde o capítulo quatro, e para pedir instruções de como proceder.

     - Ah!, que boa notícia. Obrigada, obrigada. Roberto está bem? Que bom, procure distraí-lo, um pouco mais, Abelardo vai mandar alguém aí para pegá-lo, mais uma vez, obrigada, obrigada.

     Naquele mesmo instante de segunda-feira, o juiz Nabor B. Ofegante acabara de receber uma delegação de amigos e colegas que viera parabenizá-lo pelas merecidas homenagens prestadas no dia anterior, pelos mesmos amigos e colegas, pela passagem de mais um aniversário de São Paulo, porquanto sua excelência muito se destacava como uma das personalidades mais ativas e combativas geradas pelo bravo solo bandeirante. Feitas as loas de praxe e os votos preliminares, seguidos dos agradecimentos e rapapés habituais, o doutor Nabor levou os convivas para mais uma visita à sua adega, onde a pequena delegação poderia observar as aquisições recentes e escolher para ser brindada com uma ou duas garrafas de Bordeaux estrategicamente separadas para aquela inesperada reunião.

     O nobre juiz mandou servir para acompanhar o vinho, torradinhas cobertas com queijo brie, azeitonas gregas, mandioquinha frita, pepininhos sírios em conserva, pistache do Líbano, brioches recheados e salame de Parma.

     A conversa seguia bastante animada, às vezes entrecortada, com várias pessoas falando ao mesmo tempo sobre um único assunto, às vezes discursiva, com todos os convidados em obsequioso silêncio atentos à narrativa das impressões causadas no eminente homenageado pela cerimônia do dia anterior; às vezes tomada de empolgação, quando todos os presentes recordaram, simultaneamente, o último cruzeiro que fizeram, às vezes tomada de euforia, quando todos os presentes organizaram, simultaneamente, o próximo cruzeiro que fariam.

     O juiz Nabor, assaltado pela idéia que, talvez, aquelas vozes resolvessem ficar para o almoço, pôde, por um instante, permanecer em profundo mutismo, levando a todos, instintivamente, a abaixar o tom.

     O quase silêncio repentino permitiu ao ilustre magistrado ouvir o toque personalizado de seu laptop de última geração a informar que importante mensagem acabara de ser postada.

     Abriu o equipamento na presença de todos, desculpando-se e pedindo a devida licença com olhares e gestos. Lançadas as senhas, deparou-se com a inusitada mensagem, que, de chofre, arrancou-lhe um riso escarnecido de descrença, logo seguido de um ricto de ofensa e revolta, que alguns dos amigos e colegas fingiram perceber e deixaram demonstrar que disfarçavam.

     O juiz não se fez de rogado, abandonou a sala, levando o computador, seguiu às pressas para a sua suíte e atirou-se na pia, a cabeça sob a torneira, deixando que a água lhe esfriasse a nuca. Depois, ainda sob o forte impacto, correu ao telefone e ligou para o seu assessor, pedindo providências urgentes.

     Tudo indica, era o que já se comentava na sala: Nazira, ou seria Safira, a saudosa libanesa de lábios de mel e olheiras abissais, a nunca demais pranteada esposa do nobre magistrado dera sinal de vida, através de mensagem com palavras que apenas o casal conhecia.

 *

  24º Capítulo 

     Madeixas encalamistradas ao ferro, à modos d’antanho, conquanto lhe empoassem ares aperalvilhados, mas não a ponto de encalistra-la, emprestavam solene autoridade a dona Francisquinha Ramalhões Urtiga, a temida mãezinha do nobre magistrado Nabor B. Ofegante, que, assim que noticiada do possível reaparecimento, sabe-se lá se ressurgimento, da nora extremamente amada, a linda libanesa de olheiras abissais, quedou-se aos berros de “tirem-me desta casa de loucos, não façam-me perder as composturas, não arregacem-me a paciência, levem-me daqui para um hospício de gente sã etc. etc.”, como era de seu constante costume.

     - Mamãe é apenas uma suspeita.

     - Cala-te.

     - Mamãe já lhe disse: ninguém, mamãe, ninguém saberia, recebi uma mensagem...

     - Cala-te.

     - Com frases que tão somente a minha menina saberia formular.

     - Fórmulas? Que fórmulas são essas?

     - Frases nossas, mamãe, da intimidade.

     - Deste, agora, a invocar espíritos? Ai, ai, Deus do céu...

     - Mamãe não torne as coisas mais difíceis...

     - Ai, tanto te alertei, Naborzinho, não ouves tua mãe, deixas de acreditar na choldra. Eu a vi, o último suspiro, vi descerrarem-lhe as pálpebras, e ainda vi aquele competentíssimo carniceiro...

     - Abelardo. Assassino.

     - Pela última vez examinar o belo trabalho com o olho de vidro.

     - Ai, mamãe, que torno a desfalecer...

     - Apruma-te, poltrão.

     - Como me arrependo de não tê-la visto, como me arrependo de aceitar os sedativos e não acompanhar a minha amada, ai, mamãe, ai, ai, ai.

     - És um menino, Naborzinho, sempre serás.

     - Mamãe, e se ela ainda estiver viva.

     - A puta que te pariu, Naborzinho.

     Abraçaram-se, comiserados, compassivos, confortadores, consoladores, cuidando a empertigada senhora para que o filho não lhe desmanchasse o penteado e tampouco o encharcasse nas profusas lágrimas de mãe e filho derramadas. Dona Francisquinha conhecia bem o seu rebento e da imensurável obstinação que dela herdara, receando que os fatos recentes o levassem a intermitente cogitação de exumar o delicado corpo da nunca em demasiado pranteada esposa.

     O delegado de Caraguatatuba, da boa cepa originária do doutor Farofa, sabia que não poderia deter o púbere Romeu, porque nenhuma suspeita real havia sobre ele, já que mentira acerca de mandar analisar a substância que ocasionou o mal súbito de dona Ivete e acerca desta ser a mesma que ceifara a vida de sua namorada, a jovem Julinha, na vã tentativa de obter alguma pista do rapaz. Entretanto, muito lhe intrigava a possibilidade de haver gente interessada em relacionar os dois casos, conforme viera a saber por jornalistas que compareceram ao distrito e lhe informaram da simultânea presença de arruaceiros com cartazes nas cercanias das residências dos doutores Abelardo e Lourenço e na porta do hospital local pedindo punição para o culpado de um fato que sequer se cogitava de considerar resultado de ação criminosa. Decidiu aguardar pela chegada do pai do garoto deixando-o descansar no sofá em seu gabinete.

     - O senhor demorou.

     - Ontem foi feriado em São Paulo...

     - O dia da cidade, precisamente.

     - E eu estava fora, em local de difícil acesso, onde está meu filho? Este é o doutor Cambalo, meu advogado, onde está meu... Romeu, você está bem, meu filho? Que aconteceu? Cadê os seus sapatos? Fala, Romeu...

     - Eu tava cochilando, véio.

     O delegado esclareceu que o rapazote não estava detido e nem seria indiciado, porque não era suspeito, uma vez que não havia acusação, nem crime. Fora mantido no distrito por precaução, ou melhor, por proteção, já que alguns elementos, perturbadores da ordem, estiveram no hospital com cartazes e slogans pedindo punição ao responsável pela internação da afilhada política do governador, sua prima.

     O advogado Cambalo desfazia o equívoco, corrigindo a informação ao delegado, de que dona Ivete Praxíteles Levedura da Rocha não era prima do seu cliente, doutor Romeu Moutinho, mas do doutor Sampaio, primo do seu cliente, e que dita senhora era muito conhecida e afamada nas rodas políticas e sociais pelo seu apego aos jovens iniciantes, quando foram interrompidos.

     - Doutor Nestor, telefone, de São Paulo, seu colega, doutor Farofa.

 

 *

  25º Capítulo 

     - Coincidências demais.

     - Os homens são como cristais na rocha, Nestor, estão sempre juntos, reunidos, apegados, justapostos, superpostos, enredados, amalgamados, emaranhados, imbricados uns com os outros, uns nos outros.

     - Imbricados?

     - Entelhados uns com os outros, uns nos outros, dependentes uns dos outros, e no meio deles, entre eles, dentre eles, estamos nós, para separar o bom do mau, o pio do ímpio, o equânime do iníquo, o honesto do desonesto, o justo do injusto e reagrupar o mau com o mau, o ímpio com o ímpio, o iníquo com o iníquo, o desonesto com o desonesto, o imprestável com o imprestável, o injusto com o injusto.

     - Porca miséria!

     - Voltando ao ponto.

     - Coincidências servem para esconder a verdade.

     - E, principalmente, esconder os mentirosos. Voltando ao ponto.

     - Vou liberar o moleque, mas deixo alguém na cola. Ok, deixa comigo, ponho alguém na cola da tigrona também.

     - Chequei quem estava no cemitério, quando desapareceu o Jacutinga. Trinta e oito pessoas, só parentes e amigos da menina morta e uma freirinha assustada, representando a Santa Casa.

     - E os médicos?

     - Abelardo e Lourenço? Não. Nunca vão a enterro de seus pacientes, talvez, pra evitar mais constrangimentos.

     - E o moleque?

     - O moleque não estava lá, não te disse? Nem o pai dele, ninguém dessa família Moutinho, nem o tal Sampaio, que parece que está em todas.

     - Como souberam do Jacutinga?

     - Ahn, não te disse. O Jacutinga ligou pra casa deles, falou com uma empregada, que deu o serviço de Caraguatatuba.

     - Saquei. Escuta, não tenho tanta gente pra colar nesse pessoal fora daqui. Aviso quando baterem as asas. O moleque eu me encarrego.

     - Olho em quem se faz de besta.

     - Se fazendo de besta, por enquanto, só aqueles caras da manifestação.

     - O que?

     - Te falei, não? Tudo muito arranjado pra parecer espontâneo, até avisam a imprensa antes. Foram pra frente do hospital, aqui, e pra frente da casa dos médicos, aí, foram pedir punição pros culpados. Não sabem quem é culpado, quem não é. O propósito tá mais do que claro é agitar e de quebra nos desmoralizar. Tô com o saco cheio dessa gente.

     - Vou dar uma checada nisso.

     - Manipulação política.

     - Que nada, rapaz. Isso é coisa do Nabor.

     - O juiz? Não entendi.

     - Ele acha que o doutor Abelardo é o único responsável por todas essas mortes, uma espécie de serial killer hospitalar.

     - Não bate. O que o caso da tigrona tem a ver? Presta atenção, Farofa, o seqüestro do Jacutinga tem propósito político, acredite você ou não. Tenho estudado esse assunto. Conheço essa raça. Foi isso que me derrubou.

     - Vou pensar. Em todo caso, não é bom pra você ficar interpretando. Não se deixe envolver, rapaz.

     - “Fatiguei-me, ó Deus; e estou exausto; porque sou demasiadamente estúpido para ser homem; não tenho inteligência de homem, não aprendi a sabedoria, nem tenho o conhecimento do Santo.”

     - Provérbios, Nestor?

     - Segue: “Porque o bater do leite produz manteiga, e o torcer do nariz produz sangue, e o açular a ira produz contendas.”

     - Bom. Abraço, Nestor.

     - Abraço, Farofa, e fique com Deus.

     O dia que começara incandescente, como numa forja de Augusto dos Anjos, em que “o éter possuía a térmica violência de um braseiro. Dentro, a cuspir escórias de fúlgida limalha dardejando centelhas transitórias, no horror da metalúrgica batalha o ferro chiava e ria!”, pareceu querer terminar, como na queda do anjo do Camilo Castelo Branco, “por uma noite escura e fria, o vento esfuziava nas ramalheiras. A lua, a longas intermitências, parecia, wagon dos céus, correr velocíssima entre nuvens pardas, para ir engolfar-se noutras. Então era o carregar-se a escuridão da terra, e mais para pavores o rangido das árvores sacudidas pelos bulcões de setentrião. Soariam doze horas por igrejas daqueles vales. Seria um como crebo soluçar da natureza por pulmões de bronze. Seria o grão clamor da terra em angústias parturientes de alguma enorme calamidade.   Àquela hora, e por aquela noite capeadora de assassinos e bestas-feras.”

 

 *

  26º Capítulo 

     Com a alma macérrima, encovada, exinanida, mortificada, em suma, frei Lourenço retira da estante a empoeirada obra do pecador Joyce e a lê em voz alta embargada, as lágrimas a anuviar as palavras.

     “O inferno é uma estreita, negra e sórdida prisão fétida, uma habitação de demônios e de almas perdidas, cheia de fogo e de fumaça. A estreiteza dessa casa de prisão é expressamente designada por Deus para punir aqueles que se recusaram a se limitarem às Suas leis. Nas prisões terrenas o pobre cativo tem, no mínimo, alguma liberdade de movimento, seja somente entre as quatro paredes da sua cela, seja no sinistro pátio de sua prisão. No inferno não é assim. Lá, devido ao grande número de danados, os prisioneiros estão atirados uns sobre os outros, juntos em sua terrível prisão, cujas paredes, diz-se, têm quatrocentas milhas de espessura; e os condenados estão extremamente apertados e desamparados que, como um abençoado santo, Santo Anselmo, escreve em seu livro sobre Similitudes, estão incapacitados até de tirar do olho um verme que o atormente.”

     “Jazem nas trevas exteriores. Pois, lembrai-vos, o fogo do inferno não emite nenhuma luz. Assim como, ao comando de Deus, o fogo da fornalha babilônica perdeu o seu calor mas não perdeu a luz, assim, ao comando de Deus, o fogo do inferno, conquanto retenha a intensidade do seu calor, arde eternamente nas trevas. É uma tempestade que nunca mais acaba de trevas, de negras chamas e de negra fumaça de enxofre a arder, por entre as quais os corpos estão amontoados uns sobre os outros sem uma nesga de ar. De todas as pragas com que a terra dos faraós foi flagelada, uma praga só, a da treva, foi chamada de horrível. Qual o nome, então, que devemos dar às trevas do inferno que há-de durar não por três dias apenas, mas por toda a eternidade?”

      “O horror desta estreita e negra prisão é aumentado por seu tremendo cheiro ativo. Toda a imundície do mundo, todos os monturos e escórias do mundo, nos é dito, correrão para lá como para um vasto e fumegante esgoto quando a terrível conflagração do último dia houver purgado o mundo. O enxofre, também, que arde lá em tão prodigiosa quantidade, enche todo o inferno com o seu intolerável fedor; e os corpos dos danados, eles próprios, exalam um cheiro tão pestilento que, como diz São Boaventura, só um deles bastaria para infeccionar todo o mundo. O próprio ar deste mundo, esse elemento puro, torna-se fétido e irrespirável quando fica fechado longo tempo. Considerai, então, qual deva ser o fétido do ar do inferno. Imaginai um cadáver fétido e pútrido que tenha jazido a decompor-se e a apodrecer na sepultura, uma matéria gosmenta de corrupção líquida. Imaginai tal cadáver preso das chamas, devorado pelo fogo do enxofre a arder e a emitir densos e horrendos fumos de nauseante decomposição repugnante. E a seguir imaginai esse fedor malsão multiplicado um milhão e mais outro milhão de milhões sobre milhões de carcaças fétidas comprimidas juntas na treva fumarenta, uma enorme fogueira de podridão humana. Imaginai tudo isso e tereis uma certa idéia do horror do cheiro do inferno.”

      “Mas tal fedentina não é, horrível pensamento é este, o maior tormento físico ao qual os danados estão sujeitos. O tormento do fogo é o maior tormento ao qual o tirano tem sempre sujeitado suas criaturas. Colocai o vosso dedo por um momento na chama de uma vela e sentireis a dor do fogo. Mas o nosso fogo terreno foi criado por Deus para benefício do homem, para manter nele a centelha de vida e para ajudá-lo nas artes úteis, ao passo que o fogo do inferno é duma outra qualidade e foi criado por Deus para torturar e punir o pecador sem arrependimento. O nosso fogo terrestre, outrossim, se consome mais ou menos rapidamente, conforme o objeto que ele ataca for mais ou menos combustível, a ponto de a ingenuidade humana ter-se sempre entregado a inventar preparações químicas para garantir ou frustrar a sua ação. Mas o sulfuroso breu que arde no inferno é uma substância que foi especialmente designada para arder para sempre e ininterruptamente com indizível fúria. Além disso, o nosso fogo terrestre destrói ao mesmo tempo que arde, de maneira que quanto mais intenso ele for mais curta será a sua duração; já o fogo do inferno tem esta propriedade de preservar aquilo que ele queima e, embora se enfureça com incrível ferocidade, ele se enfurece para sempre.”

     “E esse terrível fogo não aflige os danados somente por fora, pois cada alma perdida se transforma num inferno dentro de si mesma, o fogo sem limites se enraivecendo mesmo em sua essência. Oh! Quão terrível é a sorte desses desgraçados seres! O sangue ferve e referve nas veias; os cérebros ficam fervendo nos crânios; o coração no peito flamejando e ardendo; os intestinos, uma massa vermelha e quente de polpa a arder, os olhos, uma coisa tão tenra, flamejando como bolas fundidas.”

       “Considerai, finalmente, que o tormento dessa prisão infernal é acrescido pela companhia dos condenados mesmos...”.

     Frei Lourenço, o médico anestesista, não conseguiu continuar a leitura.

 

                                                     *

                     27º Capítulo


    Bate o interfone. Dona Heloísa, arrastando a perna esquerda por causa do ciático, vai até a cozinha.
- Sim? Pois não? Aqui tudo bem, obrigada. Pois não. Ah! Já mandou subir?  Está bem. Obrigada. Sim. Darei, obrigada. Boa noite, seu Juvenal.
O velho porteiro anunciara a chegada de frei Lourenço. A prestimosa esposa não conteve a voz alta.
- Meu Deus, como será que Abelardo vai recebê-lo? Será que fiz bem? Ai, meu Deus, doutor Lourenço já está subindo.
   Esquecendo a dor do nervo torturante, correu até o pequeno escritório do marido, encontrando-o com a mesma expressão enigmática com que lhe contara o sonho dos múltiplos de dois.
- Querido.
- Sim.
- Era o interfone.
- Sei.
- Querido.
  Não deu tempo. A campainha da porta soou como um alarme de incêndio.
- Visita? A essa hora?
- Calma, querido, calma, por favor. É o doutor.
- Diga.
- Lourenço.
- Mande entrar.
   Mais uma vez a bondosa senhora não conteve a voz alta.
- Homens... piiif.
- Que foi?
- Vou atender a porta.
- Está bem. Mande-o aqui, ele sabe o caminho.
   Dona Heloísa abriu a porta e recebeu o frei com o pedido de benção, recebeu o colega anestesista com o olhar de quem está sentindo muita dor e, por fim, recebeu o velho amigo com um sorriso de saudade e alegria em vê-lo.
- Só assim mesmo, não é “doutor” Lourenço?
- Me desculpe, “doutora” Heloísa.
- Ora, vamos entrando.
    Conduziu-o até o escritório do marido.
- Abel?
- Lenço?
- Temos que resolver isso.
- Tive um sonho.
- Meus pecados, meu Deus. Não quero ir pro inferno.
- O “seu” inferno será melhor do que o meu.
- Não diga isso.
- Digo.
- Besteira.
- Frei Lourenço.
- Doutor Abelardo.
- As almas que você salvou, estarão junto do Pai rezando por você, pedindo por você.
- Você não sabe o que diz.
- O teu pecado é não defender a tua inocência.
- Abel, por favor.
- Tive um sonho, Lenço.
- Sim.
- Não sei te dizer o que significa, mas a tua visita acaba de elucidá-lo.
Dona Heloísa não conteve a curiosidade.
- O quê, querido?
- É isso, Heloísa, é isso.
- Posso saber do que se trata.
- Claro, Lenço, claro. Devemos enfrentar essa situação. Devemos lutar.
   Doutor Lourenço e dona Heloísa continuavam sem entender.
- Querem nos atingir. Não querem.
- Quem, Abel?
- Quem nos acusa. Porrrra.
- Calma, querido.
- Calma nada, chega de ter calma, querem nos atingir, pois terão que nos ferir a céu aberto, terão que vir a campo, terão que se identificar.
- Do que você está falando, Abel?
- Estou falando de Nazira, estou falando do que nos acusam.
- Safira?
- Nazira!!! Porrrrrrraa. Chega de bom-mocismo.

                                                       *

                                                                                                28º Capítulo

   Serôdio, conquanto cediço, que a ovelha ronhosa capaz de contaminar todo o redil se encontra em toda parte e sempre.
- Não entendi, Abel.
- Lenço, aquele juiz...
- Doutor Nabor.
- Vive nos acusando, sem provas, SEM PROVAS, Abel, como um juiz, UM JUIZ... pode acusar sem provas? Isso ninguém vê? Ninguém leva em consideração? Essa imprensa de merda...
- Querido, modos. Desculpe meu marido, frei.
- Heloísa, somos médicos, passamos a vida pegando em merda.
   Dona Heloísa entendeu que era hora de preparar o café. Levantou-se com dificuldade, abriu o majestoso sorriso que a todos encanta e fez um pequeno gesto com os olhos, levando frei Lourenço a recordar e a pronunciar contrito o lema do seminário.
- Afflictis lentae, celeres gaudentibus horae.
- Que porra é essa?
- As horas passam devagar para os tristes e depressa para os alegres.
- Quero lutar, Abel, LUTAR.
- Está bem. Luto com você. O que podemos fazer?
- Primeiro, processar esse merda por calúnia, injúria, sei lá. VAMOS ENFRENTÁ-LO nos tribunais. Esse juiz precisa parar de nos incomodar. Você tem o laudo, a causa mortis, vamos exumar Nazira e provar que o juiz a matou.
- Que é isso, Abel?
- Eu disse pra mãe dele que a esposa era cataléptica. E SUSTENTO.
- Abel, Safira morreu de choque anafilático, lembra?
- Ela foi enterrada viva.
- Você se esquece do laudo.
- Forjado, Abel. Por que a polícia continua investigando? Você sabe?
- Ora, o choque poderia ter sido evitado. Não é?
- Deixe de ser bobo, Abel. A exumação vai acabar com a farsa.
- Catalepsia? Lenço, faça-me o favor. Você nunca me disse.
- Claro que disse, você estava tão transtornado na ocasião. E todas as vezes que eu quis tratar desse assunto depois você evitou. Preste atenção: Fiz questão de examinar a mulher. Você se lembra, a cirurgia foi dificílima. Ela teve o olho vazado por uma limalha, ocasionando cortes e queimaduras em toda a retina, tive que extrai-lo milímetro por milímetro. Pois bem, fui examiná-la depois da “morte”, Nazira respirava. RES-PI-RA-VA.
- Não se exalte.
- Não estou exaltado, Lenço. Entenda. Cansei de ser bom moço. Cansei dessa merda, eu tenho que ser ouvido. ENTENDEU? Estou com oitenta anos e não me resta muito tempo, não é por mim, tenho a consciência tranqüila, tenho O ESPÍRITO TRANQÜILO. Quero acabar com essa farsa, Lenço. Quero acabar com todas as farsas que nos pregam. Basta. Esses nossos detratores têm que parar de nos incomodar, eles ganham com isso, você entende? Pra eles é um negócio, nos acusam, nos atormentam, ganham notoriedade e sei lá mais o quê. Por que não nos processam? Você sabe? Porque eles sabem que não têm razão. Sabem que estão errados, só querem nos prejudicar. O Nabor e sua turminha de parasitas. E aqueles filhos da puta do Mendonça et caterva.
- Mendonça?
- É aquele politiquinho de merda. Ele que organiza essa corja de vagabundos que vem gritar em nossas janelas.
- Abel, eu não estou te reconhecendo.
- Você vive no mundo da lua. Eu tentei, Lenço, tentei falar com você, mas você sempre com pé atrás, preferindo assumir a responsabilidade pelos crimes de que me acusam. Essa sua “bondade”, Abel, vai lhe colocar no inferno.
- Deus me livre e guarde.
- Seja bom, Abel. BOM. A bondade corta, a bondade extirpa, a bondade fere, você não estudou isso? Ora que saco, eu ensinando essas coisas a um frei.
- Está bem, o que tem o Mendonça?
- Você se lembra daquele investigador, homem sério, o Jacutinga? Ele me contou que andou investigando o Mendonça, que é um pau mandado, e que esse bosta pertence a uma organização, que persegue quem colaborou com os militares.
- O que?
- O governo militar, Abel. Quem colaborou, concordando ou não com os militares, essa organização persegue, eles têm uma lista. Contou-me o Jacutinga que eles intimidam, fazem chantagem, tentam desmoralizar, tentam levar à penúria, tentam destruir, todas as pessoas que de alguma forma colaboraram. Trata-se de um grupo especializado em destruir reputações, para criar um ambiente social de repúdio, de ódio a tudo que diga respeito ao governo militar.

                        *

                                                                                               29º Capítulo


   O homem é um animal que vive falando do próximo, porque não tem coragem de falar de si próprio. Mas, lembrai-vos, montículos de pó e de água (porque assim fostes feitos) e de urina e de estrume (e assim vos tornastes), que havereis de dar conta de vós, só por só de vós, na tarde extrema do desterro, na hora sagrada do Juízo.
- Doutores, o café está posto. Vamos até a sala. Vamos frei, vamos querido. – Dona Heloísa percebeu o clima de estranhamento no olhar dos médicos e o pesado silêncio, semelhante ao silêncio entre desconhecidos submetidos ao convívio duma longa viagem.
   Doutor Abelardo deu à esposa a bengala e levantou-se apoiado no braço da cadeira, seguiu lento e claudicante até o banheiro.
- Heloísa, ele não está bem.
- Está.
- Perdoe-me, Heloísa, mas o Abel acabou de me dizer, com toda convicção, que uma paciente nossa sofria de catalepsia...
- E foi enterrada viva? Ele diz isso há tempo.
- Heloísa, você também é médica e sabe muito bem...
- Eu sei do caso, frei. Abelardo jura, desculpe, garante. Ele diz que examinou a paciente dada como morta e sentiu que ela respirava, tomou precauções, pediu procedimentos, procurou avisar a família, portanto...
- Respirava, ora, Heloísa, isso já é estranho. A respiração na catalepsia...
- Doutor Lourenço, o senhor sabe tão bem quanto nós, que o Abelardo tem sensibilidade e percepção médicas fora do comum. Mas, por favor, deixe de se preocupar com isso, pelo que sei a polícia continua investigando esse caso, por determinação do viúvo, que é juiz, e até agora, infelizmente, não deu muita atenção para a hipótese do Abelardo.
- Ele falou para a polícia que dona Safira foi enterrada viva?
- Claro.
- Melhor assim.
- Também acho. Vamos nos sentar?
- E sobre o governo militar?
- Este é um aborrecimento de fato. Abelardo prestou alguns serviços na época, cuidou de alguns presos, fez amputações em dois ou três diabéticos ou trombosados, a mãe de um deles sempre nos mandava uma cesta no Natal. Que ironia. Que ingratidão. Assim que os comunistas voltaram ao poder, passaram a nos perseguir, a nos ameaçar, a nos intimidar, mas o Abelardo, você sabe, não... espere, falamos depois. Sente-se, querido, o café está esfriando.
- Eu não estou surdo, Heloísa. E não quero ser poupado de opiniões divergentes, nem de assuntos desagradáveis. Aliás, o Lenço também está sendo perseguido, ameaçado e intimado pela mesma canalha. Aqueles moleques acham que podem pressioná-lo a colaborar com eles e obrigá-lo a delatar meus crimes. Ah, ah. Ah, ah. Demorei para entender o mecanismo. Agora sei que posso extirpá-los como se extirpa um simples abscesso. Eu já disse a vocês que conto com o auxílio de um policial detetive, o Jacutinga. Ele já descobriu que o mentor das ameaças é um tal Mendonça, um onagro dos velhos tempos, mas o Jacutinga sumiu, ninguém na delegacia quer me dizer onde ele anda.
- Querido, ele foi seqüestrado. Ele estava com Roberto no cemitério...
- O Azul?
- É. Levou uma pancada na cabeça, ficou alguns dias internado, mas, agora, graças a Deus, está bem, está descansando em casa.
- O Jacutinga foi seqüestrado?
- Foi, querido. Você não ouviu o Roberto contar?
- Roberto não diz coisa com coisa, Heloísa. E essa agora? E o delegado que não me atende?
- Abel, se você me permitir, eu posso passar na delegacia.
- Nada disso. Dessa tarefa cuido eu. Heloísa, você contou ao Abel o meu sonho?
- Sonho? Que sonho?
- Um pesadelo terrível e revelador. Com dona Faustininha, minha professora de matemática do curso primário.
- Dona Terezinha, querido. Professora do ginásio. O café está esfriando.
- Apareceu-me nitidamente tomando a tabuada, com a mesma vara que sempre usava para esfacelar a orelha de quem errasse, eu estava sobre uma rede de pesca e os peixes feriam minhas pernas, numa sala sem portas e sem janelas, onde subia uma fumaça cinza que se solidificava em claridade. Sabem o que significa? Não? Eu sei. Significa que a ordem jamais abandona o homem. Significa também que aquele que reconhece a ordem tem o dever, a obrigação de conservá-la. Para continuar respirando e enxergando, ainda que lhe custe a metade da orelha. Ah, ah. Ah, ah. – Riram todos e o café, paciência!, esfriou.

*

                                                                                                30º Capítulo

   Anfractuoso, o delegado Farofa sabe a esturra ou regouga, consoante a ocasião. Neste instante, o experimentado policial está a pôr em prática a ideiazinha que se lhe avultou no capítulo 22, acicatando o agente de serviços externos e operador de máquina reprográfica de uma modesta imobiliária, localizada nas cercanias da Serra do Mar, com quem a investigadora Mirtes travou inaudito e improvável diálogo telefônico, que, na incapacidade de reproduzi-lo fielmente, o narrador, falto de imaginação e de sobeja liberalidade, aventurou-se na mera contrafação de castiça tradução espanhola do dueto de amor de Brunilda e Sigfrido, da monumental ópera de Richard Wagner, que o circunspecto leitor e a condescendente leitora, amantes da boa música e da grande arte, já devem ter relevado.
- Me chama o Walter.
- Quem? – indagou a jovem recepcionista balançando a oca cabecinha, não se sabe se em sinal de censura ou se em razão de acompanhar o movimento de lixar as unhas.
- Walter?
- An an. – A cabecinha, agora, balançava para reforçar a negativa.
- Não tem um Val aí?
- Val? Não. Ah, o val... – outro balanço, desta vez de satisfação.
- É.
- Valsa. Sonho de valsa. Ei, val, chega mais... – a cabecinha lá e cá.
- Fala, chefia.
- Boa tarde. Você conhece a moreninha do cabelo periquito.
- Conheço nada, chefia.
- Eu não fiz uma pergunta. Eu afirmei. Você conhece.
- Sim, senhor. Ela é minha mina, as veiz.
- Sabe onde ela está?
- Não. Ela desinfeta as veiz.
- Embaixo da terra. Despedaçada.
- Sujô.
- Sabe quem fez.
- O senhor não pergunta, né? Pode tê sido mais de um.
- Desembucha.
    Sonho de valsa começou por explicar a operação que está em todos os jornais. Primeiro, o chefe liga da prisão de segurança máxima e dá as ordens etc., etc. O delegado Farofa não tem muita paciência com explicações, ele quer apenas fatos e sabe os meios de obtê-los.
Falar com os chefes do crime organizado hoje em dia é tão mais difícil do que ter uma audiência com o governador em pessoa, mesmo para um veterano e tarimbado delegado de polícia. Mas, como se trata do desaparecimento do Jacutinga, investigador respeitado e querido pela corporação, até mesmo entre os mais acerbos carcereiros, a entrevista com o chefão do crime logo aconteceu.
    O delegado soube que o serviço não foi feito no interesse do crime, mas por encomenda. Troca de favores, melhor dizendo.
   Como o próprio Jacutinga já havia informado ao doutor Abelardo, ele andava investigando, por sua conta e risco, o grupelho liderado pelo semeador de cardos e espinhos, Mendonção, o vermelho. E estava próximo de provar que as falsas denúncias contra o grande cirurgião partiam dali, com o firme propósito de “justiçar” - esta uma palavra ao gosto da corja - o venerando médico, pelos parcos serviços de antanho prestados ao governo militar.
   Reunidas todas essas informações e tendo deduzido que, para não levantar suspeitas, o seqüestrado jamais estaria em poder daqueles que encomendaram o seqüestro, mas permanecia cativo dos seqüestradores, o atilado policial, mascando uma dose inusual de analségicos, saiu em diligência, como nos velhos tempos, com trabuco e algemas na cinta, seguido de nove viaturas da PM, conscientes de que, quando se trata de resgatar um policial, todas as diferenças podem e devem ser deixadas de lado.
   Partiram rumo aos brejos, aos charcos e às charnecas, ao encalço dos antros, dos covis, das lapas e dos valhacoutos.
   Tiroteio não houve, porque não havia resistência no cativeiro, que era apenas vigiado por uma velha drogada e sonolenta e por uma moça desdentada, provavelmente aidética, devido ao marrom esmaecido da pele e aos ralos cabelos carcomidos.
   Assim que adentraram na pocilga, os policiais tiveram a certeza de que também não haveria perigo de fuga, porque o seqüestrado jazia inerme, febril, apresentando escrófulas, porquanto fora abandonado manietado a um tronco, amordaçado e vendado, sem alimentos e água. A ordem era matá-lo, mas não se sabia, ainda, de que modo. O delegado não conteve as lágrimas.
- Jacutinga, meu irmão, você está salvo!

*

                                                                                                31º Capítulo


   O jornalismo brasileiro não teme a verdade, porque a despreza de todas as maneiras. De nada adiantou todo o cuidadoso sigilo. De nada adiantou o delegado Farofa e o capitão da PM serem os únicos a saber da operação de resgate. De nada adiantou terem encontrado o Jacutinga em estado irreconhecível. De nada adiantou o cordão de isolamento. De nada adiantou.
   Quase em tempo real a internet e o rádio anunciavam a ação da polícia, horas depois já se sabia de todo o movimento e no dia seguinte os jornais estamparam: POLÍCIA ESTOURA CATIVEIRO E SALVA INVESTIGADOR DESAPARECIDO.
   Foi preciso uma rápida mudança de planos, tirar o quanto antes o moribundo do hospital e levá-lo para um local seguro e absolutamente sigiloso, quase um novo cativeiro. Nisto o doutor Abelardo, que só ficou sabendo do resgate graças ao noticiário, o que comprova que nem sempre o uso de um poder serve apenas a que se destina, foi de extrema  Forte como um tiro de canhão, potente como um trovão, volumoso como um coro de mil vozes, o berro da matriarca fez tilintar os cristais e estremecer os espelhos na mansão dos Ofegante.
   OsDentesdeBerenice-Cap.31Atendera ao telefone e assim que recuperasse o ar nos pulmões poderia contar que tivera a impressão de ouvir, tivera a impressão, não, ouvira nitidamente a voz da querida nora Nazira, ou seria Safira?, a nunca o suficientemente pranteada libanesa dos lábios de mel e das olheiras abissais. Ouvira a voz, e também o sotaque e o modo peculiaríssimo de falar.
- Don a Francis quinh a, oi, o Na bo r, p or fa v or.
   Quem acorreu a lhe socorrer pouco pôde fazer para ajudá-la a recuperar a razão. Apenas pôde confortá-la, ao dar sinais de acreditar em suas palavras, já que não havia mais ninguém do outro lado da linha e o aparelho emitia o intermitente sinal de ocupado. O visor do bina indicava: privado. Para quê serve um identificador se este é passível de ser evitado ou ludibriado ou burlado? Para quê servem certas garantias se nada garantem? Para quê?
    O juiz veio o mais rápido que pôde. Inteirado do assunto e partido com o conteúdo, não hesitou em desafiar a temível mãezinha, após a velha ladainha: “Tirem-me desta casa de loucos etc., etc.”.
- Agora a senhora acredita em mim, não é mamãe?
- Não me dirija a palavra neste tom. Naborzinho.
- Mamãe, a senhora ouviu ou não ouviu a voz da minha doce esposa?
- És viúvo, Nabor.
- Viúvo de quem manda mensagem?
- Cala-te.
- Viúvo de quem fala ao telefone?
- Cala-te.
- Mamãe.
- Não vês que estão a mangar de nós, seu cobarde.
- Mamãe, olhe os vizinhos.
- É patranha, timorato.
- Mamãe.
- Caraminhola, moca, patarata. Seu... seu... cagão.
   E neste pé prosseguiria o diálogo, não fosse um novo berro, este sim, de estilhaçar os cristais e trincar os espelhos, seguido de autêntico desmaio. A senhora acabara de ver, na janela, às costas do filho, a aparição?, o espectro?, a avantesma?, a assombração?, não se sabe, não se sabe, digamos a imagem da falecida nora.
   Outro grito também se ouviu pouco antes, pouco depois, desta vez no DP, grito de raiva, não de pavor, grito de homem, grito de delegado de plantão, que acabara de abrir o maço de Hollywood, deixado sorrateiramente sobre sua escrivaninha, e dele escorregar vagaroso, viscosamente um olho.
   O delegado Farofa saiu de sua sala e desceu até o salão principal, cansado daquele cotidiano, prevendo a mesma conversa de sempre com o delegado de plantão, teve duas surpresas.
A primeira, na sala de espera, prestes a se anunciar, o colega Nestor.
A segunda, no fundo do maço de cigarros, entre o invólucro com as pontas laminadas e a embalagem havia uma pequena tira de papel, igual a tira de papel de um biscoito chinês, toda perfurada.
- Finalmente, o criminoso resolveu se comunicar.
- Que merda é essa, doutor?
- Uma mensagem. Não está vendo?
- Uma mensagem? Esses buraquinhos?
- Isso é braile, porra! Mande traduzir. Nestor, meu amigo, o que o traz?
- Soube do Jacutinga, não faça essa cara, todo mundo já sabe, preciso vê-lo, ele tem a peça que falta pra fechar: Resolvemos o crime da menina envenenada.

                        *
                                                                                                32º Capítulo

    Malgrado virem ao mundo em berço de ouro, os rebentos da mais alta esfera paulistana não estão imunes às excrescências e protuberâncias que a natureza prodigamente distribui aos seus congêneres e tampouco de jazer sujeitos aos apelos irresistíveis do vício malsão que deforma e deteriora narinas. Para debelar tais mazelas mantêm a peso de platina sigilosas clínicas em ermas regiões, precipuamente afastadas do burburinho geral e do bulício entre pares, para louvarem-se de refinadas artes e preciosas técnicas de profissionais de renomada capacidade e sigilosíssima fidúcia, contratados a peso de diamantes. Precisamente numa delas, incrustada nas bouças da Mantiqueira, onde a abóbada celeste é sempre clara, o húmus sempre tépido e o arvoredo ordenado em encantadores vergéis, que o muito afamado doutor Abelardo, escondeu o diligente investigador, Jacutinga das Mercês.
- O quê o senhor está esperando para colocar esse tal Mendonção na cadeia, delegado?
- Tudo a seu tempo, doutor Abelardo.
- O senhor já não tem provas suficientes?
- Preciso do Jacutinga, doutor.
- Ele está bastante debilitado, por esses dias estará inconsciente, o senhor tem os seus segredos, eu tenho os meus. Já vai?
   O delegado acabara de estender a mão e pousa-la sobre a mão do cirurgião, num gesto que poderia ser compreendido como de despedida, mas, também, como selo de amizade, ou, simplesmente, de largo agradecimento. Ou, ainda, o que de fato veio a significar, que aqueles homens, finalmente, começavam a se entender.
- Só mais uma coisa, doutor Abelardo. Não preciso lhe dizer que.
- O senhor não tem obrigação de acreditar em mim, eu sei.
- Minha obrigação é não acreditar em ninguém.
- Não se acanhe, delegado, eu já estou avisado, aliás, foi o próprio   Jacutinga quem me avisou. É comum que suspeitos influentes, fingindo inocência, contratem policiais que os estejam investigando, para acompanharem os passos da investigação.
- O senhor me leva até a porta?
- Claro, por favor, por aqui. Delegado, desculpe, não pude deixar de reparar, é um tique profissional, o seu modo de caminhar o denuncia. O senhor tem incômodas bochechas retais, não tem? Pretende extirpá-las?
- Não.
- Faz muito bem, costumam reaparecer.
- Porisso o senhor conserva as suas?
- Não, delegado. Meu modo de andar se deve à artrose.
- Desculpe, doutor. Acho que jamais concluiria observando o seu modo de andar. Meu tique profissional é de outra natureza. Reparei na forma abaulada semicircular da almofada em sua poltrona, idêntica a de uma pequena bóia.
   O grande cirurgião tocou a mão do competente delegado, num gesto que só poderia ser compreendido como o de que, finalmente, aqueles homens acabaram por se entender.
   No bunker, na outrora hospitaleira São Bernardo do Campo. O mequetrefe, bangalafumenga, borra-botas seu Porra roia as unhas, a senhora esgrouviada mordia a língua e sugava freneticamente a saliva e o homem gelatinoso comprimia o estômago com os antebraços.
- Ai, ai.
- Cala a boca, Bilu.
- O Donça vai comer a gente vivo.
- Vivo? Ceis não conhecem o Donção.
- Cala a boca, Bilu.
- Perdemo o rastro, ué.
- Cala a boca, seu Porra.
- Ele tá certo, Bilu. Então a gente não pode errar?
- O Donção, não admite, porra. Pra isso a gente é pago.
- Somo ou não somos cumpanheiro?
- Vai, Ma, cê fica muito bunitinha falano errado.
- Cê num fala ansim queu sei.
- Cala a boca, porra. Ouviu o barulho? o Donção chegou. Fala, chefe.
- De quem foi a cagada?
- Perdemo o rastro. O Jacutinga evaporô, chefe.
- Não quero saber. Acha esse cara, acha esse cara. A operação toda está em risco, tão entendendo? Aquele delegado, o Farinha, é foda. Ele não descansa.
- Igual alguém que eu conheço.
- Bilu, puxar o saco agora só piora. Quero resultado. Ação. Entendido?
Homens derruem! Mulheres deságuam!
   Trompaço com o cotovelo esquerdo no queixo do delegado Farofa e coice com o calcanhar direito no joelho do delegado Nestor, dois saltos ornamentais e uma fuga espetacular, a mulher de peruca loira só se esqueceu de recuperar a bolsa, que mais tarde se verificou não continha nada de importante, nem nada que a identificasse.
- Está vendo meus óculos?
- Espatifados.
   Populares logo acorreram a acudir os delegados. No Pronto Socorro, continuaram com o diálogo.
- Que porrada, hein.
- Amadores, né?
- Desculpe, Nestor.
- Guerrilheiros. Farofa.
- Lá vem você com esse papo de novo.
- Estou te falando. Conheço essa gente.
- É muito cedo pra tirar alguma conclusão.
- Sangue frio. Destemida. Treinada em artes marciais.
- Mas daí a ser terrorista.
- Eu desconfiava e te avisei que o seqüestro do Jacutinga tinha propósito político. Você estava sendo seguido porque eles acham que sabem onde ele está.
- O Jacutinga foi seqüestrado por marginais, Nestor.
- O que é que impede que os marginais estejam a serviço dos terroristas.
- A ausência deles.
- A “ausência”, Farofa, comprova a presença. Essa gente é assim.
- Cuidado com a sua imaginação, Nestor.
- Não é imaginação. É estudo. Tenho lido a respeito.
- Então diga por que seqüestraram o Jacutinga?
- Porque ele estava prestes a descobrir a conexão. Ou a descobriu, não sei.
- Que conexão?
- Que pretende incriminar o doutor Abelardo.
- Ora essa.
- Você sabe que essa gente é vingativa. Vão fazer de tudo pra destruí-lo.
- A troco de quê? Se daqui a pouco ele morre.
- Por isso mesmo. A ordem é desmoralizá-lo antes que ele morra.
- Espera, espera. Tenho confiado em você, Nestor. Você me disse que o caso da menina envenenada estava solucionado.
- Não. Eu disse que o Jacutinga tem a peça que falta pra fechar o caso. Porisso ele foi seqüestrado, eu acho.
- Você me pediu para ter uma conversa com a toxicologista, por quê?
- Era só uma curiosidade.
- Está na hora de abrir o jogo, Nestor.
- Ok. Encontrei uma substância no forro da casa de Caraguatatuba, onde o garoto foi esfriar a cabeça.
- Você encontrou veneno com o noivo da menina?
- Não é veneno. É uma droga paralisante. E estava muito bem mocozada.
- Droga paralisante? Que quase matou dona Ivete Praxíteles Levedura da Rocha?
- Não. Ah, ah. Eu não te contei. Dona Ivetona teve uma intoxicação com protetor solar. Nada demais.
- Por que você não apertou o garoto?
- Dei um copo com água pro garoto beber. Ele bebeu. Depois, mostrei o vidro que encontrei com a substância vazio e disse que tinha colocado no copo. O garoto não se alterou.
- Sei.
- Mas o primo do pai, o doutor Sampaio, o dono da casa deve ter alguma explicação.
- Por que você não apertou o Sampaio?
- Porque ainda é cedo. Não sei se a menina envenenada tomou a droga que eu encontrei, preciso checar com a doutora Pérola. Também não sei se o doutor Sampaio esteve na Santa Casa. Já me informei, não há registro. Mas o garoto passou por lá sem ser registrado, não foi? Só o Jacutinga pode nos esclarecer.
- Está bem, Nestor. Vamos atrás da doutora Pérola.
Neste instante, na mansão dos Ofegante, nem bem se recompunha dos sustos e assombros que as impressões da voz e da imagem da queridíssima nora lhe causaram, a matriarca tomada da mais veraz das realidades, escabujava aos prantos, no solo. À sua frente, em carne e osso e olho de vidro, a linda libanesa dos lábios de mel e das olheiras abissais, Nazira, ou seria Safira?

*

  33º Capítulo

- Farofinha.
- Leleco.
- Tudo legalzinho?
- Leleco.
- Desta vez o olhinho veio com mensagenzinha?
- Leleco.
   O médico legista notou as sobrancelhas recolherem-se sob os óculos eternamente engordurados e sem conseguir divisar a luz sentiu o gelo no olhar do delegado.
- Doutora Pérola?
- Farofinha. Tá me estranhando?
- Doutora Pérola?
- Não está. Perolinha é prestadora de serviços, não é nossa funcionária. Posso ajudar?
- Não.
- Porra, Farofinha. Tô te estranhando.
- Você disse ao doutor Abelardo que a vítima tinha se suicidado?
- Ah, é isso? Qual é a bronca?
- Disse ou não disse?
- Eu quis apenas acalmar o coroa.
- Conseguiu?
- Não, a hipótese de suicídio não refrescou aquela imensa vaidade.
- Como você dá uma informação confidencial não confirmada a um suspeito? Quer por em risco a investigação? Ou tem algum interesse? – O pronome indefinido soou prenhe de definição.
- Ah, sei, de novo o caso Nazira.
- Safira.
- Farofinha, quantas vezes preciso repetir? Ninguém aqui viu o corpinho da turquinha. Ele foi levado antes de abrir. Ordens superiores.
- E o laudo?
- Como você é chato. Eu já disse que não vi o laudo.
- Parada cardíaca?
- Já disse que fiquei sabendo.
- Informação confidencial não confirmada.
- Puta que pariu. De novo essa lengalenga?
- Existe o laudo?
- Farofinha?
    Tomaram o elevador em profundo silêncio. A animosidade inicial já parecia esmorecer. Doutor Leleco sorriu sem graça, acalentando a certeza de que fora induzido a levar o delegado ao encontro do diretor do departamento de laudo necroscópico, porque o velho Farofa encontrara uma maneira de quebrar o sigilo que cercava o falecimento da linda libanesa de lábios de mel e olheiras abissais. Após os cumprimentos de praxe, seguidos das usuais explicações de simples visita informal e do tradicional cafezinho, o delegado, subitamente e sem que lhe perguntassem, passou a narrar as suas últimas investigações, especialmente a da morte de mais uma paciente do doutor Abelardo, desta vez por envenenamento e, sendo assim, seria muito importante, mesmo que informalmente, que o diretor pudesse lhe adiantar algumas conclusões a que chegaram os peritos acerca da causa mortis da jovem esposa do juiz Nabor.
- Parada cardíaca, delegado.
- Isso foi ventilado, doutor. E a causa?
- Desconhecida, delegado. Espera, envenenamento não foi. Posso te garantir – completou o diretor muito solícito – E é só.
- Obrigado, doutor Brito.
- Não há de quê, delegado. Prazer em revê-lo. Passar bem. Lembranças ao nosso Jacutinga.
    O delegado deixou o IML pela porta principal, e seguiu em direção a Teodoro Sampaio, andou displicente ziguezagueando e parou para acender o cigarro, deu duas baforadas e voltou a caminhar lentamente, parou mais uma vez, procurou nos bolsos do paletó a caixinha de remédios, retirou duas pílulas de aspirina e colocou-as, uma a uma, na boca, mascando-as em seguida, andou mais quarenta metros e parou. Pegou o celular. Era o delegado Nestor, que o acompanhava a distância, desde que havia deixado o prédio do doutor Abelardo.
- Fala? Continua me seguindo? A mesma mulher? Que amadores. A que distância você está? Ok. Vamos dar o flagra.
    O delegado titular deu um giro repentino e partiu em disparada, trabuco e algemas nas mãos, o delegado Nestor apressou o passo e num gesto largo e certeiro arrancou a bolsa da mulher de óculos escuros e peruca loira momentaneamente paralisada e atônita. Deram-lhe voz de prisão.
- Polícia, dona. Mãos no pescoço.

                          *

34º Capítulo


    Homens derruem! Mulheres deságuam!
   Trompaço com o cotovelo esquerdo no queixo do delegado Farofa e coice com o calcanhar direito no joelho do delegado Nestor, dois saltos ornamentais e uma fuga espetacular, a mulher de peruca loira só se esqueceu de recuperar a bolsa, que mais tarde se verificou não continha nada de importante, nem nada que a identificasse.
- Está vendo meus óculos?
- Espatifados.
   Populares logo acorreram a acudir os delegados. No Pronto Socorro, continuaram com o diálogo.
- Que porrada, hein.
- Amadores, né?
- Desculpe, Nestor.
- Guerrilheiros. Farofa.
- Lá vem você com esse papo de novo.
- Estou te falando. Conheço essa gente.
- É muito cedo pra tirar alguma conclusão.
- Sangue frio. Destemida. Treinada em artes marciais.
- Mas daí a ser terrorista.
- Eu desconfiava e te avisei que o seqüestro do Jacutinga tinha propósito político. Você estava sendo seguido porque eles acham que sabem onde ele está.
- O Jacutinga foi seqüestrado por marginais, Nestor.
- O que é que impede que os marginais estejam a serviço dos terroristas.
- A ausência deles.
- A “ausência”, Farofa, comprova a presença. Essa gente é assim.
- Cuidado com a sua imaginação, Nestor.
- Não é imaginação. É estudo. Tenho lido a respeito.
- Então diga por que seqüestraram o Jacutinga?
- Porque ele estava prestes a descobrir a conexão. Ou a descobriu, não sei.
- Que conexão?
- Que pretende incriminar o doutor Abelardo.
- Ora essa.
- Você sabe que essa gente é vingativa. Vão fazer de tudo pra destruí-lo.
- A troco de quê? Se daqui a pouco ele morre.
- Por isso mesmo. A ordem é desmoralizá-lo antes que ele morra.
- Espera, espera. Tenho confiado em você, Nestor. Você me disse que o caso da menina envenenada estava solucionado.
- Não. Eu disse que o Jacutinga tem a peça que falta pra fechar o caso. Porisso ele foi seqüestrado, eu acho.
- Você me pediu para ter uma conversa com a toxicologista, por quê?
- Era só uma curiosidade.
- Está na hora de abrir o jogo, Nestor.
- Ok. Encontrei uma substância no forro da casa de Caraguatatuba, onde o garoto foi esfriar a cabeça.
- Você encontrou veneno com o noivo da menina?
- Não é veneno. É uma droga paralisante. E estava muito bem mocozada.
- Droga paralisante? Que quase matou dona Ivete Praxíteles Levedura da Rocha?
- Não. Ah, ah. Eu não te contei. Dona Ivetona teve uma intoxicação com protetor solar. Nada demais.
- Por que você não apertou o garoto?
- Dei um copo com água pro garoto beber. Ele bebeu. Depois, mostrei o vidro que encontrei com a substância vazio e disse que tinha colocado no copo. O garoto não se alterou.
- Sei.
- Mas o primo do pai, o doutor Sampaio, o dono da casa deve ter alguma explicação.
- Por que você não apertou o Sampaio?
- Porque ainda é cedo. Não sei se a menina envenenada tomou a droga que eu encontrei, preciso checar com a doutora Pérola. Também não sei se o doutor Sampaio esteve na Santa Casa. Já me informei, não há registro. Mas o garoto passou por lá sem ser registrado, não foi? Só o Jacutinga pode nos esclarecer.
- Está bem, Nestor. Vamos atrás da doutora Pérola.
Neste instante, na mansão dos Ofegante, nem bem se recompunha dos sustos e assombros que as impressões da voz e da imagem da queridíssima nora lhe causaram, a matriarca tomada da mais veraz das realidades, escabujava aos prantos, no solo. À sua frente, em carne e osso e olho de vidro, a linda libanesa dos lábios de mel e das olheiras abissais, Nazira, ou seria Safira?

 

                            *

35º Capítulo

   Doutor Abelardo acordara de um breve e profundo sono e permanecera recostado em sua confortável e aconchegante poltrona, sem se mover. Fechara os olhos, abertos num átimo pelo despertar, e ora descerrava as pálpebras deslizando-as tal qual a cortina no teatro de ópera sendo lentamente erguida enquanto a platéia ouve a abertura. Ainda entre cílios divisava móveis e objetos do gabinete reconhecendo-os todos como velhos conhecidos mais que a si mesmo reconhecia.
   Pusera-se a pensar.
   Deus tem sido bom com ele. Muito bom. Seus sofrimentos se contavam nos dedos, todos vencidos e superados, exceto a saudade causada pela morte dos pais, dos avós maternos, da irmã e de dois amigos queridos. Dos demais mortos, inclusive pacientes, e foram tantos, não restara propriamente saudade, mas uma ausência indefinida, mais propriamente uma lembrança, quase sempre evocada e raramente involuntária.
   Das dores na carne tinha sido um homem de sorte. Um ou outro arranhão, uma extração dentária, um torcicolo. Um homem de sorte? Não. Deus tem sido muito bom comigo. Deus me livre do ciático da Heloísa!
Detivera o olhar, embaçado por uma mínima lágrima, fruto natural do despertar, numa pequena imagem de Nossa Senhora Aparecida, colocada por dona Heloísa no alto da estante, quase invisível, quase imperceptível, quase esquecida, não fosse a lembrança da mulher, vez em nunca, a Ela dirigir o sinal da cruz. Fez mentalmente o sinal da cruz.
    A Cruz.
   Dois mil anos de história cristã. Toda a literatura cristã. Cada missa, cada dia, nos quatro cantos do mundo, a nos lembrar da Cruz. E ainda assim precisamos nos lembrar da Cruz. Do sofrimento de Cristo na terra, e do sofrimento de Cristo no Céu, porque inda agora Cristo sofre. E não deixará de sofrer jamais até que o mundo acabe. E com Ele, com Deus morto e ressuscitado sofre a Mãe, pelos nossos males infligidos. Os homens sofrem porque são ignorantes. Por que Deus fez os homens ignorantes?
    Não, Deus não nos fez ignorantes e a prova está em você que é inteligente, ou não é?, que é capaz de conhecer a realidade, que é capaz de distinguir o verdadeiro do falso, que é capaz de saber, e caso não acredite você na sua inteligência, na sua capacidade de saber e aprender, olhe para a Cruz. Olhe para a Cruz, e veja pregado o Verbo Divino, a pura Inteligência, encarnada no homem e considere que um ser ignorante, essencialmente ignorante, não poderia encarnar a Sabedoria de Deus. Agora olhe para a Virgem, e veja a Mãe, derramando lágrimas, as mais dolorosas lágrimas já vertidas na terra, pelo sofrimento do crucificado, que implora o perdão aos que não sabem o que fazem, e chora a Virgem pelos crucificadores, chora a Virgem pela morte do Filho Inocente, chora a Virgem por aqueles, nós todos, que deveríamos saber o que fazemos; que deveríamos fazer o que sabemos; que deveríamos saber. Pobre Mãe.
Do alto da estante, a Virgem Nossa Senhora Aparecida olha para o pobre homem recostado confortavelmente em sua poltrona, nenhuma dor o aflige, nenhum pensamento o incomoda, Deus tem sido misericordioso para com ele. Misericórdia, eis o sentido: o coração lastimoso causado pela miséria de outrem. Haverá de ser assim até o último palpitar?
- Deus queira que não!
   Os olhos instantaneamente correram as estantes. Uma ordem, um movimento foi dado aos músculos, mas o doutor Abelardo permaneceu imóvel. Os olhos ávidos. O cérebro preencheu-se com a frase bíblica, a palavra de Deus: “Aquele que quiser salvar a sua vida a perderá.” Finalmente fazia sentido. Finalmente encontrara o significado. O halo da inteligência voltou aos seus olhos, instantaneamente miúdos, instantaneamente brilhantes.
   De repente, em meio a diplomas, troféus, lauréis, galardões, placas, medalhas, prêmios, homenagens, encômios e gratidões estampados, em meio às conquistas de uma vida inteira, em meio ao fruto do trabalho generosamente recompensado, em meio ao conforto e a opulência um homem despido se levantara. Em espírito, porquanto o corpo permanecia inerte, refreada a ordem dada aos músculos, os olhos em repouso e o cérebro latejando a conta de um único, de um simples espinho, vindo da mesma fonte do repouso: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade.” A vaidade desde o mais humilde mendigo com seu saco e seu cachorrinho, até o renomado mestre, verdadeiramente sábio, com seus óculos e seus livros. A vida irrealizada e irrealizável, vazia e esvaziada, em sua própria e exclusiva dimensão natural, humana, mortal.
   Era preciso levantar, deixar o conforto, abandonar a paz, desprezar a tranqüilidade, a “felicidade”, o “dever cumprido” e ir ao encontro da Verdade que antecedia Aquela a respeito de perder a vida: “Aquele que não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim.”
Os olhos do doutor Abelardo perscrutavam o denso infinito posto em seu gabinete à procura da cruz, da cruz que Deus lhe reservou para a salvação da sua alma. E a avistou.

                            *

36º Capítulo

     - Quid est hoc?

     - Dendrobatidae, doutor Farofa, têm a particularidade de produzirem toxinas potentes que se encontram na sua pele. Mais de cem toxinas foram identificadas nas secreções cutâneas de membros deste grupo, especialmente no género Dendrobates e Phyllobates. Os membros deste último gênero produzem uma neurotoxina potente denominada batracotoxina. Apenas 40 microgramas desta substância podem ser fatais.

     - Sei.

     - Para o senhor ter uma idéia, algumas das espécies adquirem a capacidade de produção de toxinas em parte devido a fatores alimentares, nomeadamente devido à ingestão de formigas. Estas formigas, por sua vez, alimentam-se de espécies de plantas com propriedade tóxicas...

     A doutora Pérola, percebendo a impaciência do delegado interrompeu a exposição e foi direto ao ponto.

     - A espécie com a toxina mais venenosa é a Phyllobates terribilis, que encontramos diluida, em delicada e difícil operação homeopática, numa pomada de puro espermacete.

     - O que é isso?

     - Espermacete, doutor Farofa, do latim sperma, semente, e cetus, baleia, é uma substância cerosa de cor clara produzida pelos cachalotes num órgão denominado "órgão do espermacete" ou "melão", localizado na cabeça, à frente do espiráculo. O espermacete tem sido utilizado para vários fins, entre os quais, na medicina, a confecção de pensos encerados e de unguentos, e na feitura de preparações cosméticas, tais como cremes e pomadas.

     - A vítima usou do veneno para se embonecar?

     - Não sei dizer, doutor. Encontramos vestígios da droga na palma da mão esquerda da vítima. Posso lhe afirmar, com segurança, que foi apenas a droga que matou a menina. Não há qualquer relação da droga com o anestésico cirúrgico, como era a nossa primeira suspeita. A droga, diluida como estava, produziu um efeito retardado. Se foi a própria vítima quem se envenenou não nos compete dizer.

     - Sei. E o anestésico que o Nestor encontrou com o noivo da menina?

     - Uma espécie simples de curare. Estamos realizando exames para verificar o composto, mas podemos lhe adiantar que os principais elementos químicos do curare são alcalóides que afetam a transmissão neuromuscular. Não causam a morte nem deixam seqüelas.

     - Ouvi dizer  que a injeção letal...

     - A injeção letal é composta de três substâncias químicas, ministradas separadamente, em seringas distintas: tiopentato de sódio, numa quantidade que induz o coma, bromuro de pancurônio, que paralisa o diafragma e os pulmões, e cloreto de potássio que pára o coração. Não é o que o seu colega encontrou.

     - Então a doutora pode confirmar que o paralisante poderia ser ingerido sem perigo de vida?

       - Entre os muitos alcalóides presentes no curare, a mais comum são a curarina e a tubocurarina. Estas drogas são empregadas como relaxantes musculares de músculos esqueléticos durante cirurgias para controlar convulsões. A morte por curare é causada por asfixia, uma vez que os músculos esqueléticos ficam relaxados e então paralisados. Contudo, o veneno somente funciona no sangue, o envenenamento de animais não causa efeitos nocivos, caso fosse ingerido oralmente. Em 1811, Benjamin Brodie notou que durante o envenenamento de curare o coração continuava a bater, mesmo quando a respiração cessava, o que significava que a função cardíaca não era bloqueada pelo curare. Com respiração artificial a vítima se recupera sem lesões.

     - Continue com o seu trabalho doutora, até aqui muito valioso.

     - É uma imensa satisfação poder ajudá-lo doutor Farofa.

     Assim que o delegado entrou no DP, reparou haver um clima de curiosidade ou ansiedade geral. Todos o olhavam, como que pedindo uma resposta, uma explicação. Tarimbado, não fez perguntas e se dirigiu à sua sala, numa atitude de mera rotina. Logo, o delegado de plantão, afoito, entrou sem bater, também não esperou que o chefe alçasse as sobrancelhas sobre os óculos, que já não apresentavam o eterno engorduramento e foi logo comunicando o assunto que agitava a delegacia.

     - Doutor Farofa, finalmente recebi a tradução da mensagem em Braille, que continha a tira de papel, encontrada no maço de Hollywood.

     O delegado de plantão entregou ao doutor Farofa uma folha de papel reciclado, com o timbre do governo do Estado, Secretaria de Segurança Pública, Departamento de Criptografia, com uma análise das condições da tira de papel e a seguinte tradução: 5491514.512.31411141314..83..155.156.

     - Uma decepção, doutor.

     - Sei.

                            *

37º Capítulo

     O sol surge sanguinariamente sobre a colina arborizada. O dia empalidece com tão mórbida aparição. O vento sul toca trombeta a serviço dos propósitos do sol e, com um surdo sussurro nas folhas, anuncia uma tempestade e um dia tempestuoso, como numa peça de Shakespeare.

     - O senhor fez como combinamos, doutor Abelardo?

     - Fiz.

     - Então o senhor foi seguido?

     - Fui. Parece um homem, disfarçado de mulher. De peruca loira e óculos escuros.

     - Muito bem. O senhor faz que sai, e deixa o resto comigo.

     - Tome cuidado, Jacutinga. Você ainda não está em condições.

     Doutor Abelardo fez sinal com a bengala para o motorista, que correu para trazer o carro até a soleira da entrada principal da clínica incrustada nas bouças da Mantiqueira e embarcar o patrão.

     O velho cirurgião tomou o veículo e ordenou ao motorista que seguisse devagar, para continuarem sendo observados.

     Ninguém. Nenhum movimento.

     Na sala do delegado titular, a investigadora Mirtes esperou pela saída do delegado de plantão para contar ao chefe que o motivo do alvoroço no DP era outro. Doutor Farofa ouvia a estonteante notícia da reaparição da linda libanesa de olheiras abissais, enquanto, valendo-se de sua prodigiosa memória para números e da habitual inteligência investigativa e decifradora, relacionava os números da mensagem com a ordem das letras no alfabeto: 5-E, 4-D, 9-I, 1-A, 5- E, 1- A, 4-D. Ponto. E DIA E AD. EAB. Não deve ser. 5-E, 4-D, 9-I, 15 – P, 14- O. É isso. EDIPO. EM. COLONO. HC. PE. PF. É isso.

     - Édipo. O cego.

     - O que foi doutor?

     - Nada.

     - Então, como eu estava dizendo, foi a morta quem telefonou, querendo falar com o senhor. A doutora Sofia, que atendeu, ouviu gritos e gemidos no fundo, e perguntou o que era, ela disse minha sogra, porque meu marido está desmaiado, o juiz, parece...

     - O caso não é nosso.

     - Eu sei, doutor, mas ela insiste em falar com o senhor.

     - Mande alguém na livraria comprar Édipo em Colono.

     - O que, doutor?

     - A tragédia de Sófocles.

     - Tá bom. O doutor não vai retornar a ligação? Tá todo mundo morrendo de curiosidade.

     - Então, o doutor Abelardo estava certo.

     - É mesmo, ele disse que a turca não tinha morrido. Mas de qualquer jeito, houve um crime.

     - O caso não é nosso.

     - Agora é, doutor. A mulher quer depor.

     - Ligue pro DHPP.

     - Sim senhor.

     - Depois, tente localizar o doutor Abelardo e diga pra ele. Espere. Ligue pro doutor Lourenço. Eu quero falar com ele.

     - O doutor vai pegar o caso.

     - Ligue pro doutor Lourenço antes de ligar pro DHPP.

     - Sim senhor.

     Ninguém. Nenhum movimento.

     Repentinamente, do nada, do mato, duas crianças saem correndo e cruzam a frente do automóvel do experimentado cirurgião, provocando uma manobra brusca, seguida de desconcertante freada. As crianças saltam, voam e jazem atiradas ao chão. Do mato, do nada, uma mulher, uma mãe, aos prantos, aos berros. O motorista, em desespero, desce do carro para prestar socorro. Do mato, do nada, dois homens encapuzados apontam fuzis para a cabeça do motorista. As crianças e a mulher desaparecem.

     Pela porta largada aberta do carro blindado, entra a mulher de peruca loira e óculos escuros.

     A ação obrigou Jacutinga a sair da sua posição. Então, repentinamente, do mato, do nada, um sopro: um dardo, uma seta, uma agulha. Certeiro, venenosa, fatal. A mulher desaparece, os homens encapuzados também. Jacutinga cai a poucos metros do carro, doutor Abelardo, numa agilidade inusitada, deixa o automóvel e corre para socorrer o investigador, que, num último esforço, toma a mão do médico e balbucia.

     - Sampai...o.

     O policial poderia profetizar, se a terrosa mão da morte não pesasse em sua boca.

*

                                                                            38º Capítulo


  Enlutados, mortificados, pesarosos, pungidos, lanhados, contristados, consternados, amargurados, afligidos, acabrunhados, entristecidos, ensimesmados, cabisbaixos, humilhados, os homens foram entrando, um a um, no DP e foram quedando, um a um, admirados com a linda mulherzinha sentada nos próprios calcanhares sobre o banco na sala de espera, cujo suave e delicado sorriso lhes parecia ser de uma fada que viera quebrar o encanto e lhes devolver vivinho da silva o Jacutinga.
- Doutor Ibrahim, doutor Ibrahim, esta senhora está à sua espera e o professor doutor Brito, do DLN do IML, ligou e aguarda retorno urgente.
   O delegado Farofa deu ordens a uma policial para que acompanhasse a pequena fada até a sua sala no primeiro andar e lhe servisse café e água, depois, mandou fazer a ligação e transferi-la para a sala do delegado de plantão.
   Mal entrou na sala, deparou-se com a novidade duma lousa verde sobre um cavalete. Na lousa, com letras garranchosas, havia a seguinte anotação: Édipo em Colono, verso 83, “Falar-lhe-ei com a máxima clarividência.”, versos 155 e 156, “O homem que estais buscando sou eu mesmo; enxergo graças às vozes, como diz certo provérbio.”. Em seguida, entre um aranzel de flechas, as palavras: “Hollywood”, “cigarro”, “cidade”, “Cinema”, “OLHO”, “imagem”, “ocultismo” “óculos” “Oftalmologia”, balançou a cabeça negativamente e deve ter observado aos seus botões algo inconclusivo sobre o progresso da investigação. Sentou, colocou um dos pés sobre a mesa, mascou duas aspirinas, acendeu um cigarro e esperou.
- Doutor Ibrahim, o professor doutor Brito não está sendo localizado, deixei recado que o doutor retornou. Ok?
   Ao entrar em sua sala, o delegado diminuiu os passos para lentamente contornar a bela figura sentada sobre os próprios calcanhares imperceptivelmente recostada na poltrona, maravilhando-se com a esplendorosa e basta cabeleira negra, que brotava de cada milésimo de milímetro da magnífica cabecinha e escorria trançada até o meio das costas; a avelanada pele aveludada dos braços, ombros e colo; o maravilhoso rosto de traços firmes e delicados, o queixo finamente arredondado, a boca fabulosa, guardando os minúsculos dentes perolados, sob os lábios carmesins e carnudos, o nariz imponente e as olheiras da cor das asas da borboleta antiopa, profundamente marrom-escuras, com bordas amarelas.
    Tão logo o delegado despertou do primeiro fascínio, ofereceu mais café à linda criatura, que aceitou; ofereceu cigarro, que ela delicadamente recusou, preferindo fumar dos seus. Sorriu, porque é bom sorrir para uma mulher bonita e porque queria demonstrar que já a conhecia. Tão logo despertou do segundo fascínio, mandou chamar um escrivão e deu ordens expressas para não ser incomodado de maneira alguma.
   Tomo a liberdade de narrar em poucas linhas o depoimento, porque o circunspecto leitor e a condescendente leitora devem se recordar que a linda libanesa de olheiras abissais tartamudeia.
   Marcada com a sina de desencadear paixões irrefreadas, que muito sofrimento lhe causaram, o casamento com o juiz Nabor foi um bálsamo em sua vida, especialmente pela dedicação desinteressada e protetora de sua querida sogra. Infelizmente, ainda que encontrasse mansuetude, brandura e lenitivo em seu lar, não conseguia evitar o prorromper da paixão quando se encontrava fora de casa. Foi assim que, tendo se internado para fazer a cirurgia de extração do olho esquerdo, acometido duma infecção desconhecida, que a princípio o enrijecera, depois o empedrara, avolumando-o para além da órbita, no leito hospitalar recebeu uma injeção de curare, levando-a a um ataque cataléptico de efeito calculado, aplicada por um acólito do marido, o doutor Cambalo, que prometia rapta-la, como de fato a raptou no cemitério, com a ajuda de dois coveiros. Permaneceu cativa num sítio nos arredores da cidade, sob a guarda duma mulher magérrima, de má-catadura e muda, sendo visitada pelo raptor, nos finais de semana, que pretendia morrer com ela qualquer dia desses. Isto não aconteceu, porque o tal doutor Cambalo estava sendo seguido e vigiado, por razões políticas, por um sujeitinho, um mequetrefe, um badameco, um bangalafumenga, um borra-botas, um brochote, que a descobriu ali e a seqüestrou, levando-a para um sítio nos arredores de Santo André. Enquanto esteve raptada, soube que o doutor Abelardo era acusado de sua morte pelo seu marido e enquanto esteve seqüestrada soube que o doutor Abelardo também era acusado pela morte do seu marido. Aproveitando-se de um descuido, conseguiu escapar e foragir-se na casa de uma velha tia, onde reuniu forças para reaparecer, vindo a saber que o juiz continuava vivo e que o doutor Abelardo sempre se defendeu afirmando que ela não tinha morrido.
   O delegado sorriu, pediu a ela que lesse o depoimento e se estivesse de acordo o assinasse. Com muito custo desviou o olhar, acendeu o cigarro, deu um clique na internet e leu a manchete: AFAMADO CIRURGIÃO CONFESSA ASSASSINATO DE INVESTIGADOR DE POLÍCIA!

*

                                                                                              39º Capítulo


- “Não te estribes em teu próprio entendimento”.
- Provérbios, Nestor?
- Segue: “Não sejas sábio aos teus próprios olhos”.
- Bom. Abraço, Nestor.
- Abraço, Farofa, e fique com Deus.
   O delegado bateu o fone no gancho, tirou os óculos novamente eternamente engordurados e os colocou no centro da mesa; com o dedo indicador da mão esquerda apoiado na haste que liga as duas lentes, pressionou suavemente as costas contra o espaldar da cadeira de jacarandá e esticou as pernas, fazendo com que a pequena bóia deslizasse alguns centímetros no assento; fechou os olhos apertando as pálpebras qual tenazes. O cérebro lhe zunia. Os últimos dias foram extremamente extenuantes, com as ações atropelando o planejamento. Não era hora de avaliações, mas de se deixar dominar pelo cansaço e tentar pensar em alguma coisa fora daquele inferno. A primeira palavra, ou melhor, o primeiro nome que lhe veio à cabeça foi “Egaco”.
   Neste estado, de semi-vígilia, como dizem os especialistas, em que se dorme acordado, uma enciclopédia de sensações, traços de memória e restos de pensamento invade o consciente, inapreensíveis e inabordáveis, sem a ordem natural que se verifica nos sonhos, que permite a recordação e a reconstituição, causando uma desagradável convicção de que o quê escapa é o quê realmente importa. Melhor repassar o quê se sabe.
   O delegado recebeu a informação do doutor Brito, diretor do Departamento de Laudo Necroscópico do Instituto Médico Legal, que o veneno encontrado no corpo do Jacutinga era da mesma espécie de veneno encontrado no corpo da menina Julinha, batracotoxina, letal como o diabo.
    O curare que paralisou Nazira, ou seria Safira?, teria a mesma origem? Com o depoimento da linda libanesa de lábios de mel e olheiras abissais, o delegado Farofa, auxiliado pelo agora muito solícito juiz Nabor Boleta Ofegante, que caíra em visível depressão, requisitou força policial especial para capturar o doutor Cambalo, que permaneceu reticente no interrogatório, sem revelar o fornecedor do veneno. O crime, o criminoso e o motivo de rapto da esposa do juiz fora desvendado pela própria vítima, mas quem a teria seqüestrado do raptor? E qual o motivo? Bem, o motivo parecia ser chantagem, já que não houve pedido de resgate e caso houvesse seria no mínimo inusitado. Não seria melhor que o doutor Cambalo ajudasse a polícia a protegê-lo dos seus inimigos? Nada. Poucas horas depois, como é de praxe, o advogado foi liberado, com habeas corpus concedido com base em conduta primária e domicílio certo e desapareceu do mapa... dos vivos.
   O delegado afrouxou a gravata e permaneceu ainda com os olhos cerrados. As diligências para localizar o seqüestrador ou seqüestradores da linda libanesa de olheiras abissais foram em vão e não contaram com o auxílio do extremoso marido, para quem tal fato não existira, mas fora apenas resultado da debilitação da esposa. O único responsável era o doutor Cambalo e este se evadira levando o juiz ao degrau mais baixo da profunda depressão.
   Deprimido mesmo andava o doutor Abelardo - deprimido, mas não derrotado - que envolvido num redemoinho de notícias manipuladas, não aguentava mais dar explicações acerca de uma frase sua infeliz, em que comentara que se sentia culpado por ter levado o Jacutinga à morte, mas daí a noticiar que ele confessara ter matado o investigador. Porca miséria! O inimigo parece se multiplicar.
  O colega Nestor acabara de sugerir que a origem da droga paralisante e do veneno letal poderia ser a mesma, porque encontrou um vidro de curare na casa de praia do primo Sampaio e o doutor Cambalo era advogado do pai do namorado da jovem assassinada. E...
- Sampaio. – Os olhos do delegado arregalaram e a consciência também. Acendeu um cigarro e o tragou em poucos segundos.
- Sampaio. – Disse em voz altissonante para que ele mesmo pudesse ouvir e contrastar com o último murmúrio, a palavra derradeira do saudoso e querido investigador, conforme lhe confidenciara o grande cirurgião. Lembrou-se incontinenti da visita inesperada do colega Nestor, no dia em que encontraram no DP mais um maço de Hollywood, com um olho extirpado e os versos de Sófocles em braille, lembrou-se que o delegado de Caraguatatuba lhe havia dito que precisava ver o Jacutinga, porque somente ele teria a peça que falta pra fechar o caso e resolver o crime da menina envenenada. Discou um número interno, deu ordens para que convocassem força policial especial e pediu à investigadora Mirtes para comparecer em sua sala.
Ao entrar a jovem policial deparou-se com o chefe armado até os dentes e pronto para sair, porém, ficou sem entender quando ele a apontou e disse: “EGACO”.

*

 Final

    Descera a deserta noite e as luzes da cidade assombraram o céu, cortado por helicópteros e aeronaves.

   Com os cabelos arrancados, a cerviz arqueada, as mãos escalavradas e o corpo coberto de pó e cinzas, frei Lourenço sonhava chorar a desdita do grande cirurgião.

- Não preciso de consolo, Lenço.

- Não seja ingrato, Abel.

- Não é ingratidão. Não vou mais me defender. Não tenho forças para resistir a esta avalanche de mentiras. Quanto mais me defendo, mais acusações e mais acusadores aparecem.

- Você vai deixar que lhe acusem?

- Vou. Querem me condenar porque colaborei com o governo militar. Mas disso, os covardes não me acusam abertamente. Muito bem. Decidi defender de agora em diante o governo militar. Não tenho do que me envergonhar. Espero que caia a máscara desses bandidos e que eles me acusem do que realmente fiz.

- Amém.

    O delegado Farofa mandou cercar a casa sem número, da rua sem nome, em São Bernardo do Campo, graças à informação recebida da ex-mulher do primo Sampaio. Antes, fez uma visita, acompanhado da investigadora Mirtes, ao juiz Nabor.

- Parabéns, Excelência, o senhor resolveu se delatar.

- Obrigado, mas não sei do que o senhor está falando.

- Que o senhor se arrependeu dos seus crimes.

- Que crimes, delegado?

- Artigos 210 e 212 do Código Penal.

- Violar sepultura e vilipendiar cadáver?

- Os olhos que o senhor nos mandava em maços de cigarro foram extraídos de cadáveres.

- Que delírio.

- O senhor se arrependeu de ter se arrependido? Eu já esperava por isso.

     O delegado explicou que a linda libanesa de lábios de mel e olheiras abissais havia lhe contado que antes de reaparecer mandou algumas mensagens ao esposo para preparar-lhe o espírito e, neste período, por algum motivo que o delegado ainda desconhecia, o juiz arrependeu-se de seguir no plano de desmoralizar o delegado e seus comandados por não resolver um simples caso de mutilação, que só poderia ser de cadáveres, já que ninguém apareceu para reclamar os olhos.

- Excelência, o senhor queria nos responsabilizar de alguma maneira por não colocar o doutor Abelardo atrás das grades.

- O senhor tem alguma prova dessa barbaridade?

- Claro, excelência. A mensagem que o senhor nos mandou enquanto esteve arrependido “fala com a máxima clarividência.” “O homem que estais buscando sou eu mesmo.”

- O que significa isso?

- O doutor Abelardo me disse que lhe garantiu que sua esposa estava viva e ela também me contou que o senhor se recusou a vê-la “morta”.

- E daí?

- Daí que o senhor “enxerga graças às vozes.”

- Delegado, o senhor tem um mandado de prisão?

- Ora, excelência, vá plantar batatas.

    O doutor Farofa saiu na captura do primo Sampaio, mas já era tarde. Por pura sorte, topou com a ex-mulher, que, sem qualquer interesse, mas apenas no intuito de colaborar com a polícia, contou que há algum tempo vinha seguindo o ex-marido, porque o achara estranho demais. Contou que o primo Sampaio, desde que eram casados, manipulava pesticidas, venenos e outras drogas químicas e os fornecia ao comércio ilegal. Contou que, achava, que a jovem Julinha, que esteve duas ou três vezes com o noivo Romeu na casa laboratório, talvez, por irresistível atração juvenil, se apossou de alguma sedutora e graciosa caixinha de jade onde era acondicionado o ungüento fatal, observando que não se tratava da primeira vez que isso tinha acontecido, porque uma sobrinha dela, bem, não era o caso de comentar isso agora. Contou que, certamente, o veneno que matou o Jacutinga foi preparado pelo ex-marido sob encomenda de um tal Mendonção, para o qual o primo Sampaio trabalhava regularmente e ela, por acaso, conhecia uma senhora esgrouviada, que andava vestida em felpas de cetim, que poderia levar o delegado ao encontro do homem que mandou matar o investigador.

    O delegado Farofa mandou cercar a casa de São Bernardo e estava prestes a dar o sinal para a invasão, quando sentiu o roçar de um cano frio em sua nuca.

- Polícia Federal, doutor, queira nos acompanhar.

     Retirado do teatro de operações, ouviu, passivamente, que o caso estava sob jurisdição federal. Mais tarde, aconselhado por seus superiores a tirar longas férias, foi, ainda, informado de sua promoção e iminente transferência para a aprazível delegacia de Ilha Bela.

    Frei Lourenço acordou temeroso com os tempos que se avizinham, o tempo das palavras despegadas da realidade, o tempo da abolição do real, o tempo dos que querem “o reino de Deus neste mundo”, o tempo das ideologias, o tempo em que as idéias valem mais do que os homens. Trôpego seguiu até a biblioteca, apanhou as “Novelas Extraordinárias”, de Edgar Allan Poe, folheou, folheou, ansiosamente, e, por fim, encontrou a infeliz narrativa do mórbido Egaco, que extraiu todos os dentes da prima, e noiva, que julgara morta. Leu sôfrega e atentamente, “As realidades do mundo não me impressionavam senão com visões, enquanto que as idéias loucas do país dos sonhos eram, não a preocupação da minha existência, mas positivamente a minha única, a minha verdadeira existência”. Pulando as linhas, “Contemplava-a, não como um ser terrestre, carnal, mas como abstração da realidade, não como um objeto de amor, mas como tema de uma meditação”. “De Berenice cria eu intimamente que todos os dentes eram idéias. Idéias! Sentia que só a sua posse me podia restituir a paz e a razão”.

   Neste instante, a lua espectral girava sozinha no céu. Não havia luar. Não havia estrelas. Nenhum brilho de estrelas mortas.

                       * * *