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Os Dentes de Berenice
32° Capítulo
Malgrado virem ao mundo em berço de ouro, os rebentos da mais alta esfera paulistana não estão imunes às excrescências e protuberâncias que a natureza prodigamente distribui aos seus congêneres e tampouco de jazer sujeitos aos apelos irresistíveis do vício malsão que deforma e deteriora narinas. Para debelar tais mazelas mantêm a peso de platina sigilosas clínicas em ermas regiões, precipuamente afastadas do burburinho geral e do bulício entre pares, para louvarem-se de refinadas artes e preciosas técnicas de profissionais de renomada capacidade e sigilosíssima fidúcia, contratados a peso de diamantes. Precisamente numa delas, incrustada nas bouças da Mantiqueira, onde a abóbada celeste é sempre clara, o húmus sempre tépido e o arvoredo ordenado em encantadores vergéis, que o muito afamado doutor Abelardo, escondeu o diligente investigador, Jacutinga das Mercês.
- O quê o senhor está esperando para colocar esse tal Mendonção na cadeia, delegado?
- Tudo a seu tempo, doutor Abelardo.
- O senhor já não tem provas suficientes?
- Preciso do Jacutinga, doutor.
- Ele está bastante debilitado, por esses dias estará inconsciente, o senhor tem os seus segredos, eu tenho os meus. Já vai?
O delegado acabara de estender a mão e pousa-la sobre a mão do cirurgião, num gesto que poderia ser compreendido como de despedida, mas, também, como selo de amizade, ou, simplesmente, de largo agradecimento. Ou, ainda, o que de fato veio a significar, que aqueles homens, finalmente, começavam a se entender.
- Só mais uma coisa, doutor Abelardo. Não preciso lhe dizer que.
- O senhor não tem obrigação de acreditar em mim, eu sei.
- Minha obrigação é não acreditar em ninguém.
- Não se acanhe, delegado, eu já estou avisado, aliás, foi o próprio Jacutinga quem me avisou. É comum que suspeitos influentes, fingindo inocência, contratem policiais que os estejam investigando, para acompanharem os passos da investigação.
- O senhor me leva até a porta?
- Claro, por favor, por aqui. Delegado, desculpe, não pude deixar de reparar, é um tique profissional, o seu modo de caminhar o denuncia. O senhor tem incômodas bochechas retais, não tem? Pretende extirpá-las?
- Não.
- Faz muito bem, costumam reaparecer.
- Porisso o senhor conserva as suas?
- Não, delegado. Meu modo de andar se deve à artrose.
- Desculpe, doutor. Acho que jamais concluiria observando o seu modo de andar. Meu tique profissional é de outra natureza. Reparei na forma abaulada semicircular da almofada em sua poltrona, idêntica a de uma pequena bóia.
O grande cirurgião tocou a mão do competente delegado, num gesto que só poderia ser compreendido como o de que, finalmente, aqueles homens acabaram por se entender.
No bunker, na outrora hospitaleira São Bernardo do Campo. O mequetrefe, bangalafumenga, borra-botas seu Porra roia as unhas, a senhora esgrouviada mordia a língua e sugava freneticamente a saliva e o homem gelatinoso comprimia o estômago com os antebraços.
- Ai, ai.
- Cala a boca, Bilu.
- O Donça vai comer a gente vivo.
- Vivo? Ceis não conhecem o Donção.
- Cala a boca, Bilu.
- Perdemo o rastro, ué.
- Cala a boca, seu Porra.
- Ele tá certo, Bilu. Então a gente não pode errar?
- O Donção, não admite, porra. Pra isso a gente é pago.
- Somo ou não somos cumpanheiro?
- Vai, Ma, cê fica muito bunitinha falano errado.
- Cê num fala ansim queu sei.
- Cala a boca, porra. Ouviu o barulho? o Donção chegou. Fala, chefe.
- De quem foi a cagada?
- Perdemo o rastro. O Jacutinga evaporô, chefe.
- Não quero saber. Acha esse cara, acha esse cara. A operação toda está em risco, tão entendendo? Aquele delegado, o Farinha, é foda. Ele não descansa.
- Igual alguém que eu conheço.
- Bilu, puxar o saco agora só piora. Quero resultado. Ação. Entendido?
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O caso se aproxima de uma solução, mas vai se complicando enquanto aguardamos a recuperação de Jacutinga. O que ele poderá nos adiantar?
Vejamos o
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