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"Causos" literários

Resistimos até não poder mais, e aderimos a praga do "reality show", porém sem nos afastarmos da literatura. Assim toda semana traremos um "causo" ou fofoca para nossas tertúlias. Para garantirmos a periodicidade semanal da coluna, solicitamos aos leitores enviarem suas contribuições.

Antônio Maria x Carlos Heitor Cony

É sabido que Antônio Maria era um grande gozador,  que gostava de aprontar com os amigos. Certa vez  telefonou para Cony:

- “Cony, você nunca me enganou!”.

Relatou que vindo de São Paulo, sentou no avião ao lado de uma bela mulher cheia de amor para dar lendo seu livro Matéria de memória. Ele puxou conversa, apresentou-se como o autor do livro e passou a desfiar um rosário de infelicidades: era um desgraçado;  nunca teve sucesso, exceto com a literatura; que as mulheres o abandonavam etc. etc.

- “Mas Maria!....” Era tudo o que Cony conseguia falar.

- “Fica tranquilo, Cony, fica tranquilo porque depois nós fomos para cama. Ou melhor, você foi para a cama com a mulher”.

- “E aí?” Cony, curioso, perguntou

- “E aí é que aconteceu o problema”. Gargalhava enquanto explicava.

- “Você broxou Cony! Você broxou!!!”

Fonte: Estou procurando, mas certamente uma da biografias de Antônio Maria.

Wilson Martins x Chico Buaque

“Posso falar de Chico Buarque, de quem já li Fazenda modelo e Estorvo. Fazenda modelo é apenas um recozimento de Family farm, de George Orwell. Estorvo, por sua vez, é o recozimento de Zero, de Ignácio de Loyola Brandão, o que aliás é um livro bem mais interessante. A relação entre Estorvo e Zero é tão escandalosa que me espanta como, na época do lançamento de Estorvo, nenhum resenhista tenha a ela se referido. É a mesma temática e, muitas vezes, apresenta os mesmos episódios. Chico Buarque é um grande músico, mas como escritor é apenas um autor de segundo cozimento. Ainda não li Benjamin, mas estou curioso para ver de onde ele o tirou. Não creio, sinceramente, que Chico Buarque tenha muito futuro como escritor”.

Fonte: O Estado de São Paulo, 27/01/1996 – José Castello

Blaise Cendrars x Paulo Prado

Blaise Cendrars esteve em São Paulo pela primeira vez em 1924 a convite de Paulo Prado, que lhe pagou a viagem e a estadia e se prolongou mais do que o esperado. Como é sabido, Cendrars era um intelectual atípico, excêntrico, brincalhão. Costumava almoçar na casa de Paulo Prado e jantar com a turma da revista Klaxon, com os quais saia à noite para beber nos bares alemães da rua Santa Efigênia. Numa dessas noitadas, propôs que aquele que melhor comesse com bons modos, pagasse a conta. Procedendo por eliminatória, ele mesmo ficou de fora, quando comeu galinha com as mãos e ia jogando os ossos para trás, acertando um quadro na parede. Passou uma temporada na fazenda de Paulo; foi a Minas Gerais com Oswald, Tarsilia e Mario de Andrade, e adorou o Brasil. Um belo dia Paulo Prado revelou a Rubens Borba de Morais que já estava ficando sem jeito de dar, a toda hora, dinheiro ao Cendrars para suas pequenas despesas. Precisavam encontrar uma maneira dele ganhar algum dinheiro enquanto perambulava por São Paulo. Planejaram uma conferência do poeta com entrada paga. Mario de Andrade conseguiu espaço gratuito no conservatório;  Rubens Borba mandou mprimir os ingressos e todos ajudaram a vendê-los.  Foi um sucesso, rendeu um conto e duzentos réis, que lhe foi entregue. Mas não resolveu o problema. Com o dinheiro, passou a gastar mais ainda pagando champagne para os amigos, torrou o dinheiro em pouco tempo e não falava em ir embora. Foi com algum custo (literalmente) que Paulo Prado decidiu mandá-lo de volta a Paris. Comprou-lhe uma passagem de volta e deu-lhe mais alguns trocados para a viagem. E foi-se o poeta a contar, o resto da vida, estórias mirabolantes de sua viagem ao Brasil. É o que nos conta o próprio Rubens Borba de Moraes, em seu livro “Testemunha ocular (recordações)”, editado por Briquet de Lemos, e impresso em sua editora homônima, em 2011.

Vinicius x Drummond

“Uma vez tive uma pequena polêmica com o Vinicius de Moraes, que era um homem admirável. Na época em que ele fazia crônicas, tivemos uma discussão em torno de qual era a atriz mais admirável. Ele achava que era a Marlene Dietrich. Eu não podia consentir, pois a Greta Garbo era um amor meu desde a adolescência. Então o Vinicius, muito malandramente, para vencer a polêmica, inventou uma história: ele estava num bar em Hollyhood, e de repente aparecia a Greta Garbo deplorável, decadente, muito feia e desinteressante. Respondi à altura, defendendo-a, mas tudo com muita cordialidade, porque se há pessoa que eu admirava e gostava, pelo seu jeito tão diferente do meu, era o Vinicius. Você não chegou a conhecê-lo pessoalmente? Era encantador”.

Fonte: Folha de São Paulo, 03/06/1984 – Augusto Masi e Lúcia Nagib 

                  Vinicius x João Cabral

"O poeta Vinicius de Moraes seria um grande poeta ou maior se não escrevesse musiquinha popular".

Fonte: Tribuna da Imprensa, 10/04/1968 - Carlos Alberto  

"O Vinícius foi consequente com o lirismo dele ao desembocar na música popular... Vinícius fez a poesia que ele queria fazer. Ele era capaz de fazer as poesias mais sofisticadas, se quisesse, como também era capaz de compor samba. Ele era um poeta de uma habilidade como não conheci outro igual. De forma que se ele entrou nesse caminho do samba, foi porque ele quis. Porque antes ele tinha feito coisas da maior sofisticação"

Fonte: Folha de São Paulo, 22/05/1994 - José Geraldo Couto

 

Adélia Prado x Autran Dourado

"Não conheço Adélia Prado. Nunca li. Uns dizem que é boa, outros que é ruim... O João Cabral uma vez deu uma entrevista e disse não gostar dela, afirmou que ela tinha apenas disposição de versos, não era poesia".

Fonte: LUCENA, Suênio Campos de. 21 escritores brasileiros: uma viagem entre mitos e motes. São Paulo: Escrituras, 2001.

 

João do Rio x José Veríssimo

"Em 1904, João do Rio, nosso cronista maior do começo do século passado, resolveu fazer uma entrevista coletiva com mais de 40 ilustres escritores da época. Elaborou meia dúzia de perguntas e enviou a nomes como Olavo Bilac, Inglez de Souza, Sylvio Romero, Machado de Assis, José Veríssimo etc. Nem todos enviaram as respostas, mas os que responderam resultou no livro O momento literário, reunindo as entrevistas e um capítulo explicando a recusa de alguns. Segundo a autor as ausências de alguns nomes se devem a “uma sensibilidade grande; a vaidade doentia, e a noção de responsabilidades graves e principalmente talvez a balbúrdia das idéias". Por exemplo, Machado de Assis foi, benevolamente, incluído no primeiro caso. José Veríssimo “não gostou do inquérito, e numa roda de amigos chegou mesmo a dizer que era esse um processo de fazer livros á custa dos outros”. O comentário teve do autor uma irônica resposta: “Tamanha amabilidade impediu-me de insistir e obrigou-me a pedir a Deus que a produção da literatura nacional aumente. Só assim o sr. José Veríssimo não insistirá na pesca na Amazônia para continuar a sua série de Escritos e escritores”.

Fonte: RIO, João do. O momento literário. Rio de Janeiro: Garnier, 1904.

         Clarice Lispector x Guimarães Rosa

“Acho que a obra de Clarice também precisa ser repensada. Foi Clarice, e não Guimarães Rosa, quem inaugurou o período estetizante de nossa literatura, pois Perto do coração selvagem é de 1943 e Sagarana é de 1946. A grande crítica, com as exceções  de Antonio Cândido e Sergio Milliet, praticamente silenciou a respeito do romance de Clarice. E Rosa se apossou da glória de pioneiro, quando a glória devia ser dela. Rosa apossou-se ainda de outras glórias. Por exemplo, da glória de Mário Palmério que, em 1956, publicou Vila dos confins, um romance que considero muito superior ao Grande sertão. O romance de Rosa emocionou por causa de suas experiências lingüísticas. Mas romance por romance, o de Palmério é melhor.

Fonte: Wison Martins em entrevista n'O Estado de São Paulo, 30/05/1998 – José Castello

 

                Juan José Saer x Paulo Coelho

“É sempre inevitável falarmos aqui, em Paris, de Paulo Coelho. Você já deve ter percebido a febre. Pois Paulo Coelho é um grande mentiroso. Quando esteve em Buenos Aires, disse que seus escritores favoritos são Borges e Jorge Amado. Ora, um dos dois deveria protestar, porque evidentemente são duas concepções opostas de literatura. Coelho é um comerciante que maneja deliberadamente os analfabetos, os ignorantes. Faz-me sempre lembrar de Logsamp Rampa, o autor de O terceiro olho, aquele místico que nos anos 1950 se apresentava como um sujeito vindo do Tibete, mas na verdade era um inglês típico, que fumava seu cachimbo e jogava críquete.”

Fonte: O Estado de São Paulo, 02/11/1996 – José Castello

Ferreira Gullar x Irmãos Campos

"Nós constituíamos a chamada vanguarda da época, que nasceu basicamente desse meu livro (Luta corporal, 1954). Não porque ele tivesse proposto o caminho da poesia concreta, mas porque ele quebrou a poesia anterior, rebentou o que existia. Os Campos, quando viram meu livro, me procuraram e disseram que eles também queriam mudar a poesia brasileira. Algumas das idéias foram dadas por mim a partir da idéia básica de que a nova poesia deveria propor o fim da sintaxe verbal. Eles aderiram a essa tese, depois se apropriaram e me expulsaram da história. Como a enciclopédia soviética, apagaram tudo e reescreveram. Deixei de merecer a glória de pertencer às origens da poesia concreta, o que agradeço. Eu não tinha a mesma posição. Esse coisa de desintegrar a linguagem eu já tinha feito com Luta corporal, algo que tinha raízes profundas em minha experiência pessoal. Eles propunham um plano-piloto de poesia, o que considerava um contra-senso. Imagine se eu ia me ligar a um movimento para dizer como se faz poesia. Seria ingenuidade. Não digo nem o Augusto mas o Haroldo e o Décio são pessoas inteligentes, cultas, e a tese é primária, Eles sempre tiveram esse vezo de coisa modernosa, do momento. Depois ele adotaram a expressão da guerrilha, coisas em moda, que nunca me agradou. Jamais pensei que a poesia fosse um produto racional, cerebral. No manifesto, eles prpuseram que poesia fosse feita a partir de então segundo fórmulas matemáticas! A métrica é a única possiblidade que há de você usar uma relação verbal/matemática. As palavras são arbitrárias. Liguei para Augusto, falei que isso era impossível. Eles estavam propondo um fórmla matemática que determinasse as palavras do poema! Aconselhei-os a ler Cassirer, que demosntra que as linguagens simbólicas são intraduzíveis. Não existe relação matemática para dizer que agora é tal palavra que deve entrar em tal lugar. Falei para eles que isso era charlatanismo. Ficaram zangados e confirmaram a publicação. Falei então que publicaria um manifesto ao lado me desligando do movimento. O engraçado nisso é que algum tempo depois, passado o calor da briga, o Décio, que sempre foi o mais cordial e o menos sectário do grupo, apareceu no jornal falando que finalmente se criava no país uma indústria de base e que na poesia era a mesma coisa. Eles propunham agora a criação de uma tal de 'posia de base'. Falei: ' Mas que diabo é isso?' (risos) Queriam publicar outro manifesto. Lembrei a ele que havíamos rompido porque eles escreveram um manifesto dizendo que a poesia is ser feita segundo fórmulas matemáticas. Disse que não publicaríamos um manifesto anunciando uma poesia que nunca seria feita. Ele nunca mandou poesia de base nenhuma nem o manifesto. Não há na história da literatura brasileira a fase 'poesia de base' da poesia concreta proque, felizmente, não publicamos. Se tivéssemos feito isso, já estaria sendo ensinada nas universidades. Nunca houve posição ideológica no movimento. Houve um certo oportunismo deles na época da renùnica do Jânio, quando começa a discussão pela reforma agrária... Para não perderem o bonde, começam a querer introduzir na poesia deles tinturas políticas, mas quem lê a teoria da poesia concreta vê que ela é, por definição, apolitica, uma atitude formalsita. Eles chegam a dizer que 'o contéudo da poesia é a época. O poeta não tem de pôr contéudo algum'. Ora, se o poeta não pode colocar conteúdo em seu poema e o conteúdo é mera elaboração formal - velocidade, cidade, dade... Então isso é que é poesia!? Novo, novelo, no velho... São jogos de palavras, trocadilhos, aliterações".

Fonte: LUCENA, Suênio Campos de. 21 escitores brasileiros: uma viagem entre mitos e motes. São Paulo: Escrituras, 2001.

 

                      Murilo Rubião x Guimarães Rosa

"Eu não convivi com Guimarães Rosa, a não ser por correspondência e leitura, porque quando ele se transferiu para o Rio, eu já tinha voltado para Belo Horizonte, e depois fui para a Europa. Mas quando fui designado para Sevilha e Madrid, perguntaram se eu não queria levar um dossiê referente à Espanha, com dados econômicos, sociais, etc. Na parte da literatura eu estava mais ou menos a par. Então fui pegar esse dossiê e no elevador do Itamaraty no Rio de Janeiro estava um senhor de gravata borboleta, e quando ele ouviu meu nome apresentado pelo diplomata João Pinheiro Neto ele exclamou, “Murilo Rubião! Que coisa nos encontrarmos aqui. Gostei tanto do Ex-Mágico!” Todo o tempo segurando a minha mão. Ele tinha uma voz um pouco efeminada, e, segurando a minha mão por tanto tempo, eu fiquei ruborizado. Quando saímos do elevador, perguntei para João Pinheiro, “Quem é essa bicha de borboleta?” “É o Guimarães Rosa!” Eu sentei no chão, bati com a mão na cabeça, e disse “Essa não!”

 

                     Wilson Martins x Guimarães Rosa

Depois do Grande sertão, Guimarães Rosa entrou em um beco sem saída: ou ele se renovava e já não era mais Guimarães Rosa, ou se repetia Por isso Grande Sertão não teve continuidade. Logo depois do lançamento do romance, encontrei-me com Sergio Milliet, que era muito chegado ao Rosa. Ele me disse ‘Este é apenas o primeiro volume, vai haver uma continuação que se chamará Grande sertão: cidades’ Mas em vez de escrever a continuação projetada, Rosa escreveu aqueles contos do Corpo de baile, que são totalmente diferentes. Não conseguiu continuar seu projeto. Corpo de baile é um livro que ninguém leu. Eu penso que o caso Guimarães Rosa precisa ser reexaminado pela crítica do futuro... Foi Clarice, e não Guimarães Rosa, quem inaugurou o período estetizante de nossa literatura, pois Perto do coração selvagem é de 1943 e Sagarana é de 1946. A grande crítica, com as exceções de Antonio Cândido e Sergio Milliet, praticamente silenciou a respeito do romance de Clarice. E Rosa se apossou da glória de pioneiro, quando a glória devia ser dela. Rosa apossou-se ainda de outras glórias. Por exemplo, da glória de Mário Palmério que, em 1956, publicou Vila dos confins, um romance que considero muito superior ao Grande sertão. O romance de Rosa emocionou por causa de suas experiências lingüísticas. Mas romance por romance, o de Palmério é melhor... As experiências lingüísticas de Rosa têm importância como experiências lingüísticas, mas não como criação literária. Muita gente diz que o Rosa foi o nosso Joyce. Guardadas as devidas proporções, isso é verdade, mas só guardadas as devidas proporções. Ao contrário do que ensinam os Irmãos Campos, Joyce renovou mais a narrativa do que a linguagem. Ele renovou a língua em Finnegans wake, romance que é mais uma brincadeira do que um romance. Mas o Ulisses é, antes de tudo, um romance realista.

Fonte: O Estado de São Paulo, 30/05/1998 – José Castello

 

Cabrera Infante x Garcia Márquez

Garcia Márquez é outro que não me interessa. Ele faz o que eu chamo de "literatura de Carmen Miranda". Carmen Miranda está para o Brasil como Garcia Márquez está para a literatura em espanhol. Ambos possuem um exotismo que, na realidade, não lhes pertence. Carmen Miranda nem sequer era brasileira. Chamaram-na de "The lady with the tuti frutti hat". Eu chamo García Márquez de 'The writer with the tuti frutti pen'.

Fonte: O Globo, 13/12/1992 - João Domenech Oneto

            José J. Veiga x Guimarães Rosa

Com Sagarana, que ainda é um livro bem regionalista, descobri uma literatura completamente diferente. Rosa não se limitava a contar casos do sertão, ele fazia uma literatura mais profunda e mais universal. Gosto muito, é claro, do  Grande Sertão e de A terceira margem do rio. Mas depois ele passou a escrever coisas muito herméticas, como Tutaméia, e eu não identificava mais naqueles livros o escritor que eu conhecia. Na verdade, ele se tornou muito chato. Queria inovar a qualquer preço e não conseguiu.

Fonte: O Estado de São Paulo, 04/10/1997 – José Castello

 

Jorge Luis Borges x Pablo Neruda

Li pouco Pablo Neruda, mas o conheci pessoalmente. Foi um encontro breve, ele me disse que o espanhol não lhe servia mais e que pensava escrever em inglês. Eu lhe respondi que respeitava demais o inglês para aconselhá-lo a fazer uma coisa dessas. Nosso diálogo acabou aí. Como poeta, tem algumas coisas boas. Mas seus versos de amor são fracos”.

Fonte: Veja, 19/09/1980 – Alessandro Porro 

 

Ernesto Sábato x Alan Pauls

“Sábato não existe para mim, nem para minha geração. Não o considero um escritor. Ele é péssimo, é o mais gigantesco blefe já produzido na literatura Argentina. Seus três romances não têm relevância literária. Há uma espécie de personagem Sábato, que na Argentina tem um peso muito grande. É a encarnação da ética, da intransigência ética. Vejo Sábato como mártir de uma causa que não me interessa”.

Fonte: O Globo, 04/01/1997 – Flávio Ribeiro de Castro

 

                        Drummond x Chico Buarque

“Uma vez eu estava posto em sossego, cerca de meia-noite, e me telefonou o Chico Buarque de Hollanda, pessoa que admiro muito, mas com quem não tenho nem contato. Gosto da música dele. Telefonou e disse: preciso conversar com você. Eu disse: A esta hora da noite? Meu Deus, aconteceu um drama, para o Chico me procurar! Mas disse: pois não, venha. Apareceu em companhia de um cidadão, moreno, magro. Era já meia-noite e meia. O cidadão falou meio enrolado, era o embaixador da Nicarágua no Brasil, que tinha lido uma crônica minha no jornal e achava que eu estava mal informado sobre o país dele. Ah, tenha paciência! Eu tenho noção do que escrevo, compreendeu? Não sou partidário dos Estados Unidos, longe disso, acho a agressão à Nicarágua uma coisa estúpida. Mas não se pode negar que a Nicarágua é uma ditadura. Eles fecharam o La Prensa, onde tenho amigo, o poeta Pablo Antonio Cuadra. E então falei para o Chico: tenha paciência!”

Fonte: O Estado de São Paulo, 19/10/1986 – Luiz Fernando Emediato

Guimarães Rosa x José J. Veiga

José J. Veiga era amigo íntimo de Guimarães Rosa, e imaginou que ele gostaria de prefaciar um de seus livros. Mas como era radicalmente contra prefácios em romances e, não sabendo como negar, caso Rosa quisesse prefaciar, arranjou um artifício engenhoso para superar o problema: pegou um livro qualquer na estante e comentou com Rosa: “Gostei desse livro, só não é melhor porque tem prefácio”. Rosa emendou: “Mas você não gosta de prefácio?”. “Não, eu detesto prefácio”, respondeu. Rosa aarrematou: “Então, você não quer que eu prefacie seu livro?”. “Não”, cconcluiu. Diante disto, Rosa abriu um sorriso e falou: “E eu estava com o maior receio que você me pedisse para fazer uma coisa que eu não gosto, e não saberia como lhe negar”

Fonte: Relatado por José J. Veiga ao editor deste site em 1993

Rubens Borba de Moraes x Oswald de Andrade xManuel Bandeira x Segio Buarque de Holanda

"A propósito de pesquisa, estou me lembrando de um caso que me contou Sérgio Buarque de Holanda. Nesse tempo ele trabalhava no Instituto Nacional do Livro. Um dia apareceu-lhe Oswaldo de Andrade que tinha resolvido concorrer à cadeira de literatura brasileira na Universidade de São Paulo. Andara à  procura de um assunto para escrever uma tese. Já tinha falado com Manuel Bandeira que lhe perguntou?

- Porque você não escreve sua tese sobre as academias coloniais?

Oswaldo estremeceu e exclamou:

- Que coisa é essa?

Manuel Bandeira, em vista da resposta, desistiu de sugerir-lhe assuntos de tese. Oswaldo foi procurar Sergio e lhe disse:

- Quero que você me explique direitinho esse negócio da Arcádia.

Sergio não se assustou, conhecia o Oswaldo há anos e sabia que não tinha lido dois livros em toda a vida. Passou calmamente a explicar-lhe. Mas no decorrer da conversa citou uma data. Não tendo certeza, levantou-se, passou a mão num volume da estante, folheou-o. Não encontrou o que precisava. Colocou-o no lugar, abriu outro, consultou o índice, procurou a página indicada, e disse:

- Está aqui. É isso mesmo, a data que citei está certa.

Oswaldo olhou-o com assombro e disse:

Que coisa admirável pesquisa!

O que é admirável é Oswaldo ter escrito a obra que escreveu sem nunca ter pesquisado e nunca ter lido nada. Só no fim da vida é que foi ler apaixonadamente livros de sociologia e e filosofia".

Fonte: MORAES, Rubens Borba de.Testemunha ocular: (recordações). Brasília: Briquet de Lemos / Livros, 2011, pg. 77.  

(Obs. Rubens Borba de Moraes foi o último remanescente e um dos principais organizadores da Semana de Arte Moderna de 1922)

Ledo Ivo x Oswald de Andrade

"Ledo Ivo, um representante da Geração de 45, num período áureo, veio fazer uma conferência aqui em São Paulo sobre a revalidação do modernismo, no Museu de Arte Moderna, e o Oswald se levantou para fazer um aparte - ele sempre participava, sempre gostava de participar das conferências, nunca ficava calado, queria participar. E ele fez alguma pergunta de que o Ledo Ivo não gostou, e o Ledo Ivo se virou para ele e disse: "o senhor não pode dizer nada porque o senhor é o calcanhar-de-aquiles do modernismo". E o Oswald não esperou, disparou assim no ato: "e o senhor é 'chulé de Apolo' da Geração de 45".

Fonte: Haroldo de Campos, Folha de São Paulo, 14/09/2003

 

Como negar um voto na Academia

"Certa vez um enamorado da Academia, homem ilustre e aliás perfeitamente digno de pertencer a ela, escreveu-me sondando-me sobre suas possibilidades como candidato. Não pude deixar de sentir o bem conhecido calafrio aquerôntico porque então éramos quarenta na casa de Machado de Assis e falar de candidatura sem que haja vaga é um pouco desejar secretamente a morte de um deles. O consultado poderá dizer que “praga de urubu não mata cavalo”. Mas, que diabo, sempre impressiona. Não impressionou ao conde Afonso Celso, de quem contam que respondeu assim a um sujeito que lhe foi pedir o voto parar uma futura vaga: ”Não posso empenhar a minha palavra. Primeiro porque o voto é secreto. Segundo porque não há vaga e terceiro porque a futura vaga pode ser a minha, o que me poria na posição de não poder cumprir com a minha palavra, coisa que jamais faltei em minha vida".

Fonte: Texto atribuído a Manuel Bandeira, in: 100 anos da Academia Paulista de Letras. São Paulo: Imprensa Oficial, 2009.

 

Oswald de Andrade x Antonio Cândido

Ele era muito inteligente. Fulgurante. Uma vez ele queria fazer um concurso de filosofia. Eu disse: "não faça isso Oswaldo, você não é filósofo". Ele: "por que não? Sou brasileiro, vacinado, maior de 21 anos, posso fazer". Eu falei: "esse negócio de existencialismo, fenomenologia hoje em dia tem uma terminologia muito complicada que você não domina. Certamente irá para a banca o professor Fulano de Tal, que te pega com uma pergunta complicada e você não sabe responder". "Então faça uma pergunta para mim". Eu disse: "não sei, não sou filósofo", e ele: "inventa, inventa uma complicada". Eu fiz então uma pergunta bem pernóstica, do tipo que poderiam fazer no exame: "Senhor candidato, diga-me vossa senhoria qual é a empostação hodierna da problemática ontológica". Ele respondeu assim: "Está vossa excelência muito atrasado. Na nossa era de devoração universal a problemática não é ontológica, é odontológica". Isso ele fazia assim na hora. Era genial.

Fonte:http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2011/07/06/uma-entrevista-aula-com-antonio-candido-na-flip-2011-390689.asp (20/05/2013)

Juan Carlos Onetti x Camilo José Cela

O nosso rei deu o Nobel para Camilo José Cela. Os reis da Suécia queriam se instalar na Espanha sem pagar impostos, e em troca o rei da Espanha queria um Nobel. Não especificamente para Cela, a exigência que a Espanha tivesse um Nobel de Literatura. Todo mundo sabe disso... Gostaria que ele fosse para a p... que p... Na época do golpe de Franco esse homem escreveu uma carta, da qual eu tenho uma fotocópia, se oferecendo como delator nos círculos literários. Poderia dizer quem estava contra e quem estava a favor. Esse homem, para mim, se acabou”.

Fonte: O Globo, 06/12/1992 – Sandra Cohen 

         Wilson Martins x Guimarães Rosa

“Depois do Grande sertão, Guimarães Rosa entrou em um beco sem saída: ou ele se renovava e já não era mais Guimarães Rosa, ou se repetia Por isso Grande Sertão não teve continuidade. Logo depois do lançamento do romance, encontrei-me com Sergio Milliet, que era muito chegado ao Rosa. Ele me disse ‘Este é apenas o primeiro volume, vai haver uma continuação que se chamará Grande sertão: cidades’ Mas em vez de escrever a continuação projetada, Rosa escreveu aqueles contos do Corpo de baile, que são totalmente diferentes. Não conseguiu continuar seu projeto. Corpo de baile é um livro que ninguém leu. Eu penso que o caso Guimarães Rosa precisa ser reexaminado pela crítica do futuro... Foi Clarice, e não Guimarães Rosa, quem inaugurou o período estetizante de nossa literatura, pois Perto do coração selvagem é de 1943 e Sagarana é de 1946. A grande crítica, com as exceções de Antonio Cândido e Sergio Milliet, praticamente silenciou a respeito do romance de Clarice. E Rosa se apossou da glória de pioneiro, quando a glória devia ser dela. Rosa apossou-se ainda de outras glórias. Por exemplo, da glória de Mário Palmério que, em 1956, publicou Vila dos confins, um romance que considero muito superior ao Grande sertão. O romance de Rosa emocionou por causa de suas experiências lingüísticas. Mas romance por romance, o de Palmério é melhor... As experiências lingüísticas de Rosa têm importância como experiências lingüísticas, mas não como criação literária. Muita gente diz que o Rosa foi o nosso Joyce. Guardadas as devidas proporções, isso é verdade, mas só guardadas as devidas proporções. Ao contrário do que ensinam os Irmãos Campos, Joyce renovou mais a narrativa do que a linguagem. Ele renovou a língua em Finnegans wake, romance que é mais uma brincadeira do que um romance. Mas o Ulisses é, antes de tudo, um romance realista”.

Fonte: O Estado de São Paulo, 30/05/1998 – José Castello

           Murilo Rubião x Guimarães Rosa

"Eu não convivi com Guimarães Rosa, a não ser por correspondência e leitura, porque quando ele se transferiu para o Rio, eu já tinha voltado para Belo Horizonte, e depois fui para a Europa. Mas quando fui designado para Sevilha e Madrid, perguntaram se eu não queria levar um dossiê referente à Espanha, com dados econômicos, sociais, etc. Na parte da literatura eu estava mais ou menos a par. Então fui pegar esse dossiê e no elevador do Itamaraty no Rio de Janeiro estava um senhor de gravata borboleta, e quando ele ouviu meu nome apresentado pelo diplomata João Pinheiro Neto ele exclamou, “Murilo Rubião! Que coisa nos encontrarmos aqui. Gostei tanto do Ex-Mágico!” Todo o tempo segurando a minha mão. Ele tinha uma voz um pouco efeminada, e, segurando a minha mão por tanto tempo, eu fiquei ruborizado. Quando saímos do elevador, perguntei para João Pinheiro, “Quem é essa bicha de borboleta?” “É o Guimarães Rosa!” Eu sentei no chão, bati com a mão na cabeça, e disse “Essa não!”

                                                    

Drummond X Otto Maria Carpeaux

Quem conheceu Otto Maria Carpeaux descrevia-o como uma espécie de monstro. O escritor José Roberto Teixeira Leite era seu amigo e desenhava assim a figura do austríaco: “Carpeaux foi um dos homens mais feios que conheci. Sua aparência neandertalesca, todo mandíbulas e sobrancelhas, fazia a delícia dos caricaturistas: parecia um troglodita, mas um troglodita que lia Homero e Virgílio no original, que se deliciava e ensinava sobre Bach e Beethoven, que diferenciava e palestrava sobre Rubens e Van Dyck”. Carpeaux também era gago. Carlos Drummond de Andrade, outro amigo, disse que, numa viagem de carro, ele foi citar Kierkegaard. “Começou a falar quando saímos de Juiz de Fora, Ki… Ki… Ki… e só completou o nome do autor dinamarquês em Barbacena, uns 80 quilômetros adiante’.

Fonte RIBEIRO, Milton. As contribuições de Carpeaux, Caro e Zweig, ilustres imigrantes que chegaram com a guerra. Gazeta do Povo, Curitiba, 16/3/2013

Otto Lara Resende e Rubem Braga

Um dia, Rubem me telefonou: vamos ao Bar Luís, na Rua da carioca? O objetivo era promovermos uma excursão cultural. mas o chope estava esplêndido. começamos por um preto duplo, que a sede era forte. depois mais um, agora louro. E outro. Claro que não faltou o salsichão com bastante mostarda. Calados, mas vorazes, cumpríamos um rito. saímos dali e fomos a um sebo. O Rubem comprou Xanã, do Carlos Lacerda, com dedicatória. Depois, pegamos o carro e voltamos pelo Aterro, onde se podia exercer o direito da livre eructação. Tinha sido um perfeito programa cultural. E sem nenhum incentivo do governo.

Fonte: www.academia.org.br

Humberto de Campos x Viriato Correia

Embora conterrâneos do Maranhão, os acadêmicos Humberto de Campos e Viriato Correia mordiam-se com frequência. Certa vez, informaram a Humberto que, em reunião numa casa de família, Viriato dele falara muito mal.  E Humberto, impiedoso, reagiu: – Essa notícia não deve ser verdadeira, porque, ao que sei, Viriato nunca frequentou uma casa de família.

Fonte: www.academia.org.br

 

Darcy Ribeiro x Ciro dos Anjos

Ciro dos Anjos é um escritor excelente, escreve muito bem, mas o Ciro dos Anjos é a prova de bala contra idéia. Idéia não entra nele nem à bala. E eu sou o contrário. Não escrevo bem mas tenho idéia pacas! Me sobra idéia por cada poro. Então, a gente tinha que fazer a mensagem presidencial. Eu injetava as idéias e o Ciro dava a forma. Então, as minhas idéias mais a forma do Ciro deram uma coisa muito bonita no governo do Juscelino.

Fonte: Depoimento de Darcy Ribeiro ao CPDOC da FGV, no Rio de Janeiro, em 1978

(http://www.fgv.br/cpdoc/historal/arq/Entrevista471.pdf

Caio Fernando Abreu x Rachel de Queirroz

Caio Fernando Abreu:

É a última coisa, não vou me tornar constrangedor. Por várias coisas que você falou, concluo que você colaborou para coisas muito negativas nesse país, no meu ponto de vista. Compreendo que todos nós somos humanos, erramos, nos equivocamos e tal, mas estou me sentindo extremamente constrangido de estar na posição de render homenagem a um tipo de ideologia que profundamente desprezo.  

Âncora (Jorge Escosteguy):

Caio, você tem que fazer perguntas, e não render homenagem, desculpe.

Caio Fernando Abreu:

Está certo. 

Âncora:

A entrevistada é a escritora Rachel de Queiroz.

Caio Fernando Abreu:

Só queria dizer isto: não tenho mais perguntas a fazer. Minha participação se encerra aqui. 

Rachel de Queiroz:

Gostaria de responder a você que nós estamos num país democrático, eu respeito as suas posições e espero que você respeite as minhas.  

Caio Fernando Abreu:

Respeito, tanto que me calo.

Rachel de Queiroz:

Pois é, se as minhas posições são constrangedoras, acho as suas também muito constrangedoras para mim. E realmente estou sendo exigida a me pronunciar sobre esses temas que eu não gostaria de ser, para não ser descortês com você, de forma que é recíproca a nossa posição.  

Fonte: Entrevista no Programa Roda Viva, da TV Cultura, em 01/07/1991.

Manuel Bandeira x Monteiro Lobato

Lembo-me que mandei um exemplar (de Carnaval) à Revista do Brasil (O diretor era o Lobato). Na resenha dos livros novos sairam umas quatro linhas, dizendo mais ou menos isto: "O Sr. Manuel Bandeira abre seu livro com este verso: Quero cantar, dizer asneiras. Pois conseguiu plenamente o que queria". Nunca soube quem foi o autor desse comentário.

Fonte: BANDEIRA, Manuel. Poesia e prosa. vol.1 - Posia. Rio de Janeiro: Aguilar, 1958. p. 1163

Fábio Lucas x João Antonio

Outro aspecto curioso dessa Biblioteca é que aqui, antes de ser escritor conhecido, o João Antonio vinha aqui estudar. Ele era um menino pobre, e vinha estudar aqui – ele tinha escrito uns contos, e dava para os amigos avaliarem. O Caio Porfírio Carneiro e a Ilka Brunhilde Laurito eram os dois amigos que ele tinha, e confidentes. Acontece que a casa em que ele morava no subúrbio de São Paulo incendiou-se e ele perdeu o livro que tinha escrito. Mas ele tinha dado um manuscrito para o Caio, ainda em rascunho, e a Ilka Brunhilde Laurito tinha outro, então juntando esses dois pedaços, recompôs. E aqui numa sala, ele veio e reescreveu o livro todo, nessa Biblioteca. Então o primeiro livro dele, do João Antônio, que é o mais famoso dele, o título é Malagueta, Perus e Bacanaço foi escrito aqui dentro, foi recomposto aqui.

Fonte: Depoimento de Fábio Lucas ao Projeto de Memória Oral da Biblioteca Mário de Andrade, em  21/06/2006.  

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