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Música
Antonio Cícero

“No passado, os escritores herdavam as formas prontas de poesia: os sonetos, as redondilhas, etc. No nosso século, essas formas fixas se perderam, passaram a ser contestadas e até mesmo ridicularizadas. Mas a música vem oferecer ao letrista uma nova forma fixa que não é vista como ridícula. São as formas fixas, na verdade, que estimulam o trabalho do poeta, que permitem que ele seja feito, e só quem não é poeta se atrapalha com elas. Elas são grandes oportunidades de jogos, de brincadeiras com as palavras. É maravilhosa essa técnica em que a música força o poeta a se enquadrar. Já vi muitos poetas se glorificarem que só fazem letras se podem escrevê-las primeiro, antes da música. Acho isso uma bobagem... A invenção de novas formas faz com que as formas tradicionais percam a aparência de sagradas. Por isso, podemos voltar, hoje, às formas fixas. Muitos de meus poemas são sonetos – e escrever sonetos, em um determinado momento de nosssas vidas, parecia uma atitude reacionária. Nesse momento, a música popular foi uma saída para os poetas que gostam de trabalhar com formas fixas. Tome um grande poeta como Chico Buarque. Ele gosta de escrever versos tradicionais, em forma de rimas. Se ele praticasse esse tipo de poesia em livro, seria chamado de reacionário, de conservador. Mas na música ele faz e ninguém pode dizer nada. Logo, a música popular permitiu que se exprimissem esses talentos poéticos que gostam de formas tradicionais, como Chico Buarque e Caetano Veloso, e sem ela não teriam como se expressar e talvez até se calassem... Nunca achei que o fato de ser letrista me atrapalhasse o percurso de poeta. Há uma diferença básica: para escrever letras eu dependo sempre de outras pessoas. Eu não faço música, não componho, não sei cantar. A música, para mim, envolve muitas outras pessoas (o parceiro, o instrumentista, o cantor, o arranjador), não é uma atividade solitária como a poesia. Há algo de vulgar, sim, na música, pois ela é uma atividade ligada à indústria. Isso não quer dizer, no entanto, que seja melhor o poema que eu escrevo sozinho do que a letra que faço no embate com o mundo real”.

Fonte: O Estado de São Paulo, 21/12/1996 – José Castello

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“O bom letrista faz a letra para uma melodia já dada. Isso significa que ele já toma a música dada como um elemento expressivo. Ele leva em conta também o fato de que a letra vai ser escutada e não lida. Por exemplo, certas palavras se tornam mais ambíguas quando são escutadas do que quando são lidas, e isso é um dos fatores manipulados pelo poeta, que precisa decidir em cada caso entre explorar a respectiva ambigüidade ou evitá-la. Além disso, quando uma letra é feita para uma melodia, é esta que determina a sua estrutura formal, funcionando como uma espécie de forma fixa. Se uma  forma fixa tradicional, como um soneto, é uma forma fixa específica, a forma fixa constituída por uma melodia é uma forma fixa individual. Pois bem, uma forma fixa é sempre uma limitação Gosto de tais limitações. Nunca é demais citar Valéry: ‘É poeta aquele a quem a dificuldade inerente ao verso dá idéias – e não o é aquele a que ela as retira . É por isso que achei interessante, no meu livro, explicar que textos são escritos para melodias e que textos foram musicados depois de escritos. Contudo, se as diferenças entre letra de música e poema livresco fossem essenciais, não poderíamos hoje apreciar a poesia grega antiga, por exemplo – que era musicada – já que perdemos a música que a acompanhava. Tratam-se, portanto, de diferenças meramente acidentais. Quanto ao fato de que quase todas as letras de música são vulgares, é preciso observar que o mesmo pode ser dito de quase todas poemas livrescos. Isso significa que a crítica não tem fundamento para estabelecer qualquer relação hierárquica entre poema e letra de música. Ela deve despreconcebidamente considerar cada caso individual, cada poema e cada letra de música”.

Fonte: Correio Braziliense, 02/10/1997 – Newton Araújo Jr.

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" Os primeiros poemas meus que foram musicados não haviam sido feitos para isso. Minha irmã, Marina, subtraiu-os de uma gaveta e os musicou, sem o meu consentimento. Entretanto, gostei muito de ouvi-los musicados. A partir disso, além dos versos que continuei a fazer para serem lidos, comecei a fazer versos especificamente para virarem canções. Ademais, passei a fazer versos para melodias previamente compostas por Marina ou por outros compositores. As melodias, nesses casos, funcionavam como espécies de formas fixas para os versos. Paralelamente, continuei a escrever poemas para serem somente lidos. São os trabalhos em que me reconheço mais inteiramente. Como não sou cantor nem compositor, nem músico, as letras que escrevo sempre fazem parte de alguma obra de outra pessoa. Elas são mediadas por outras pessoas. Não acho que o resultado dessa mediação seja ruim: ao contrário, tenho meus parceiros como grandes artistas. Entretanto, as composições que fizemos juntos não são obras totalmente minhas, ao contrário dos poemas que faço para serem lidos. Incluí no Guardar algumas letras, seja porque já eram poemas antes de serem musicadas, seja porque constituem unidades autônomas, mesmo independentemente das melodias a que estão associadas; mas constituem exceções. A verdade é que nem todos os versos musicados ficam bem, quando despidos da música. Por outro lado, nem todos os poemas ficam bem, quando são musicados. A questão da relação entre letra de música e poesia é muito discutida no Brasil, principalmente porque alguns compositores que nunca publicaram livros de poemas são, apesar disso, reconhecidos como grandes poetas. É o caso de Caetano Veloso. A questão é normalmente posta do seguinte modo: "letra de música é poema?" A expressão "letra de música" já indica de que modo essa questão deve ser entendida, pois a palavra "letra" remete a escrita. O que se quer saber é se a letra, separada da música, constitui um poema escrito. Essa formulação é inadequada. Desde que as vanguardas mostraram que não se pode determinar ex ante quais são as formas lícitas para a poesia, qualquer coisa pode ser um poema. Se um poeta escreve letras soltas na página e diz que é um poema, quem provará o contrário? A verdadeira pergunta parece ser, portanto, se uma letra de música é um bom poema. Entretanto, mesmo esta última pergunta ainda não é suficientemente precisa, pois, do ponto de vista modal, pode estar a indagar duas coisas distintas: (1) se uma letra de música é necessariamente um bom poema; e (2) se uma letra de música é possivelmente um bom poema. Quanto à pergunta (1), é evidente que deve ter uma resposta negativa. Nenhum poema é necessariamente um bom poema; nenhum texto é necessariamente um bom poema; logo, nenhuma letra é necessariamente um bom poema. Mas talvez o que se deva perguntar é se uma boa letra é necessariamente um bom poema. Ora, também a essa pergunta, a resposta é negativa. Quem já não teve a experiência, em relação a uma letra de música, de se emocionar com ela ao escutá-la cantada, e considerá-la insípida ao lê-la no papel, sem acompanhamento musical? Não é difícil entender a razão disso. Um poema é um objeto autotélico, isto é, ele tem o seu fim em si próprio. Quando o julgamos bom ou ruim, estamos a considerá-lo independentemente do fato de que, além de ser um poema, ele tenha qualquer utilidade. Uma letra de música, por outro lado, é heterotélica, isto é, ela não tem o seu fim em si própria. Para que a julguemos boa, é necessário e suficiente que contribua para que a obra musical de que faz parte seja boa. Em outras palavras, se uma letra de música servir para fazer uma boa canção, ela é boa, ainda que seja ilegível. E a letra pode ser ilegível porque, para se estruturar, para adquirir determinado colorido, para ter os sons ou as palavras certas enfatizadas, ela dependa da melodia, da harmonia, do ritmo, do tom da música à qual se encontra associada. Assim, uma boa letra de música não é necessariamente um bom poema. A resposta para (2), por outro lado, é evidentemente positiva. Os poemas líricos da Grécia antiga e dos provençais eram letras de músicas. Perderam-se as músicas que os acompanhavam, de modo que só os conhecemos na forma escrita. Ora, muitos deles são considerados grandes poemas; alguns são enumerados entre os maiores que já foram feitos. Além disso, nada impede que um bom poema, quando musicado, se torne uma boa letra de música. Assim, uma letra de música pode ser um bom - ou mesmo um grande - poema.
Apesar disso, pouquíssimas letras contemporâneas chegam a ser bons poemas; mas também, de maneira geral, a verdade é que pouquíssimos poemas - contemporâneos ou não - chegam a ser bons. A poesia aspira ao nec plus ultra. O medíocre lhe é tão intolerável quanto o ruim. Horácio é quem melhor o diz: Mediocribus esse poetis non homines,non di,non concessere columnae ("que sejam medíocres os poetas, nem os homens, nem os deuses, nem as colunas concedem"). Hoje em dia, quem não é poeta acha fácil fazer poesia. O verdadeiro poeta é aquele que sabe que fazer poesia é extremamente difícil.

Fonte: http://www2.uol.com.br/antoniocicero/ (03/02/2010)

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