"Certo aluno, desses que costumam fazer perguntas embaraçosas aos pofessores, interrogou-me depois da aula: 'Por que escreve?' Algum tempo antes eu havia publicado um romance e, na ocasião, andava às voltas com outro, e nunca me ocorrera indagar por quê. Fiquei perplexo. Uma coisa era a atividade literária e outra a motivação dela, mas o jovem insistiu. Então, por curiosidade, fiz uma série de leituras sobre o ato criador, sobre o impulso que leva à criação, e dessas leituras saiu este livrinho (A criação literária). Temino meu livro com Pirandello: 'Que autor poderá dizer como e por que um personagem nasceu em sua fantasia? O mistério da criação artistica é idêntico ao do nascimento natural' Isso diz Pirandello e continua: 'a mulher pode sentir o desejo de ser mãe, mas esse desejo, ainda que veemente, não basta para fecundá-la. Um belo dia ela se sentirá mãe, sem ter se dado conta de onde começou isso. Assim, um artista, em seu viver, acolhe, a todo instante, germes da vida, mas nunca poderá dizer como e por que, em certo momento, um desses germes penetrou em sua fantasia para se converter em criatura viva, num plano de vida superior ao da versátil esxistência cotidiana". E eu conclui, de uma maneira brincalhona: Jamais perguntem ao romancista por que ele escreve romances; melhor é pedir como certo personagem de Shakespeare, que eles sejam bem encadernados e nos falem de amor..."
Fonte: RCCIARDI, Giovanni. Auto-retratos. São Paulo: Martins Fontes, 1991.