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Inspiração
Depoimentos e estudos

 

O que é inspiração ?

Prosseguindo no desejo de ampliar o escopo dos "Mistérios da Criação Literária", caímos nessa "questão elementar". Pois, o sentido está na própria palavra: inspira+ação. Ao mesmo tempo a questão é complexa porque continuamos não sabendo o que inspira a ação. Desse modo a palavra adquire ares de misteriosa, e de qualquer modo, essencial para o fazimento da literatura.

Inspiração é o oposto da expiração; é o complemento da respiração; é o alento da realização; é um bocado de coisas, que ninguém sabe direito o que é. Mas tudo indica que ao inspirarmos, algo mais que ar é absorvido pelos pulmões. Que algo mais é este que causa tanta polêmica entre os escritores? Uns dizem que sem inspiração não dá para escrever; outros acham que ela pode até atrapalhar o processo criativo.

Antes de vermos o que os escritores falam, vejamos o que diz o Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais, de Mario Ferreira dos Santos, um grande filósofo brasileiro, infelizmente, desconhecido do grande público.

"Ao examinarmos a aspiração, vimos que quando o espírito humano, no seu dinamismo, dirige-se aos valores puros, como liberdade, justiça, a aspiração torna-se inspiração. Na inspiração, a imaginação criadora dirige-se para a realização de novas formas de cultura, sobre qualquer dos aspectos que as consideremos. Há, na inspiração aparentes acasos, que parecem dirigidos para uma finalidade, embora siga através de fluxos e refluxos. No pensamento de todos os povos, atribue-se sempre a inspiração à influência de um numem, que o concede ao homem. Entretanto, o estudo da emergência nos permite compreender que já possui o homem, em sua inteligência, suficiente poder para realizar algo de novo e de criador, sem que tal afirmativa implique a negação ou a desvalorização das investigações que se processam, quanto à interferência de poderes superiores extra-humanos.

Fala-se muito na inspiração dos artistas. Esse misterioso poder de criação. espontâneo, que parece como se uma potência exterior viesse em auxílio daquele.

Muitos artistas realizam obras num estado de mínima consciência, apercebendo-se do que fizeram quase ao fim ou ao término do que encetaram. Alguns chegam a afirmar um caráter de mediunidade, como se o artista não passasse de um instrumento dócil às mãos de um ser misterioso que o guiasse na realização da obra, como Mozart, que ouvia os seus concertos, num só ato, escrevendo-os, depois, por memorização. Se muitos homens de ciência e artistas realizam seus trabalhos através de um hercúleo esforço de meditação, de reflexão, de análise meticulosa, outros, porém, são de uma espontaneidade extraordinária, e suas obras surgem como por encanto, e são realizadas como por um esforço único, de um único impulso.

Tais fatos, embora assinaláveis, não têm encontrado na psicologia uma explicação satisfatória. A complexidade com que se revestem, as características individuais, que os cercam, impedem um estudo como psicologicamente se deveria fazer.

Ultrapassam os métodos puramente extensistas da ciência e penetram em terrenos onde as medidas carecem de significação.

As genialidades possuem esse poder de criação quase espontâneo, embora se encontrem, entre os homens de gênio, aqueles que realizam obras através de um grande esforço reflexivo.

No entanto, são sempre assistidos desse poder criador extraordinário, num grau bem desenvolvido. Suas intuições criadoras são, depois de esboçadas espontâneamente, examinadas friamente para o acabamento final, mas se apresentam ao espírito num impulso único, surgem como se fossem ditadas por potências misteriosas. É natural que a Psicologia não possa ainda oferecer uma explicação satisfatória neste terreno.

No século XIX, estiveram os psicólogos mais preocupados com os aspectos fisiológicos da Psicologia. Não eram examinados os aspectos profundos do subconsciente e do inconsciente. Nestes casos, todas as regras dadas pelos associacionistas malogram. Aqui não há o automatismo, porque aqui há uma autonomia criadora.

Não é apenas nas obras dos artistas que se dão tais casos. Também na obra dos filósofos e dos cientistas há muito de imaginação criadora. É partindo dela que muitas grandes descobertas foram iniciadas".

O dicionário comum, o "Aurelião", diz apenas que é "(1) o ato de inspirar-se ou de ser inspirado; (2) Ato de introuzir o ar nos pulmões, de inspirar; (3) Qualquer estímulo ao pensamento ou à atividade criadora; (4) Por extensão, o resultado de uma atividade inspiradora; (5) Pessoa ou coisa que inspira: inspirador. (6) Entusiasmo poético; estro. (7) Em termos teológicos, significa uma moção divina, que segundo a crença cristã, teria dirigido os autores dos livros canônicos da Bíblia".

Quanto a origem da palavra, O Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa, não consta; mas consta inspirar:

vb. 'introduzir ar nos pulmões, incutir, infundir, fazer penetrar no ânimo' / xv, insperar xv / Do lat. inspirãre // inspirAÇÂO / xvi, spiraçõ xiv / Do lat. inspirãtio -õnis // inspirADOR xvi // inspirATIVO 1881 // inspirATÓRIO 1844. Cp. ESPIRAR, EXPIRAR.

Inspira+dor   *   Inspira+ação

Na Enciclopédia Mirador, curiosamente, a palavra INSPIRAÇÃO não consta. Mas aparece no índice a palavra inspiracionismo remetendo para crítica. Nos diversos conceitos e histórico da palavra crítica, chegamos na transição do século XVIII, onde se lê "Ao lado do sensualismo é decisivo o papel desempenhado pelo inspiracionismo, resultante da redescoberta de Longino. Ela se iniciara já em 1554, com a edição de Robortello, mas só alcançou a divulgação necessária com a tradução de Boileau, em 1674. A influência que Longino exerceu divide-se em duas fases distintas que quase se parece tratar de dois autores diferentes. O primeiro Longino é aquele cuja idéia de sublime aí se traduz na préciosité do estilo, na afetação grandiloquente da formosura. O sublime aí se identificava com o grandioso e se ajustava o hino à natureza, entoado pelo sensualismo. No segundo Longino, o realce passa à emoção e à secreta inspiração do poeta. A emoção do sublime - ékstasis - se converte no 'entusiasmo' ou 'paixão', espécie de emoção racional erguida contra a mesquinhez".

Ao cairmos na filosofia, vemos que o buraco é mais fundo do que pensávamos. Mas, nossa tarefa é exatamente esta: aprofundar o assunto. Numa segunda fase, vamos verificar a produção bibliográfica sobre o tema, o que há de publicado relevante na área. Nessa tarefa, gostaríamos de contar com a ajuda do prezado leitor, em nos enviar qualquer bibliografia (com resumo, se possível) sobre este ou qualquer dos outros temas propostos na obra "Mistérios da Criação Literária".

Enquanto isso, vamos aos

DEPOIMENTOS DOS ESCRITORES

Alberto Moravia

"Em arte, o tempo é, de resto, uma medida convencional: pode-se em dez minutos recuperar alguns anos de preguiça ou de obscuridade. A inspiração não se importa com o tempo. Verifica-se isso, verdadeira e fisicamente, nos momentos de inspiração: a inteligência executa, então, operações com uma rapidez extraordinária. Não é de espantar que Stendhal tenha escrito A Cartuxa de Parma em quarenta dias.”

Fonte: CHAPSAL, Madeleine. Os escritores e a literatura. Lisboa: Dom Quixote. 1967

Anderson Braga Horta

"Parto do que chamamos inspiração (embora nem sempre espere por uma centelha mágica...), que, todavia, não prescinde das técnicas de construção, sua contraparte intelectual. Na verdade, inspiração e construção imbricam-se, são aspectos de um ato unitário – o fazer poético. Não sei dizer qual dos dois aspectos predomina em mim”.

Fonte: GOMES, Danilo. Escritores brasileiros ao vivo. Belo Horizonte/Brasília: Comunicação/INL, 1979.

Antonio Olinto

"Para escrever tenho que ficar atuado, em transe. O que eu chamo de inspiração é, na verdade, transe. O importante é fazer um plano por escrito. Assim, você se compromete, por exemplo, a escrever cinco páginas por dia. Se não conseguir, fica devendo e 'paga' no fim de semana".

Fonte: Jornal do Brasil, 11/01/1997

Augusto de Campos

"Para mim, o momento em que se deslancha o fato poético é meio misterioso; quer dizer, acho que existe aí um problema de intuição, alguma espécie de percepção que se acumula e que subitamente te sugere uma palavra, uma imagem, que te ativa a sensibilidade. E naturalmente, aí, entram os conhecimentos, as aquisições culturais. É como se a gente estivesse todo o tempo se preparado tecnicamente para um momento que vai chegar; mas eu não posso dizer: vou escrever um poema daqui a uma hora; é impossível,  tem que haver uma somatória, uma química interna que me permita encontrar as coisas que eu procuro; às vezes tomo nota de uma palavra, de uma imagem, mas não consigo, muitas vezes, realizar imediatamente. Paul Valéry dizia: ‘Os primeiros versos te dão os deuses, o resto você tem que fazer’”.

Fonte: RICCIARDI, Giovanni. Escrever 2. Bari: Ecumênica Editrici scrl, 1994.

Autran Dourado

“Não gosto da palavra inspiração. Prefiro usar o termo ‘idéia súbita’, que pode ser uma figura, uma frase... A minha tendência natural, depois de uma dessas idéias súbitas, é vir para casa e começar a escrever. Mas eu me contenho e deixo que a história cresça e evolua dentro de mim.

Fonte: O Globo, 29/01/1995 – Elizabeth Orsini 

“Em geral, organizo o livro antes de estar pronto. Quando me vem uma idéia súbita, minha tendência inicial é correr para casa, sentar e escrever. Por isso, onde eu estiver, ando sempre com um caderninho no bolso. Planejo, tomo notas, até que surja a forma. Leio uma porção de livros auxiliares. Estudo, faço fichas, lista de palavras boas. Deixo que a idéia súbita cresça e germine dentro de mim, crie sua própria forma".

Fonte: Correio Braziliense, 2/11/1997 - Nahima Maciel

Carlos Drummond de Andrade

"Eu sou inteiramente partidário da idéia da inspiração. Seja banal, antiquado, mas sem inspiração não se faz nem se escreve nada. A pessoa adquire a técnica de se comunicar e tem facilidade, como eu tenho, de escrever coisas. Mas aquela coisa profunda que vem das entranhas da gente, isto é inspiração..."

Fonte: Jornal da tarde, 19/10/1986

Carlos Fuentes

"Não creio na inspiração, é um palavra que detesto. Só existe nas cartas de amor, aos quinze anos. Creio na disciplina, às oito da manhã, com minha caneta, até a uma da tarde e depois, até a noite, trabalhando.

Fonte: O Estado de São Paulo, 24/04/1983

Clarice Lispector

“O processo de escrever é feito de erros - a maioria essenciais - de coragem e preguiça, desespero e esperança, de vegetativa atenção, de sentimento constante (não pensamento) que não conduz a nada e de repente aquilo que se pensou que era “nada” era o próprio assustador contato com a tessitura de viver - e esse instante de reconhecimento, esse mergulhar anônimo, esse instante de reconhecimento (igual a uma revelação) precisa ser recebido com a maior inocência, com a inocência de que se é feito".

Fonte: Jornal do Brasil, 8/5/1999

"Quando estou escrevendo alguma coisa eu anoto a qualquer hora do dia ou da noite, coisas que me vêm. O que se chama inspiração, não é? Agora quando estou no ato de concatenar as inspirações, aí sou obrigada a trabalhar diariamente".

Fonte: Revista Shalom. S.Paulo, v. 27, nº 296, 1992.

Daniel Piza

Escrevo sentado, vestido, ao computador de mesa, digitando rapidamente com dois dedos, de vez em quando parando para tomar um copo d´água ou uma xícarade café, de manhã e à tarde, produzindo em média 100 laudas por mês, corpo 14 em Times New Roman, tela branca, no escritório de casa ou na sala da redação. A descrição soa a de uma rotina burocrática, mas o que aprendi foi justamente que a inspiração só vem para quem trabalha por ela".

Fonte: Depoimento em 15/01/2005.

Décio Pignatari

A poesia é uma coisa divina, mas a prosa é um sofrimento brutal, não é a inspiração que resolve. Eu concordo com aquele pensamento de Baudelaire que dizia que 'quanto mais se trabalha, melhor se trabalha'. Não gosto de fazer um trabalho no ímpeto da inspiração. Gosto de trabalhar, com método e com concentração, para pensar na frente daquele branco enorme à minha frente - o Brasile é um imenso branco, o significado de cada palavra é uma benção enorme".

Fonte O Estado de São Paulo, 27//02/1999 - Jotabê Medeiros

Dias Gomes

"Não conheço nenhum (processo de inspiração). Ele vem como e quando quer vir, das formas mais diferentes. Nunca tive duas peças que nascessem do mesmo modo. Na televisão, dado seu sistema de trabalho, aprende-se a trabalhar sem inspiração. Do contrário, ninguém poderia escrever novelas".

Fonte: O Estado de São Paulo, 26/03/1996 - Natasha Szaniecki

Dinah Silveira de Queiroz

"Nunca ri, nem caçoei de nenhum escritor malogrado porque, simplesmente, não somos nós os donos do momento em que pisamos aquele lugar no qual os outros nos encontram. Será a sorte, será a mão de Deus Pai, será a humildade de fazer e refazer? A verdade é que se a mensagem chega – nós estamos salvos, somos escritores. Mas qualquer um de nós pode oferecer generosamente tudo o que tem dentro do seu espírito e vir a ser recusado, simplesmente porque não achou aquele terreno de encontro com o próximo, isto é, a mensagem não atingiu o alvo".

Fonte: LISPECTOR, Clarice. De corpo inteiro. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

Ferreira Gullar

"Creio que o impulso secreto (para escrever Poema sujo, em 1975) foi a urgência de reafirmar a vida, de resgatá-la na distante São Luís da infância. Escrevi o poema num estado de espírito especial, 'inspirado', como se dizia antigamente. Não tinha plena consciência do que escrevia e nem hoje sei ao certo o que o poema significa. A verdade é que, ao escrevê-lo, me sentia vivendo em plenitude".

Fonte: MARETTI, Eduardo. Escritores: entrevistas da Revista Submarino. São Paulo: Limiar, 2000.

Francisco Alvim

"...Então, é necessária uma violência muito grande, uma maneira que não me deixe espaço para escapar, daí o negócio da inspiração. Todo mundo é contra, não existe inspiração. Para mim existe, sim, é aquilo que me obriga a sentar e ouvir uma voz qualquer e ficar com o olho inteiramente perdido, nas circunstâncias mais embaraçosas; às vezes, no meio do trabalho o sujeito está contando coisas essenciais e eu procuro o ritmo, a palavra e vejo que o poema está saindo, está saindo a despeito da minha vontade. Ai, eu me jogo e escrevo em qualquer lugar”.

Fonte: RICCIARDI, Giovanni. Escrever 2. Bari: Ecumênica Editrici scrl, 1994.

Frederick Forsyth

"A inspiração vem do mundo ao meu redor. Pode ser algo que vejo na televisão, num filme, um documentário, um jornal ou revista. A primeira coisa que acontece é meu cérebro começar a perguntar por que aquilo está acontecendo e o que está por trás".

Fonte:O Globo, 30/o8/1992 - Daniel Stycer

Gabriel Garcia Márquez

"Você espera pela inspiração, quaisquer que sejam as circunstâncias. Essa é uma palavra que os românticos exploravam muito. Meus camaradas marxistas têm dificuldade em aceitá-la, mas não importa o nome que se dê a isso, estou convencido de que há um estado de espírito especial em que você consegue escrever com grande facilidade e as coisas simplesmente fluem"

Fonte: Os Escritores 2: As históricas entrevistas da Paris Review. São Paulo: Cia. das Letras, 1989.

Gary Snyder

“Estou sempre escrevendo poemas. Quando me sinto estimulado a escrever? Quando me sinto estimulado a escrever! A poesia não é prosa: na prosa você pode se atirar e se forçar a escrevê-la. Já com a poesia é preciso que a voz chegue até você. É uma questão de inspiração, de se conseguir uma idéia criativa que o surpreende e que vem de outra parte. Meu trabalho é sempre estar pronto para a poesia. A escrita de um novo poema é sempre uma surpresa”.

Fonte: O Estado de São Paulo, 31/05/2009 – Rodrigo Garcia Lopes   

Georges Simenon

"Jamais tive inspiração literária...não acredito no estado de graça. Acredito no escritor se desfazer da sua pele e entrar na pele do personagem".

Fonte: Revista Oitenta (Porto Alegre), vol.1, dez. 1979.

Gilberto Mendonça Teles

"Os gregos falavam de musa; os latinos de inspiração; Paul Valéry em anjo ou demônio; Freud deve ter pensado no desejo. Eu penso na vontade: de vez em quando sou tomado pela vontado-desejo de escrever algo, e começo a escrever".

Fonte:<www.poeticas.com.br> 11/11/2004

Henry Miller

"Cada pessoa tem seu próprio caminho. Afinal de contas, a maior parte dos escritos é feita longe da máquina de escrever, longe da escrivaninha. Eu diria que acontece nos momentos calmos e silenciosos, quando estamos caminhando, fazendo a barba ou jogando uma partida ou seja o que for, ou até mesmo conversando com alguém por quem não temos um interesse vital".

Fonte: Os Escritores 2: As históricas entrevistas da Paris Review. São Paulo: Cia. das Letras. 1989.

Hilda Hilst

"A poesia vem como uma febre. De repente lhe vem e aí você agradece. Você nem sabe explicar por que tem esse dom".

Fonte: Correio Braziliense, 15/02/1998 - Sergio de Sá

Isabel Allende

"Em meu trabalho há rituais. No meu escritório sempre há flores. E nunca deixo de acender um vela quando começo a escrever, porque sinto que assim chamo a inspiração... Acabou a vela, acabou o trabalho".

Fonte: Playboy, agosto de 1999.

Jean Cocteau

"Não é inspiração; é expiração". (As mãos finas e pálidas sobre o peito; solta o ar; um profundo suspiro saindo bem de dentro.)

Fonte: Os escritores 2: as históricas entrevistas da Paris Review. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
 

João Cabral de Melo Neto

Eu não acredito em inspiração e nem sou poeta inspirado. O ato de criação para mim é intelectual. Minha poesia trabalha a criação e a construção. Acredito na expiração. Na composição de um poema, primeiro me ocorre um tema e eu tomo nota. Depois vou estudando-o e desenvolvendo-o. Nunca escrevi um poema inspirado, soprado pelo Espírito Santo. Isso eu não sei o que é...".

Fonte: Correio Braziliense, 18/01/1998 - Gerson Camaroti

"Inspiração não tenho nunca. Aliás, como diz Auden, a poesia procura a gente até os 25 anos. Depois, é a agente que tem de procurá-la, inspirá-la. Confesso que desde o início construí minha poesia. Rendimento é uma questão de trabalho e método. De sentar todos os dias à mesma hora. O rendimento dos primeiros dias pode ser menor, mas depois se torna regular".

Fonte: Jornal do Brasil, 16/08/1968

"Há dois tipos de poetas: os esforçados e os inspirados. O poeta inspirado tem defeitos que o esforçado não tem, e vice-versa. Eu, por uma questão de temperamento, me coloco entre os esforçados. Há quem diga que tudo que não é espontâneo não é autêntico, mas não concordo com a opinião. Com o esforço, pode-se aprefeiçoar sempre uma obra, independente da inspiração".

Fonte: Diário de Pernambuco, 08/10/1973 - Geneton Moraes Neto

Jorge Luiz Borges

"Quando alguma coisa me vem, uma espécie de vaga revelação - a palavra é pretensiosa, eu diria antes, quando entrevejo alguma coisa, que pode ser um poema, um conto, uma página de prosa -, ela me é revelada em seguida.

Fonte: Leia, São Paulo, setembro de l985.

José Saramago

"Todos os meus livros começam, digamos, – não quero chamar de inspirações, a palavra inspiração não significa nada - diria mais por iluminações. É como se de repente, numa superfície escura, uma luz tivesse iluminado qualquer coisa".

Fonte: Correio Braziliense, 23/11/1997 - Armando Mendes

Josué Montello

"Não acredito no escritor que só produz mediante 'inspiração'. Acho que todo criador é um grande crítico que exerce sobre si mesmo uma grande vigilância. Muitas vezes esse grande crítico não tem um pensamento coincidente com a crítica de fora mas o crítico existe assim mesmo na elaboração do romance.

Juan Gelman

"quando você começa a escritura, a obsessão está num ponto muito elevado e a expressão dessa obsessão está num ponto muito baixo. Quase sempre a obsessão traz elementos de uma obsessão anterior, que ficaram incrustados. Isso aparece no que chamam de técnica. À medida que você vai escrevendo, a obsessão baixa e aumenta a proximidade em relação à expressão. Há um ponto em que elas se cruzam e aí, então, conseguem-se os melhores poemas".

Fonte: Nossa América, São Paulo, nº 3, jul./ago. 1990

Juan Rulfo

"Quando começo a escrever, não creio na inspiração, a questão de escrever é uma questão de trabalho. Começar a escrever para ver o que sai, e encher páginas e páginas, para que, de repente, apareça uma palavra que nos dê a chave do que há de ser feito, para ver o que será aquilo. Às vezes acontece de eu escrever cinco, seis ou dez páginas e não aparecer aquela personagem que eu queria fazer aparecer, aquela personagem viva, que tem que se mover por conta própria; quando de repente ela surge, a gente vai seguindo, vai atrás.”

Fonte: Nossa América, S.Paulo, nº 3, 1992

Julio Cortázar

"Mas o que posso dizer, e por isso falo que o trabalho me impõe o método, é que, quando começo uma coisa, há subitamente uma espécie de corrente que se fecha entre mim e a coisa, entre mim e essa página que foi posta na máquina. E então volto, fico e termino o que estou fazendo. Nesse momento sou capaz de trabalhar horas seguidas".

Fonte: PREGO, Omar. O fascínio das palavras: entrevistas com Julio Cortazar. Rio de Janeiro: José Olympio, 1991.

Luis Fernando Veríssimo

"Não acredito em inspiração. As idéias ficam guardadas em algum lugar e quando eu preciso, elas vêm. Mas nada a ver com uma coisa misteriosa chamada inspiração. Tenho a obrigação de produzir e produzo.

Fonte: Correio Braziliense, 09/11/1997 - José Rezende Jr.

 

Marcos Rey

Nos momentos em que sinto vazio ouço música. Aí sacode tudo lá dentro... sinto que a ispiração vem mais fácil, mais impetuosa, mas definitiva. Ela cria o clima na cabeça. Se prestar muita atenção me aproximo e sinto o que o autor da música quer dizer, e, às vezes, coincide com o texto: é isso, é isso que quero fazer".

Fonte: Correio Braziliense, 11/01/1998 - Nahima Maciel

 

Mario Quintana

"A poesia não é inspiração pura, é trabalho; não é só ficar esperando que o santo baixe, é preciso puxar o santo pelos pés e isso dá trabalho; esse é o trabalho poético...".

Fonte: RICIARDI, Giovanni. Auto-retratos. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

Menotti del Picchia

"Tenho certeza de que, muito moço, comecei a fazer versos sem realizar, talvez, nenhuma poesia. A 'inspiração' não é mais do que um estado de espírito que nos solicita a criar alguma coisa: prosa ou verso. Pode, nestes transes, nascer poesia... Escrevo a lápis, sem hora certa, sob o impacto da inspiração".

Fonte: STEEN, Edla van. Viver & escrever 1. Porto Alegre: LP&M, 2008

Moacyr Scliar

"A chamada inspiração ainda é um mistério. Sim, ao contrário do que pensavam os gregos, ela não vem das musas; mas de onde vem, então? Já se identificaram, no cérebro humano, numerosos centros responsáveis por tal ou qual atividade mental; mas o centro da 'inspiração', este ainda não foi encontrado e, provavelmente, não será tão cedo. O que, diga-se de passagem, não é de todo mau. Um pouco de mistério dá gosto à existência".

Fonte: BRITO, José Domingos de. Como escrevo?. São Paulo: Novera, 2007.

Sofro - terrivelmente - de um excesso de inspiração. Poderia escrever um romance atrás do outro, ou vários a um tempo. o que às vezes me acontece. Felizmente não tenho tempo. Felizmente, porque isto me obriga a estabelecer prioridades".

Fonte: STEEN, Edla van. Viver & escrever. v.3, 2ed. Porto Alegra, RS: L&PM, 2008.

 

Olga Savary

"Surgir, ele, o poema, ou o texto de ficção, pode surgir de qualquer estímulo exterior, de alguma coisa que ficou latente na memória, de tanta coisa. Tudo que nos rodeia, nos inspira. O resto é por conta da transpiração".

Fonte: RICCIARDI, Giovanni. Auto-retratos. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

Orígenes Lessa

"Não acredito em inspiração. Acredito em mão-de-obra. Com facilidade maior ou menor, mas mão-de-obra.

Fonte: MARETTI. Eduardo. Escritores: entrevistas da Revista Submarino. São Paulo: Limiar, 2000.

Pablo Neruda

Não escrevo e leio muitas coisas no dia. Meu desejo seria escrever todo dia, porém, muitas vezes, a plenitude de um pensamento, de uma expressão, de algo que sai de uma maneira muito tumultuosa de minha própria inspiração, usando uma palavra antiquada, me deixa ou satisfeito ou exausto ou  vazio. Ademais gosto demasiado de viver para estar todo o dia sentado em um escritório. Isto é algo que não está de acordo comigo...".

Fonte: http://www.latinartmuseum.net/neruda.htm (consulta em 09/05/2005)

Extraído de: Pablo Neruda (1904-1973) Entrevista con Rita Guibert. México: Editorial Novaro, S.A., 1974.  

Rachel de Queiroz

"A noção comum que se tem a respeito do escritor é que pessoas excepcionais, nascidas com o dom de escrever bem o belo, são preriodicamente visitadas por uma  espécie de iluminação das musas, ou do Espírito Santo, ou de um outro espírito propriamente dito - fenômeno a que se dá o nome de 'Inspiração'. O escritor fica sendo assim uma espécie de agente ou médium, que apenas capta as inspirações sobre ele descidas, manipulando-as no papel graças 'aquele' dom de nascimento que é a sua marca. Pode ser que existam esses privilegiados - mas os que conheço são diferentes. Não há nada de súbito, nem de claro, nem de fácil."

Fonte: O Estado de São Paulo, 22/03/2003

Raimundo Carrero

"Acredite: não existe inspiração".

O 1º mandamento do decálogo de conselhos, publicado no nº 100 do jornal Rascunho, de Curitiba.

Rubem Braga

"Há um fato importante em minha carreira, Eu sempre escrevi para jornal. A partir do Correio do Sul, de Cachoeiro de Itapemieim, que era de meu irmão Armando e chegou a sair três vezes por semana. Lá publiquei alguns versos mas escrevia principalmente artigos terrivelmente sérios sobre política, lavoura, economia etc., e uma ou outra crônica ligeira. Em suma: eu escrevia o que dava na telha e, na verdade, nunca tive pudor de fazer versos. É que fazer bons poemas (em versos) exige um tipo de habilidade e de economia, de síntese e ao mesmo tempo, desclpem a palavra, inspiração. É muito mais fácil ir na cadência da prosa, quando acontece ela dizer alguma coisa poética, tanto melhor".

Fonte: LISPECTOR, Clarice. Entrevistas. R.Janeiro: Rocco, 2007.

Vikram Seth

"Eu acredito nessa noção pouco em moda da inspiração. Se não fosse assim, haveria seguido sendo economista e fazendo minha tese de de doutorado".

Fonte: Clarín (Bs.As), 20/07/1995

W.H. Auden

"A Musa é uma moça alegre que não gosta de ser cortejada com brutalidade ou grosseria. E ela não gosta de devoção submissa – aí ela mente".

Fonte: Os escritores 2: As históricas entrevistas da Paris Review. São Paulo: Companhia das Letras, 1989

William Faulkner

"Não sei nada a respeito da inspiração, porque não sei o que é - ouvi falar a respeito dela, mas nunca a vi."

Fonte: Os escritores: as históricas entrevistas da Paris Review. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.

 

 

 

 

 

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