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Como escrevo?
Autran Dourado

“Em geral, organizo o livro antes de estar pronto. Quando me vem uma idéia súbita, minha tendência inicial é correr para casa, sentar e escrever. Por isso, onde eu estiver, ando sempre com um caderninho no bolso. Planejo, tomo notas, até que surja a forma. Leio uma porção de livros auxiliares. Estudo, faço fichas, lista de palavras boas. Deixo que a idéia súbita cresça e germine dentro de mim, crie sua própria forma. Quando estou trabalhando em um livro, fico o dia inteiro por conta. Me preparo e então levo um ano ou mais. Todo dia, escrevo durante cinco horas, pela manhã, de 7h às 12h. Produzo duas páginas, duas e meia, no máximo. Só leio os jornais à tarde ou à noite, para não ficar preocupado. Depois de ler o dia inteiro coisas que me auxiliam no trabalho, descanso. Todo ano releio três livros de Machado de Assis: Dom Casmurro, Quincas Borba, e Memórias póstumas de Brás Cubas, para limpar a língua que fica suja das leituras estrangeiras. Sei quase de cor, sou maníaco, metódico. O enredo é um problema quase matemático. É como um esqueleto, um fio condutor para manter a história em desenvolvimento. A história é só um arcabouço. O importante é a forma da narrativa, as metáforas. Tento me conter durante o desenvolvimento, porque minha tendência é deixar o assunto correr. Procuro afastar as pessoas, me desligar, para não contaminar o romance. Comigo não tem essa coisa de dizer que o personagem, no meio do livro, tomou força, me pegou pelo pescoço e dominou a cena. Faço realismo simbólico, em que as coisas são o que são e significam. Isso me direciona inclusive na escolha dos nomes. Mas nunca altero o enredo por causa de um personagem”. 

Fonte: Correio Braziliense, 2/11/1997 - Nahima Maciel

“Leio muito sobre temas que me interessam para a construção do ambiente ou da psicologia dos personagens. Quando escrevi Os sinos da agonia, que se passa na ambiência do século XVIII em Minas, li uma quantidade enorme de livros sobre história mineira, anotando as palavras que usavam na época, confrontando versões etc... Escrevo diariamente, e pela manhã, às vezes das 5h em diante, porque durmo muito pouco”.

Fonte: O Globo, 29/07/1994 – José Mario Pereira

“Não gosto da palavra inspiração. Prefiro usar o termo ‘idéia súbita’, que pode ser uma figura, uma frase... A minha tendência natural, depois de uma dessas idéias súbitas, é vir para casa e começar a escrever. Mas eu me contenho e deixo que a história cresça e evolua dentro de mim. Nesse período fico tomando notas, fazendo sinopses, traçando o plano do livro, como se fosse uma grande gestação. É um processo que leva de quatro a seis meses. Comigo não existe essa história de os personagens me surpreenderem. Controlo todos eles. Pelo menos eu penso que controlo”.

Fonte: O Globo, 29/01/1995 – Elizabeth Orsini 

 

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