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João Cabral de Melo Neto
Entrevista conduzida por Claudiney Ferreira e Jorge Vasconcellos, do programa Certas Palavras, da Rádio Eldorado, com a participação de Augusto de Campos e Lêdo Ivo, apresentada em julho de 1988 e republicada no livro: FERREIRA, Claudiney; VASCONCELLOS, Jorge (orgs.) Certas Palavras. São Paulo: Estação Liberdade: Secretaria de Estado da Cultura, 1990, de onde foi extraída.
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- Augusto de Campos:
Dos poetas que antecederam a minha geração, aquele com quem eu tenho mais afinidade, aquele que para mim sempre foi o mais importante é o João Cabral, não só pelas características de rigor compositivo da sua obra, como pela sua aversão ao sentimentalismo e à facilidade. O João Cabral desenvolveu ao longo dos anos uma obra extremamente coerente, que para nós, de geração posterior, constituiu uma lição de poesia. Eu me lembro de que numa carta, uma das raras cartas que tenho do João Cabral, de cerca de 20 anos atrás, ele me falava da dificuldade que sentia para escrever - João devia ter, àquela altura, uns 40 e poucos anos. Ele escreveu uma coisa que me impressionou muito naquela ocasião: "Será que o costume, ao invés de ensinar a escrever, desensina?" Isso me impressionou muito porque é um tema que me acompanha no desenvolvimento do meu próprio trabalho. Então eu gostaria de perguntar ao João, passados tantos anos, como ele convive com essa circunstância, ou com esse tema, com essa espécie de obsessão.
Augusto, muito obrigado pelo que você diz da minha poesia. Não me lembrava de ter dito isso a você, mas 20 anos depois continuo a achar a mesma coisa de poemas prontos - eles publicam aquilo como se fosse um depósito. Esse cansaço de estruturar um poema longo me veio com a idade, a incapacidade de estruturar um livro como acho que deva ser estruturado me veio com a idade, e também de fazer poemas mais complexos, como fiz nessa fase de Quaderna até A educação pela pedra. Meus poemas, desde Museu de tudo, são poemas mais ou menos soltos e que depois eu reúno em livro. A unidade é mínima. A Escola das facas tem uma unidade fora, apenas porque todos os poemas são sobre Pernambuco; em Museu de tudo, é porque dá idéia de museu, fala de pintor, de paisagem, fala de gente; a mesma coisa em Agreste. Agora, escrever um poema não ensina, não facilita a você escrever outro. Acho, aliás, que é uma coisa que a gente deve evitar, cair no automatismo de si mesmo. Sempre pensei que à medida que eu fosse aprendendo a fazer poesia, quer dizer, à medida que eu fosse controlando a minha maneira de fazer, começaria a fazer mais facilmente, ou seja, a pessoa encontra a sua forma e então deita-se na cama e põe aquilo a multiplicar. Acontece que isso é um grande engano. Para cada poema novo eu saio como se fosse para uma aventura nova. Tenho a impressão de que um poema não ensina a gente a fazer o poema seguinte. No poema seguinte a gente quer fazer uma outra coisa, ou melhorando ou fazendo diferente. Uma outra coisa que eu disse também é o seguinte: quando escrevi essa carta eu devia ter 40 e poucos anos - isso é uma confissão que quero lhe fazer - e ainda era capaz de fazer um livro estruturado, de Quaderna até A educação pela pedra; mas agora, com a idade, eu me sinto cansado para estruturar um livro como tal. De forma que os meus últimos livros, com exceção do Auto do frade, que é um auto, portanto tem uma certa unidade, são como em geral todos os poetas fazem. O poeta deve sair para cada poema como se fosse para uma aventura, como se fosse o primeiro que está escrevendo.
- Augusto de Campos:
Muitos anos atrás, também, o João publicou na Revista Brasileira de Poesia traduções muito bonitas do catalão, e uma delas, que me impressionou muito e até hoje eu me recordo, é do Josep Palau, em que ele se dirige a uma mulher e diz assim: "Eu quero desnascer em ti". Quero saber se o João pretende algum dia reunir essas traduções que ele publicou em revistas.
Aqueles poemas que saíram na Revista Brasileira de Poesia são de poetas catalães de minha geração e foram traduzidos da primeira vez em que estive lá. Em 1954 houve o Centenário de São Paulo, e uma sociedade catalã abriu um concurso para poemas traduzidos do catalão e Domingos Carvalho da Silva me convidou para participar. Aqueles 17 poemas já não eram inéditos e eram poucos para participar de um concurso assim, de forma que eu acabei outras traduções dos poetas que eu tinha começado na Catalunha e de poetas mais antigos que esses da minha geração. Há gente interessada em publicar isso, mas acontece que eu cheguei de Portugal e ainda não arrumei todo o meu arquivo e todos os meus livros. É uma coisa de tanto tempo, de 54 para cá, que eu quero reler para ver se vale a pena publicar. Agora, os poetas posteriores eu não conheço bem, porque da segunda vez que servi em Barcelona como cônsul-geral, confesso que estava interessado em outras coisas e não me pus a par do que o pessoal mais jovem estava fazendo, de forma que eu acho que vai sair uma antologia um pouco datada, com poetas até a minha geração.
- Ledo Ivo:
Conheci João Cabral de Melo Neto no Recife, em 1940. Eu tinha 16 anos e ele tinha 20, de modo que é a minha amizade mais antiga, de quase meio século. Somos amigos precisamente há 48 anos. Não tenho visto João há dois anos, embora ele esteja no Rio de Janeiro, então eu pergunto: por que esse sumiço, João? Por que você não aparece na Academia Brasileira de Letras?
Não há sumiço nenhum, e aliás não estou no Rio há dois anos, mas exatamente há um ano. O que acontece é que em Lisboa, ultimamente, eu tinha passado bastante mal de saúde. Sofri duas operações muito complicadas, numa das quais eu quase ia batendo as botas. Desde que voltei tenho me sentido bastante deprimido. Um amigo meu disse que é a síndrome do aposentado... Eu não sei, talvez seja. Não tenho ido à Academia apenas porque ando meio deprimido, e acho que minha companhia não deve ser muito agradável para os amigos, por isso praticamente não tenho visto ninguém. Você sabe que um dos grandes amigos meus é o Lauro Escorel, que eu quase não vejo, não o vi nenhuma vez depois que cheguei. Você diz que eu sou o seu mais antigo amigo, e eu digo a mesma coisa: você é o mais antigo amigo meu. Muitas vezes tenho vontade de ir à sua casa bater um papo, ou coisa assim, mas a verdade é que me sinto inteiramente incapaz de tomar a iniciativa, de dar um telefonema. Eu atendo ao telefone, mas para me mexer, pegar o telefone e ligar para o amigo, me é difíciL...
- Certas Palavras:
João Cabral, você falou nessa resposta ao Ledo Ivo sobre a síndrome do aposentado e citou o esforço que é para você, hoje, atender telefone. Isso tudo não seria, digamos, uma introspecção sua em busca de um tempo perdido? E talvez porque não valha a pena atender ao telefone?
Não. O difícil para mim é tomar a iniciativa de telefonar. Quanto à síndrome do aposentado, é uma coisa terrível porque sou um sujeito que precisa de muita disciplina. Fui diplomata por 45 anos. Você vive fora, mas tem aquela obrigação, a hora certa, tem de ir ao trabalho, tem obrigações sociais, ao passo que com o aposentado é uma coisa terrível, porque ele acorda de manhã e vê o dia vazio na frente dele, tem a disponibilidade absoluta de fazer o que quer. E isso, a falta de obrigação de fazer alguma coisa, me angustia muito. Quando estou livre para fazer o que quiser, acabo não fazendo nada, acabo sentado numa cadeira, lendo, incapaz de fazer qualquer coisa. Tanto que estou, agora, procurando ver se aproveito esses meus anos de Rio para pesquisar, na Biblioteca do Arquivo Histórico do Itamaraty, documentos de interesse para a história de Pemambuco. Isso vai me obrigar a cada dia a sair de casa como se fosse um emprego, embora não me renda nada, pois eu vou fazer esse trabalho por amor a Pernambuco e por simpatia ao Instituto Histórico de Pernambuco.
- Certas Palavras:
João Cabral, e a poesia? A poesia não exige essa disciplina, não seria uma forma de ocupar o tempo, trabalhar mais a palavra?
Bem, imaginei sempre que no dia em que me aposentasse eu poderia escrever mais livremente, mas acontece o seguinte: eu escrevia sempre nas horas vagas, e agora que todas as minhas horas são vagas não tenho estímulo. Outra coisa, a gente não pode escrever permanentemente poesia porque os nervos não resistem, de forma que eu trabalho muito, e escrever poesia é um trabalho esgotante. Se eu me entregar inteiramente a escrever poesia, meus nervos não terão resistência para trabalhar diariamente no extremo de mim mesmo. Para trabalhar eu preciso passar épocas de concentração, quando só faço aquilo, só vivo aquilo - e no meu atual estado de espírito estou incapaz dessa concentração.
- Certas Palavras:
Nossa questão agora abrange a influência que você já proclamou ter recebido do Drummond, e diz respeito também a sua relação com o Brasil. Numa entrevista você disse que não era um poeta brasileiro, e a explicação era lógica, ao aceitar a idéia de ser um poeta pernambucano, mas não um poeta brasileiro. Agora, com a morte de Drummond, há um certo desejo de adotar você como o primeiro poeta da sociedade. Como seria o fato de encarar a possibilidade desse reconhecimento, de ser o primeiro poeta de um país?
Não acredito nessa coisa de primeiro poeta. Penso que Carlos Drummond tivesse sido o primeiro poeta enquanto era vivo, pelo seguinte: se você pensar bem, o Carlos sobreviveu a todos os poetas da mesma categoria e da mesma geração dele. Sobreviveu ao Murilo Mendes, sobreviveu ao Joaquim Cardozo, ao Vinícius, ao Augusto Frederico Schmidt, ao Cassiano, de forma que ficou isolado. Então, naturalmente, todos se voltaram para ele como o grande poeta nacional que era. A qualidade da poesia de Carlos Drummond tinha tudo para fazê-lo um grande poeta nacional - a minha não tem, e aí é que está a coisa. Sou um poeta brasileiro na medida em que sou um poeta pernambucano. Nesse momento, o Sindicato do Açúcar de Pernambuco quer publicar esses livros-brindes de fim de ano, e foram escolhidos os meus poemas pernambucanos. Com isso fui fazer um levantamento e concluí que metade do que escrevi foi sobre Pernambuco. Fora esses poemas, escrevi um tipo de poema-crítica sobre autores, sobre pintores, de forma que tenho a impressão de que não reflito o sentimento nacional no sentido do Brasil como um todo. Como diplomata, vivendo no estrangeiro, está claro que teria de haver infiltração de muitos temas estrangeiros no material da minha poesia, sobretudo da Espanha, o país onde eu mais vivi - vivi lá 13 anos, em seis postos diferentes - e com o qual me identifiquei inteiramente, com todas as suas coisas populares. Não acredito que eu trate de temas amplamente brasileiros, porque vivi no Sul do Brasil muito pouco tempo. Eu vim de Pernambuco para o Rio de Janeiro aos 23 anos, fiz concurso para o Itamaraty e aos 27 anos fui para Barcelona. Desde então tenho vivido no estrangeiro, de forma que é um pouco difícil eu ser um poeta nacional. Sobretudo porque para ser um poeta nacional é preciso ser épico, o que Carlos Drummond de Andrade era e eu confesso que não sou. E não acredito absolutamente nesse negócio de eu ser o primeiro poeta. Na minha geração e nas gerações posteriores há poetas a quem caberia melhor esse título. Eu sei e me resigno, com muito orgulho, de vir a ser na poesia uma espécie de Augusto dos Anjos, um poeta meio marginal, que interessa, mas interessa de maneira especial. Não estou na corrente geral da tradição da poesia brasileira. Eu sou um sujeito que ficou um pouquinho de lado, não só por ter vivido no estrangeiro, como também porque não conheço o Sul do Brasil nem me identifiquei com os seus problemas, ao passo que com os problemas de Pernambuco eu me identifiquei. Saí de lá aos 23 anos, de forma que a memória é que é a grande reserva de poesia.
- Certas Palavras:
João Cabral, como é que você vê a relação do brasileiro com o livro?
Acho que é uma relação muito triste, porque o brasileiro não tem hábito de ler. Isto é uma das coisas mais tristes que eu vejo. Em segundo lugar, acho que seria de um grande bem para o brasileiro conhecer a boa literatura estrangeira. Em geral, o que traduzem são best-sellers. Recentemente, por exemplo, no aeroporto do Rio, eu estava esperando o avião ao lado da vitrine da livraria, e quase todos os livros eram traduções de best-sellers. Até parece que a tradução dos grandes romancistas, dos grandes poetas, dos grandes ensaístas não tem público no Brasil. Se você não sabe francês, espanhol, inglês, alemão, você fica cortado. E mais: quando traduzem aqui, traduzem muito tempo depois. O brasileiro não tem hábito de leitura, mas acho que deve haver uma solução para que passe a ler mais, não sei como - não sou político, não sou administrador, não sou o salvador do mundo -, mas que passe a ler não esses livros de escritores de best-sellers americanos que traduzem aí às pamparras. Tenho a impressão de que é preciso traduzir, porque nem todo brasileiro tem o dom de línguas; são poucos, a começar por mim. Eu tenho o dom de línguas no sentido de que aprendo uma língua com muita facilidade, mas minha pronúncia em todas elas é pernambucana
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